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Guerra lenta e progressiva

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Arthur Soffiati |

Diariamente, jornais e TVs estampam notícias sobre a guerra da Ucrânia, mesmo que superficiais e ligeiras. Afinal, a Ucrânia se definiu enquanto Estado nacional independente depois de 1991. Se a presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos visita a ilha de Taiwan, o mundo todo se volta para o acontecimento e seus desdobramentos. É natural. Dos dois lugares do mundo pode advir uma nova guerra mundial ou um conflito menor, mesmo assim com consequências imprevisíveis e sempre assustadoras.

É normal que tais eventos e tais ameaças mereçam notícias da imprensa com comentários de especialistas. No mais, encontra-se de tudo nos jornais e nas TVs: economia, problemas sociais, política do dia-a-dia, crimes, futilidades e esportes. A imprensa não-especializada está incorporando novas questões, como a ascensão das mulheres, dos negros, dos diversos gêneros etc. Mas nesse etc não está devidamente incluída a questão ambiental. A crise ambiental da atualidade resulta de uma longa guerra, mais longa que todas as guerras conhecidas.

Essa guerra começou no século XV, com a expansão da Europa ocidental pelo mundo. Todos os europeus achavam natural capturar, comprar e escravizar negros africanos. Era normal ser violento com povos nativos dos outros continentes. Mas, mesmo nessa fase em que a Europa julgava-se superior aos outros povos, devotada ao verdadeiro Deus, havia a distinção entre povos bárbaros e mais ou menos civilizados. Os missionários cristãos viam os povos pioneiros da América como muito atrasados. Ou eles deveriam ser convertidos ao cristianismo para se tornarem humanos ou serem exterminados por não terem alma humana.

Não era esse o entendimento dos missionários com relação aos indianos e chineses. Existem vários registros de padres europeus sobre o valor da cultura material de orientais e de sua espiritualidade. No caso da cultura material, a China e o Japão, por exemplo, podiam ser admirados pelos ocidentais. Não, porém, as suas religiões.

Quanto à natureza, não havia hesitações: ela foi criada para ser explorada ilimitadamente pelo homem, mais especificamente pelo homem cristão, conforme o livro do Gênesis. Poucas vozes se levantaram a favor da natureza no período de expansão do ocidente. O caso mais notável foi o de Montaigne, no século XVI. Mas sua voz foi solitária em quase todos os aspectos. Prevaleceu a voz de Descartes, com seu antropocentrismo e utilitarismo. Era de se esperar. A economia de mercado criou mais condições para pensadores como Descartes que para pensadores como Montaigne e Rousseau.

E a guerra contra a natureza foi se generalizando e se aprofundando. Por muito tempo, a natureza foi vista como uma entidade passiva. Dela, podia-se retirar tudo. Nela, podia-se lançar todos os dejetos do nosso sistema produtivo. Com a revolução industrial e com a ocidentalização do mundo, a guerra contra a natureza se intensificou. Cabe reconhecer que toda sociedade humana não-ocidental e não-ocidentalizada extraiu recursos da natureza e nela lançou seus dejetos. Na verdade, todos os animais têm o mesmo comportamento. O que o ocidente trazia de novo era uma concepção utilitarista da natureza. Foi preciso dessacralizá-la, quantificá-la e coisificá-la. A natureza passou a ser uma entidade amorfa, infinita na sua capacidade de fornecer recursos e de absorver rejeitos.

Na década de 1970, alguns pensadores e lideranças começaram a perceber os limites da natureza e emitir alertas quanto ao perigo que a guerra contra ela poderia acarretar. Na verdade, a longa guerra contra a natureza era uma guerra contra a humanidade, agora ocidentalizada. Mesmo conservando o fundo tradicional de cada cultura, o ocidente triunfou no mundo todo quanto à sua concepção de uma natureza infinita. Esse pragmatismo conduziu a uma crise ambiental mundial.

Os últimos 50 anos têm sido cruciais para o futuro da humanidade. Agora, ela está cercada pela natureza. Até mesmo o clima foi alterado por ações humanas. A Terra está mais quente e mais seca. A água doce está mais escassa, mais suja, escravizada para gerar energia e outros benefícios. Os mares estão mais quentes, mais sujos, mais volumosos, avançando progressivamente sobre os continentes. O mundo está mais urbanizado. A população mundial atingiu oito bilhões de habitantes, com maioria vivendo na condição de pobre ou abaixo da linha de pobreza. O consumismo produziu a destruição de ecossistemas nativos e o empobrecimento da biodiversidade.

O mundo intolerável previsto por René Dumont chegou. A consciência dessa intolerabilidade até cresceu nos últimos 50 anos, mas não a ponto de reverter a crise, ainda que de forma lenta. Os indicadores mostram que ela se agravou. O consumo de energias fósseis dobrou e o aquecimento do planeta se intensificou apesar de pensadores, cientistas, governantes, estudantes alertarem e lutarem em defesa do ambiente. A imprensa não especializada também abriu espaço para as questões ambientais, mas elas ainda não ganharam o espaço devido nas pautas. A instituição do estado nacional também interfere na imprensa. Os problemas ambientais parecem ocorrer apenas dentro das fronteiras de um país. Em resumo: ainda não vemos o mundo como nossa única pátria.

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