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Conferência de Santa Marta. Uma oportunidade de união internacional na luta contra os combustíveis fósseis

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.comPor trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

A transição para longe dos combustíveis fósseis deixou de ser uma abstração diplomática

| Rudá CaprilesECO21 |

A verdade é que a transição já começou, ainda que de forma desordenada, incompleta e cercada de contradições, a realidade está diante de todos, até o mais ganancioso sabe que a ciência não pode ser simplesmente negligenciada. Independente do tempo que seja necessário, o uso de combustão para geração de energia é obviamente um método obsoleto, fadado à ruína e ao sepultamento. 

O novo estudo, produzido pelos think-tanks IISD (Canadá), E3G (Reino Unido), Ecco (Itália), Sefia (Turquia) e pelo Observatório do Clima (Brasil)  apresentado às vésperas da Conferência Internacional de Santa Marta, na Colômbia, mostra que 46 países já possuem políticas de descarbonização do setor energético, enquanto outros 11 estudam medidas para limitar ou reduzir a oferta de petróleo, gás e carvão. 

As recomendações são pragmáticas dentro do seu próprio enquadramento: integrar NDCs, estratégias de baixo carbono e políticas setoriais em roteiros nacionais de economia inteira; usar alianças já existentes para manter ímpeto político; sistematizar aprendizado sobre subsídios, descomissionamento e transição justa; melhorar transparência; atacar lacunas de financiamento; e criar diálogo entre produtores e consumidores para administrar o ritmo do declínio fóssil.

Isso não significa, porém, que o mundo tenha finalmente encontrado um caminho seguro. Apenas destacam que soluções já existem. O projeto tem beleza e sabedoria ao meu entendimento, justamente por não repetir os problemas que todos sabemos e sim na intenção de união internacional (gostaria de dizer mundial) sobre as ações, consequências e possíveis soluções.

A conferência de Santa Marta, marcada para 24 a 29 de abril, surge justamente nesse ponto de inflexão. Pela primeira vez, um encontro internacional se propõe a discutir de forma específica a transição para além dos fósseis não apenas em termos de promessas climáticas, mas em sua materialidade política, econômica e social. A expectativa é alta. E também é inevitável a desconfiança. O mundo já viu muitas cúpulas produzirem palavras fortes e efeitos modestos.

Ainda assim, há algo de novo no horizonte. Depois de anos em que as negociações climáticas preferiram falar de emissões sem tocar frontalmente na engrenagem que as produz, o debate começa a enfrentar o centro do problema: a dependência global dos combustíveis fósseis. A pergunta já não é apenas quanto reduzir, mas como sair de uma economia ancorada em petróleo, gás e carvão sem aprofundar desigualdades, sem abandonar trabalhadores e sem transformar a transição em mais uma promessa seletiva, boa para os relatórios e ruim para a vida real.

Protesto da sociedade civil pelo fim dos fósseis na COP30, em Belém (Foto Claudio Angelo OC)

O estudo elaborado por IISD, E3G, Ecco, Sefia e Observatório do Clima oferece uma moldura importante para essa discussão. Na minha percepção para ter resultado é crucial o “G” de Governança, mas segundo os pesquisadores, roteiros eficazes de transição precisam obedecer a alguns critérios centrais: alinhamento com a ciência do clima; abordagem simultânea da produção e do consumo de fósseis; incorporação de justiça processual e distributiva; apropriação nacional com transversalidade dentro dos governos; e suporte de financiamento internacional coordenado, acompanhado de mecanismos robustos de monitoramento.

Traduzido para a linguagem do mundo concreto, isso significa abandonar a fantasia de que a transição acontecerá sozinha, por inércia tecnológica ou mágica de mercado. Significa ligar o declínio dos fósseis à nova economia e à expansão das renováveis. Significa rever subsídios que ainda sustentam o velho modelo. Significa planejar o descomissionamento de infraestruturas poluentes, recuperar áreas degradadas e, sobretudo, construir estratégias econômicas e produtivas para países cuja arrecadação continua presa à lógica extrativa.

Essa é talvez a dimensão mais sensível do debate. Para países produtores, a transição não é um slogan verde: é uma mudança estrutural. Mexe com orçamento público, emprego, geopolítica, poder regional e estabilidade social. Sem clareza, previsibilidade e cooperação internacional, o risco é o pior dos mundos: continuar investindo em oferta fóssil que pode perder espaço na demanda futura, ampliar vulnerabilidades fiscais, produzir ativos encalhados e desperdiçar a chance de construir novas bases de competitividade e segurança energética.

A urgência desse debate se intensificou nas últimas semanas com a escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, que pressionou os preços do petróleo e voltou a lembrar ao planeta um fato incômodo: a dependência dos combustíveis fósseis não é apenas um problema ambiental. É também um vetor de instabilidade econômica e geopolítica. A volatilidade do petróleo atravessa inflação, cadeias produtivas, custo de vida e crescimento global. Em outras palavras: insistir na velha matriz não conserva estabilidade; ao contrário, prolonga fragilidades. 

É por isso que Santa Marta tem peso estratégico. A conferência não nasce do nada. Ela dialoga diretamente com o ambiente político aberto após a COP30, quando mais de 80 países apoiaram um chamado por um roteiro global para uma transição justa, ordenada e equitativa para longe dos combustíveis fósseis. Esse apoio mostrou que a agenda avançou. Mas também expôs um impasse: há reconhecimento crescente da necessidade de transição, porém ainda falta transformar consenso difuso em coordenação real.

Santa Marta pode ser, nesse sentido, um teste de maturidade. Um teste para saber se o sistema internacional está disposto a sair do terreno confortável das fórmulas diplomáticas e entrar no espaço desconfortável das decisões práticas. Quem paga a conta da transição? Como proteger trabalhadores e territórios dependentes do carvão, do petróleo e do gás? Como impedir que o novo ciclo energético reproduza velhos padrões de concentração e sacrifício? Como alinhar ambição climática com soberania energética, justiça social e desenvolvimento?

As experiências reunidas no estudo ajudam a mostrar que não se parte do zero. As Parcerias de Transição Energética Justa (JETPs) na África do Sul, Indonésia, Vietnã e Senegal, os cronogramas de eliminação do carvão na Alemanha, Chile, Canadá e Dinamarca, e os esforços emergentes em países como Colômbia, Turquia e Brasil revelam que peças desse quebra-cabeça já vêm sendo testadas. A questão é que os resultados variam muito conforme a capacidade de governança e, sobretudo, conforme a previsibilidade do financiamento.

A Alemanha mostrou, com sua Comissão do Carvão, que pactos negociados entre setores podem gerar marcos legais concretos. O Chile demonstrou que cronogramas de saída podem ganhar ambição com revisões periódicas. Já as JETPs evidenciaram tanto o potencial quanto o limite da cooperação internacional: sem dinheiro suficiente, mecanismos claros de execução e compromisso político continuado, a transição corre o risco de ficar prisioneira do anúncio.

Essa talvez seja a principal cobrança que paira sobre Santa Marta. Não basta reconhecer que a transição já está em curso. É preciso decidir quem vai governá-la e com quais instrumentos. Porque ela vai acontecer de um jeito ou de outro. A dúvida é se ocorrerá de forma planejada, justa e coordenada — ou se será imposta por choques de mercado, crises climáticas e reações tardias.

Há, portanto, espaço para esperança, mas não para ingenuidade. O fato de mais de 50 países já terem dado passos concretos mostra que o debate não está mais restrito à esfera do desejo. O mundo começa a ensaiar respostas. Mas ensaio não é obra pronta. E a janela política de 2026, como alertam os especialistas, é estreita. O que for feito agora poderá aproximar planos nacionais de uma coordenação internacional minimamente coerente. O que for adiado ampliará os custos, os conflitos e a desordem.

No fundo, a conferência de Santa Marta coloca diante da comunidade internacional uma pergunta simples e brutal: o planeta continuará administrando a crise com linguagem sofisticada, enquanto posterga as escolhas difíceis, ou finalmente começará a planejar com seriedade o fim da era fóssil?

A resposta ainda não existe. Mas já não faltam evidências, estudos ou exemplos práticos. Falta coragem política, compromisso financeiro e senso histórico.

E talvez seja isso que torne Santa Marta tão importante: não como solução mágica, mas como momento de verdade. Um momento em que a esperança precisa ser acompanhada de cobrança — e em que as dúvidas, em vez de paralisarem, devem servir para exigir mais clareza, mais justiça e mais ação.

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LINKS:
https://oc.eco.br/wp-content/uploads/2026/03/TransitionAwayFF.pdf

https://oc.eco.br/wp-content/uploads/2026/03/Case-studiesTAFF.pdf

FONTE:

OBSERVATÓRIO DO CLIMA

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