29.2 C
Rio de Janeiro

II Festival de Cultura e Jogos Indígenas do Xingu reúne 14 etnias em Altamira

Mais lidas

eco21
eco21https://eco21.eco.br
Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Encontro reúne mais de 600 indígenas e transforma esporte, cultura, ancestralidade e bioeconomia em espaço de afirmação dos povos originários

As primeiras delegações começaram a chegar a Altamira. Vieram Xikrin, Parakanã, Assurini, Arara da Volta Grande do Xingu, Arara do Laranjal e Juruna. Outras ainda estavam a caminho. Pouco a pouco, uma cidade às margens do Xingu começa a receber povos que carregam línguas, histórias, territórios e modos próprios de compreender o mundo.

É assim que começa, antes mesmo da abertura oficial, o II Festival de Cultura e Jogos Indígenas do Xingu.

Entre os dias 23 e 26 de julho, mais de 600 integrantes de 14 etnias deverão participar do encontro em Altamira, no Pará. A programação reúne competições esportivas, apresentações culturais, cerimônias tradicionais e uma feira de bioeconomia.

Participam desta edição representantes dos povos Arara da Volta Grande, Arara do Laranjal, Arara de Cachoeira Seca, Xipaya, Assurini do Koatinemo, Xikrin do Bacajá, Kayapó Kararaô, Parakanã, Araweté, Juruna, Gavião Kyikatêjê, Kayapó Mekragnotire, Terena e Assurini do Trocará.

A diversidade das delegações já revela algo que frequentemente se perde quando se fala genericamente em “povos indígenas”: não existe uma única cultura indígena. Existem diferentes povos, línguas, organizações sociais, memórias e relações com o território.

Reuni-los significa colocar lado a lado culturas que atravessaram gerações e permanecem vivas.

Jogos que também contam histórias

Há futebol na programação, mas também corrida de tora, arco e flecha, arremesso de lança, corrida de bastão, canoagem, natação, corrida de 100 metros e cabo de força.

Em muitas dessas modalidades, o gesto esportivo guarda uma história anterior às competições modernas. O arco, a lança, a canoa e a corrida nasceram de conhecimentos construídos na relação cotidiana com a floresta, os rios e o território.

Quando entram numa arena, esses gestos mudam de contexto, mas não necessariamente perdem a memória que carregam.

Talvez esteja aí uma das características mais importantes dos jogos indígenas: aquilo que para o espectador aparece como competição pode representar, para quem participa, também identidade e pertencimento.

Um encontro que se consolida

A primeira edição do festival ocorreu em julho de 2025 e reuniu centenas de indígenas em Altamira, com rituais, apresentações culturais, corrida de tora, arco e flecha, canoagem, futebol e outras atividades.

Agora, o encontro retorna para uma segunda edição.

Mais do que comparar números, importa perceber a continuidade. Pelo segundo ano consecutivo, Altamira recebe diferentes povos indígenas em torno de manifestações culturais, esportivas e econômicas.

Eventos terminam. Territórios permanecem.

Por isso, o significado de um festival como esse talvez não deva ser medido apenas pelo número de participantes que circulam pela cidade durante quatro dias, mas também pela capacidade de ampliar a visibilidade desses povos depois que a arena for desmontada.

Bioeconomia não é apenas uma palavra

Ao lado das atividades esportivas e culturais, o festival terá uma feira dedicada à bioeconomia.

O termo tornou-se frequente nas discussões sobre o futuro da Amazônia. Mas grande parte do conhecimento sobre plantas, sementes, fibras, frutos e outros produtos da floresta nasceu muito antes dos laboratórios.

É resultado da experiência acumulada durante gerações por povos que aprenderam a reconhecer e manejar seus territórios.

Artesanato, alimentos e produtos da sociobiodiversidade carregam, portanto, algo que dificilmente aparece nas planilhas econômicas: conhecimento.

Por isso, falar em bioeconomia amazônica também significa discutir quem participa das decisões e quem recebe os benefícios gerados a partir da biodiversidade.

Cultura e território são inseparáveis

Seria um erro tratar a cultura indígena como algo independente do território.

Uma canção, uma pintura corporal, uma corrida de tora ou uma técnica de navegação não surgem isoladamente. Fazem parte de relações construídas com rios, florestas, animais, plantas e paisagens específicas.

Quando se protege uma manifestação cultural indígena, portanto, a discussão inevitavelmente alcança a terra onde aquela cultura foi construída.

Os povos originários não representam apenas uma memória distante do Brasil. São sociedades contemporâneas diante de questões igualmente contemporâneas: desenvolvimento econômico, conservação ambiental, mudanças climáticas, infraestrutura e transformação de seus territórios.

O Xingu está no centro de muitas dessas questões.

Uma questão ambiental que começa no próprio festival

A programação deste ano incorporou também ações de educação ambiental.

Antes da abertura oficial, está prevista uma blitz de sensibilização na Orla de Altamira, com orientações sobre descarte correto de resíduos sólidos, preservação dos espaços públicos e práticas sustentáveis.

Durante o festival haverá ainda um ponto de coleta de pilhas e baterias usadas.

Pode parecer uma iniciativa pequena diante da dimensão dos problemas ambientais da Amazônia.

Mas há uma mensagem importante nela.

Não é possível falar em preservação da floresta e ignorar os resíduos produzidos nas cidades. Assim como não é possível discutir o futuro ambiental do Xingu sem ouvir aqueles que vivem nele.

Mais do que uma festa

Nos próximos dias haverá vencedores nas arenas de Altamira. Flechas encontrarão seus alvos. Canoas cruzarão as águas. Corredores disputarão metros e segundos. Haverá cantos, pinturas, cerimônias e encontros entre pessoas que percorreram longas distâncias para estar ali.

Tudo isso faz parte do festival.

Mas talvez o acontecimento mais importante não apareça numa tabela de resultados.

É o próprio encontro.

Em uma época em que muitas decisões sobre a Amazônia ainda são tomadas longe dos territórios atingidos por elas, reunir diferentes povos do Xingu e de outras regiões é também lembrar que existem muitas maneiras de compreender aquilo que chamamos de desenvolvimento.

E que o futuro da floresta não é apenas uma questão de árvores.

É também uma questão de povos.

Notícias relacionadas

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

- Advertisement -spot_img

Últimas notícias