por Mauro Guimarães
Muitos são os desafios da humanidade em tempos de tão grave crise socioambiental. Divisões, polarizações, separacionismos, liberdades. São várias as questões para pensarmos caminhos a seguir.
Divisão entre direita e esquerda é o ponto central da crise que vivemos?
Unir a sociedade por uma causa é muito válido. Por exemplo, a violência e os danos à sociedade causados pelo tráfico de drogas, é algo que pode ser reconhecido tanto por quem é de direita, quanto de esquerda.
Esquerda não defende tráfico e violência social, como algumas narrativas divisionistas procuram dar a entender. Vivemos um mundo colapsando e o narcotráfico está aqui (governado pela esquerda?), mas também os narcotraficantes estão nas ruas dos EUA (governado pela direita?), gerando muita riqueza para alguns e degradação para todos. Não é questão de divisão entre esquerda e direita que responde diretamente a isso. A discussão é sobre concepções de sociedade, sua forma de organização e consequências sobre o mundo vivido.
O mundo está em crise e piorando! A piora se dá por um mundo cada vez mais individualista, belicoso e sem regras. As ideias de liberdades individuais acima de tudo e a livre iniciativa, que favorece a quem tem mais poder, tem acentuado questões basilares do sistema capitalista, que estruturado pela competição, potencializa a ética individualista e separacionista do “cada um por si” e da “lei do mais forte”, que dinamiza a economia de mercado. Isso gera uma tremenda desigualdade social em um contexto de degradação socioambiental que caminha para a barbárie.
Acreditar que estamos vivendo falta de liberdades, como brada a direita, e pedir que não haja regulação sobre as leis de mercado, da livre iniciativa e concorrência, assim como das liberdade individuais absolutas, é querer mais daquilo que está fazendo o mundo pior!
Cada vez mais vejo a necessidade de um Estado Democrático como um mediador necessário e possível para regular as relações sociais; isso é hoje em dia ser de esquerda. Defender que a mediação da organização social se dá de forma mais eficiente pelas leis de mercado, pelas liberdades individuais para a livre iniciativa e concorrência, com a intervenção mínima do Estado, é ser de direita. Quando se acredita que isso deva ser a única verdade, defendido de forma autoritária e excluindo quem diverge; isso é extrema direita.
O ponto central de discussão para mim nesse mundo em crise é a desigualdade social e suas consequências de degradação das relações socioambientais. Quando o modo de organização de nossa sociedade globalizada, hegemonizado por políticas neoliberais, faz com que os 10% mais ricos da população detêm hoje 75% de toda a riqueza global, enquanto os 50% mais pobre fica com apenas 2% (Relatório Mundial sobre a Desigualdade, 2026) e que toda essa geração de riqueza está destruindo as condições ambientais de sustentação da vida de todos, é porque algo está muito errado por ser claramente insustentável.
Uma sociedade estruturada pelo individualismo competitivo leva as relações entre as pessoas serem baseadas no cada um por si e que vença o mais forte (princípios do mercado). Isso faz com que a força de separação seja estruturante nas nossas relações (Paradigma Disjuntivo em Edgar Morin). Portanto, sobre a preocupação manifestada por alguns de que “precisamos parar de dividir a sociedade”, não somos nós, indivíduos isoladamente que dividimos a sociedade, ela que se estrutura separando/dividindo.
Uma sociedade que se organiza priorizando o interesse individual/particular acima do bem comum, que é coletivo (público), gera desigualdade, separação e divisão, inclusive a luta de classes.
A concepção de direita acredita que a melhor forma de organizar a sociedade é essa que prioriza o indivíduo, do cada um por si, e a competição do que vença o mais forte (meritocracia), deixando que as leis de mercado livremente estruturem a sociedade. Esse é modo de organização predominante que se globalizou, capitaneado por uma elite econômica que a concebe e gerencia.
A de esquerda acredita que a organização pelo livre mercado favorece a quem tem mais poder e, com isso, tende a concentrar riqueza e acentuar a desigualdade e separação entre as pessoas. Portanto, defende que haja uma regulação da concentração de riqueza para não gerar tanta desigualdade, sofrimentos sociais e degradação ambiental, procurando que os interesses individuais sejam mediados pelo respeito e consideração as fragilidades do próximo, os demais participantes da sociedade e suas necessidades de uma vida digna.
A primeira visão, de direita, se volta para sí, para o indivíduo livre para vencer aos outros e formar a casta de bilionários no mundo, o que divide a sociedade em sua desigualdade.
A segunda, de esquerda, considera a desigualdade das relações do indivíduo poderoso com os outros e se compadece do sofrimento alheio.
Me parece que a visão cristã de mundo, tão reivindicada atualmente pelos cidadãos de bem conservadores de direita, é a do amor ao próximo como força que junta com menos injustiças; essa, está bem mais próxima da segunda visão de mundo, a da esquerda! Portanto, a crise não é a divisão entre direita e esquerda.
A crise no mundo e o divisor entre a civilidade e a barbárie.
Que vivemos tempos de profundas crises, todos percebem e reagem de alguma forma.
Lembremos primeiro que a espécie humana, em seu processo histórico de perpetuação, foi se constituindo como ser gregário na dependência um dos outros, construindo a noção de vida comum mediada pela civilidade de relações solidárias e de compartilhamento, que garantiu a sobrevivência de coletividades. Conforme distintos povos foram fisicamente se aproximando, disputando territórios e guerreando entre si, se fez prevalecer o instinto do “meu primeiro” e a civilidade, que agrega o coletivo em comunidades, se vê assim ameaçada pela barbárie das guerras.
O individualismo competitivo da modernidade, reflexo da concepção do “meu primeiro”, gera a lei do mais forte na organização das relações sociais e, consecutivamente, a dominação, exploração e degradação, consequências que estão no cerne da estruturação do nosso modo de vida em crise que se globalizou. No entanto, a globalização também nos deu a consciência civilizatória de que estamos todos imersos na finitude planetária e formamos uma comunidade só. Porém, ao destruirmos as bases de sustentação da vida como um todo, principalmente a Humana, se escancara a crise civilizatória que vivemos nos colocando num divisor de águas: ou queremos mais civilidade e a sobrevivência do todo, ou viveremos a barbárie e a crueldade de um mundo sem regras, do cada um por si e que vença o mais forte?
Chegamos até aqui, na penosa trajetória da humanidade, alcançando uma consciência planetária, reconhecendo que o sentido humanitário que nos engrandece, se dá por meio da superação dos instintos primários violentos pelas relações civilizadas de solidariedade e consideração as fragilidades do próximo. Com toda evolução que consideramos ter alcançado, iremos reagir à crise acentuando a perspectiva do “meu primeiro”?
A reação à crise, que busca a saída pelo “meu primeiro”, é mais uma vez individualista e competitiva. Para o meu ser primeiro, o “eu” tem que ser mais forte e fazer prevalecer o que é “meu”, por uma relação de poder em que um se faz dominante sobre outros, que não são os “primeiros”. Nessa perspectiva se consolidam forças estruturantes de organização social excludentes, autoritárias, de negação do que é diverso, que subalternizam os outros.
Quando nos colocamos como um país primeiro, ou uma religião primeira, ou uma visão política primeira e, para garantir essa prioridade, nos colocamos em guerra para destruir o inimigo que não é um primeiro como eu, estamos enfaticamente escolhendo a crueldade da barbárie!
Diante da Crise que vivemos, pelo menos no mundo ocidental que conheço melhor, parece que está a se reforçar as guerras santas da minha religião primeiro, como o bem, contra o mal das outras religiões; o American First contra tudo que não é American; o extremismo de uma verdade política única contra todos que divergem.
Uma crise ética e moral naqueles que se anunciando cristão recitam versículos para justificar uma guerra santa, guerras militares e políticas. Discursos cada vez mais belicista, carregado de violência simbólica e material, que se colocam sempre como o “meu primeiro” ameaçado por um mundo/sistema como inimigo, justificando-se assim o uso da força, não para se defender, mas para atacar primeiro. Guerras não estão presentes no legado da história de vida de Cristo, no princípio bíblico do “amor ao próximo” e no mandamento do “amai vos uns aos outros”. O teor dessas mensagens não significa amar primeiro os meus próximos!
Na finitude da comunidade planetária que se vê ameaçada por uma grave crise climática, que põe em risco a vida de todos, o caminho da barbárie, do cada um por si e de que vença o mais forte, é uma rota do caos sem saída! Portanto, despertai-vos para o caminho da civilidade.
SOBRE O AUTOR
Mauro Guimarães | Professor-Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Ambiental, Diversidade e Sustentabilidade.



