Por Arthur Soffiati
Institutos meteorológicos e climatológicos do mundo todo alertam que a água doce está se reduzindo nos continentes e aumentando na atmosfera. Essa não é apenas uma questão ambiental, mas política. Como o volume de água doce só pode se reduzir por processo de eletrólise, conclui-se, por enquanto, que a água continental está na atmosfera e no mar. Os sistemas de reservação continental – superficial e subterrâneo – estão sendo destruídos. A economia de mercado muda radicalmente as paisagens. A política, por sua vez, está muito atrasada em adaptar os ambientes, sobretudo os urbanos, às novas condições climáticas planetárias.
Chama a atenção que as mudanças climáticas produzidas pela economia se manifestem, entre várias maneiras, por chuvas volumosas, como as provocadas pelas tempestades de inverno Kristin, Leonardo e Marta, que atingiram a Península Ibérica e norte da África, em janeiro-fevereiro de 2026. Entre nós, as chuvas de fevereiro vêm fazendo o mesmo estrago na Zona da Mata Mineira, notadamente em Juiz de Fora e Ubá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, no sul fluminense, na Região dos Lagos e no litoral paulista. Um especialista avisou que as chuvas do verão de 2026 seriam escassas, também como resultado das mudanças climáticas. Mas elas foram volumosas. O fevereiro de 2026 foi o mais chuvoso em 29 anos.
As chuvas intensas varreram Andaluzia, Galiza, Cádiz e a bacia do Tejo, afetando grande população. Em certos lugares choveu 500 mm em 24 horas. Foi um verdadeiro dilúvio. Quadro parecido reproduziu-se do outro lado do mundo, em Juiz de Fora, principalmente. Trata-se da nona cidade do Brasil com mais população vivendo em área de risco. As verbas destinadas pelo governo de Minas Gerais a obras de adaptação de cidades às mudanças climáticas reduziram-se drasticamente em três anos. Este é o lado político da questão. Já que não podemos fazer muito para reduzir as mudanças climáticas, temos de pensar em maneiras de nos adaptar a elas. Mas a política continua pensando com 50 anos de atraso, enquanto que a população continua acreditando na fatalidade.

Institutos de pesquisa e pessoas idosas evocam o ciclone extratropical de 1941, em Portugal, como termo de comparação, assim como, no Brasil, lembram da grande enchente que afetou o Rio Grande do Sul nesse mesmo ano de 1941. Entendo que, nos resultados, essas tempestades podem ser comparadas, mas, em suas causas, não. Em 1941, vivíamos ainda nos tempos dos fenômenos meteorológicos regulares e previsíveis. Talvez as alterações provocadas no clima por atividades humanas já se avolumassem progressivamente. O comportamento atual do clima apresenta irregularidade e desmesura. Para normalizá-lo, será preciso regular a emissão de gases e contar que o clima terrestre, por um processo de homeostase, volte a manifestar um comportamento minimamente previsível a longo prazo.
A água doce despejada do céu invade os vales de rios, transborda de seus leitos, atinge campos agropecuários, destrói casas, mata pessoas e verte para o mar. O que fica nos continentes não é a água doce, mas a destruição. No verão de 2026, chuvas provenientes da formação de zonas de convergência do Atlântico Norte atingiram a região Sudeste. Causaram enchentes e transbordamentos, muita destruição de obras humanas e mortes. Contudo, como na Península Ibérica, a água doce, em grande parte, acaba no mar.
No Brasil, principalmente nas regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, os reservatórios naturais de água foram destruídos em grande parte pela economia rural. Se os poderes públicos, no momento, pouco podem fazer para normalizar o clima holocênico, podem fazer bastante para reter água doce proveniente de tempestades no continente. Entendo que as barragens em rios continuam trazendo efeitos adversos para o ambiente. Inspirar-se nos exemplos da natureza parece proveitoso. Enchentes são passageiras. Depois do momento crítico, tudo seca. A água acaba no mar.

A construção de lagoas em área próxima a uma cidade diminui o impacto das enchentes e ainda reserva água doce para os tempos de estiagem. Mas não é uma solução válida para qualquer lugar. A urbanização vem ocupando áreas antes disponíveis para acumulação de água. A formação de lagoas junto a cidades não se torna foco de mosquitos, pois peixes criados nelas controlam vetores. Eles também servem de alimento. Claro que essas lagoas devem ser protegidas contra poluição. Claro que seu uso deve passar por tratamento. Além de tudo, essas lagoas acumulando águas pluviais umidificam o lençol freático e melhoram a qualidade ambiental. Quando se anuncia a falta d’água, as pessoas costumam encher panelas, baldes e bacias. A solução proposta é que esses pequenos reservatórios domésticos se tornem públicos.
Por outro lado, já contamos com mapeamento geológico mostrando que o maior número de cidades em áreas de risco se encontra em Minas Gerais. Já contamos com serviços meteorológicos refinados que podem prever tempestades severas. Mas nada disso adianta se as cidades continuam no mesmo lugar. Parece que a única solução é rezar e esperar que o bombardeio não atinja o alvo. Esse é um dos problemas: a acomodação diante do perigo. A oração depois da morte.



