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Dia Mundial da Água

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.comPor trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

por Arthur Soffiati |

No dia mundial da água, existe muita hipocrisia, assim como nos outros dias dedicados a outros componentes da indivisível natureza. É hipocrisia porque enaltecemos a água num dia especial para a destruirmos efetivamente durante os outros dias do ano. Na verdade, mesmo no dia consagrado à água, as atividades econômicas que dependem dela, e praticamente todas dependem, não deixam de explorá-la. A homenagem é feita de palavras em páginas inteiras e cadernos de jornal.

Nós, humanos, todos integrantes de uma civilização globalizada, o que significa ocidentalizada, ficamos felizes por existir água doce, pois não vivemos de água salgada. Mas não nos interessa saber que a água doce representa uma ínfima parcela de toda a água do mundo, superficial e subterrânea. A bacia do Amazonas, a maior do mundo, é insignificante se comparada à água dos oceanos.

Além do mais, pelo ciclo da água, a dependência entre água salgada e água doce é íntima. A água doce corre pelos continentes e chega aos mares, tonando-se salgada, mas o calor do sol e os ventos produzem a evaporação da água dos oceanos, que se transforma em nuvens, que se precipitam como chuvas e voltam aos continentes. 

Como é bela a natureza! Exclamarão os românticos. Deus a criou perfeita. E nós estamos estragando tudo. O ser humano não é destruidor por natureza. É a economia de mercado, que domina o mundo todo, que o torna imediatista, individualista e consumista. Existe o individualismo, o imediatismo e o consumismo de empresas. O chamado agronegócio consome a maior parte da água doce do mundo enquanto os governantes pedem para cada indivíduo fazer a sua parte. Economia de água é coisa para cachorro pequeno. O consumo de grandes porções dela é para cachorro grande sob o pretexto de produzir alimentos para matar a fome da humanidade. Outra grande mentira. Trata-se de usar a água para produzir alimentos e ganhar dinheiro com eles.

Um dos rios secos na China

Por um lado, a água doce se torna um bem natural e coletivo cada vez mais raro. No século XIX era considerado um bem abundante e, portanto, fora do mercado. Hoje, a tendência é cada vez mais transformar a água doce em mercadoria, mesmo em estado bruto. Além do mais, este bem indispensável para toda a forma de vida está sendo impiedosamente poluído. Leiam a história de rios límpidos no passado que se transformaram em valas negras. Hoje, um rio é destino de esgoto e lixo, transporta fertilizantes químicos e agrotóxicos. A atual guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã está mostrando que a água é mais importante do que o petróleo, mas esta realidade não está merecendo a devida atenção dos meios de comunicação.

Por outro lado, as águas oceânicas também são fundamentais à vida. Os humanos retiram delas muitos bens e serviços. Mas, além de contaminadas, elas estão sendo esvaziadas de vida. Se os rios são conspurcados, todos os dejetos lançados neles terminam no mar, que, por sua vez, recebe resíduos diretamente. Além do mais, estão sendo esvaziados pela acidez e aquecimento cada vez maiores e pela sobrepesca.

O drama das águas parece distante de nós, mas ele está bem perto. O que nos falta é interesse pelo que existe ao nosso redor, pela nossa história e geografia. Os naturalistas que passaram pelo Brasil no século XIX ficaram deslumbrados com a quantidade e a qualidade das águas continentais (rios e lagos), com as florestas e com a fauna nativa.

Na zona serrana, a água estava nos rios e no solo. As florestas a protegiam. Nas planícies, ela se acumulava em extensas lagoas. Mas as florestas foram derrubadas junto ao litoral e as lagoas de planície foram drenadas pela atividade agropastoril e pelas cidades.

Seca na Amazônia

De extremamente úmidos, os continentes carecem de água doce atualmente. E recente estudo efetuado pela SOS Mata Atlântica mostra que a água doce no domínio da floresta, em grande parte abatida, perdeu quantidade e qualidade. A maior parte está poluída. Se, no passado, o grande problema para a agropecuária e a agroindústria era o excesso de água, agora é escassez dela. 

Não há dúvida de que as florestas conservam água e são fundamentais para a humanidade. Senão vejamos: No Brasil, a Amazônia contém 70% da água doce. A Caatinga tem apenas 3%. O Sudeste e o Sul contam com 6% cada e o Centro-Oeste com 15%. As instituições científicas podem divulgar os dados mais alarmantes. Eles não sensibilizam os empresários e a população média. A população pobre sofre com falta d’água e poluição.

Há sinais claros de que continuamos a considerar a água como um bem abundante e inesgotável. No nosso imediatismo, queremos resolver um problema criando muitos outros no futuro, sem nenhuma preocupação com eles. Que nossos herdeiros resolvam amanhã os problemas que criamos hoje.

Portanto, não existem motivos para festejar o Dia Mundial da Água a não ser por um alerta que deveria ser feito durante o ano todo. Nesse dia, cubro-me de luto.

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