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A humanidade-lesma fugindo das mudanças climáticas

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Arthur Soffiati |

Eu me divertia com as crônicas e os quadrinhos de Luís Fernando Veríssimo. Seu humor era fino. Um dia, ele decidiu que já estava muito velho para desenhar quadrinhos. Depois, reduziu a dois dias a publicação de suas crônicas. Mais adiante, diminuiu o tamanho das crônicas. Finalmente, um AVC o aposentou. 

Certa vez, me pediram que eu apontasse os dez quadrinistas que mais apreciava. Não hesitei em incluir o nome de Veríssimo, embora ele não seja desenhista com escola. Escrevi, na época (setembro de 2000), que “Veríssimo revela um alto dom de criatividade trabalhando sozinho, como em “As cobras”, ou em conjunto, como em “Ed Mort”, com Miguel Paiva. Ele é o nosso Jules Feiffer, o nosso Quino. Sua criação não faz concessões e se dirige a adultos. Foi uma pena ele encerrar “As cobras” por julgar-se velho para dedicar-se aos quadrinhos, pois suas tiras diárias conferiam aquilo que falta à maioria das criações em HQ: maturidade”.

Entre seus personagens, havia um casal de caracóis de nome Flecha e Shirlei. É irônico um caracol chamar-se flecha. Numa tirinha, Flecha anda na frente de Shirlei, como sempre, e ela chama a atenção para o risco que ambos correm com a elevação do mar, advertindo que ambos têm de se refugiar num local alto. Flecha, então, retruca dizendo-lhe que eles estão fugindo para este lugar alto há dez anos. 

Flecha e Shirlei, de Veríssimo

Nós somos caracóis como Flecha e Shirlei, mas caracóis com alta e rápida capacidade de mudar o ambiente. Temos velocidade para demolir ecossistemas, extinguir espécies, esgotar recursos naturais, produzir lixo, gerar gases causadores de mudanças climáticas. Temos, enfim, grande poder de criar problemas. Produzimos armas nucleares e agora estamos percorrendo o perigoso caminho da inteligência artificial. Por mais que cientistas e humanistas advirtam quanto aos perigos da energia nuclear, da inteligência artificial e da destruição da natureza, os perigos se aceleram e se agigantam por não existir um controle central de pessoas, laboratórios e países. Inconscientes dos perigos, vamos tocando para a frente.

Somos caracóis atômicos: rápidos em transformar o meio e lentos em atacar problemas decorrentes dessas transformações. O mais badalado problema ambiental da atualidade são as mudanças climáticas, embora muitos sustentem que são a luta das mulheres por se igualarem aos homens em oportunidades e não sofrerem violência deles; dos negros, por reconhecimento; dos outros gêneros além do feminino e do masculino; dos povos chamados impropriamente de originários etc. Da minha parte, entendo que todos são humanos e merecem respeito. Porém, entendo que os problemas ambientais são mais desafiadores por terem sido provocados pela humanidade (incluindo homens, mulheres, outros gêneros, negros e nativos aculturados) contaminada pelo projeto do desenvolvimento e do progresso, hoje global. Mulheres, negros, outros gêneros parecem estar, em suas respectivas lutas, num momento de buscar se igualar aos homens brancos bem-sucedidos. Basta notar o interesse (e a defesa) que mulheres, negros e outros gêneros fazem a favor do empreendedorismo. Até mesmo nas favelas o empreendedorismo ganha terreno. 

Excesso de chuva em Recife

O que percebo com clareza é o avanço rápido dos problemas ambientais e a lentidão das mudanças de consciência e ação por parte dos responsáveis pela destruição da ecosfera. A ficha demora a cair e, quando cai, demora a chegar no fundo do cofre. Algumas medidas estão sendo tomadas. Relatórios das agências internacionais alertam quanto à tendência de elevação de temperatura, de aumento do volume de chuvas e intensificação das estiagens; quanto ao risco (mesmo para o ser humano) do empobrecimento da biodiversidade, da destruição das florestas tropicais, da eclosão de vírus e bactérias causadores de pandemias; quanto à contaminação da água doce e de seu esgotamento; quanto aos impactos das cidades cada vez maiores.

Em Niterói e Recife, jardins filtrantes estão sendo usados para tratamento de esgoto. Em outros lugares também. Na Ásia, já existem cidades-esponja para absorver o excesso hídrico das chuvas volumosas. No Brasil, Curitiba é pioneira nesse processo e Belo Horizonte se inicia nesse processo. Num jornal português que me chega diariamente, leio sobre a preocupação das autoridades com a proximidade da temporada de incêndios de 2023. Também um jornal da Galícia, uma das nacionalidades formadoras da Espanha, informa que o “Plano de Prevenção e Defesa” pretende que os incêndios não ultrapassem 16.728 hectares, quando a média dos últimos anos foi de 19.791. E que não durem mais que cinco horas. É um objetivo tímido. 

Cidade-esponja na China

É de se esperar que as medidas de contenção, principalmente as de mudança de paradigma do pensamento, assim como novas tecnologias e práticas, ganhem mais velocidade. Do contrário, a elevação do nível do mar alcançará Flecha e Shirlei. O conjunto dos problemas ambientais alcançarão a humanidade. A maioria pobre sofrerá mais as consequências que a minoria rica.  

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