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CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL EM DECLÍNIO

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.comPor trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

S.O.S ONU

Estou alarmada com o abandono, por parte da maior potência hegemônica do Ocidente, do modelo de governança global das agências da ONU.

Ao abandonar na prática a Agência que ajudou a criar, e cuja sede está no seu país, ao recusar-se a financiar as ações da ONU, os Estados Unidos decretam o seu final.

Fizeram isso de modo unilateral, desrespeitoso, indigno.

Desde o final da II Grande Guerra, exaustos dos anos difíceis de barbárie, matança e destruição material dos países, a ONU substituía a antiga Liga das Nações e inaugurava uma proposta internacionalista que atingiu o seu ápice nos anos 80 e 90.

Desde a Carta dos Direitos Universais nos anos 40 até o momento, tudo o que podemos chamar de governança internacional passou ou passa pela ONU.

A adesão às chamadas Convenções Quadro da Nações Unidas são um índice civilizatório, e até hoje suas resoluções significaram um contrapeso, um freio às dissidências entre países e nações.

O crescimento da Organização, e não só dela, mas também de sua tecnocracia, e de seus custos exponenciais, vem gerando clamores de ‘necessária reforma’ há pelo menos uma década.

E é possível que muitas de suas ações ou sub-organismos não funcionem tão bem, haja visto o fracasso do Conselho de Segurança de evitar o que está acontecendo entre Israel e Hamas em Gaza, e o conflito entre Rússia e Ucrânia, entre outros.

Contudo, existe a expressão, ‘Não se joga o bebê fora com a água suja do banho’.

E a ONU é ainda o melhor que temos como um fórum mundial para a resoluções que vão desde comércio, saúde, segurança alimentar, direitos diversos e proteção do meio ambiente, destacando a crucial questão climática.

Para nós, ambientalistas, a ONU desempenhou um papel inquestionável na promoção da consciência ambiental e na criação das institucionalidades globais ligadas ao tema.

Promoveu a I grande conferência de Meio Ambiente em Estocolmo em 72, organizou a Rio 92, a pedra fundamental de todas as ações que conhecemos como Desenvolvimento Sustentável. Chegamos ao Acordo de Paris e aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – os ODS, graças a ela.

Ao assumir como política de estado deslegitimar a ONU e romper com os tratados climáticos (mas não só) os Estados Unidos constroem uma liderança – pela força – que decreta o fim de uma visão de mundo onde a cooperação e a paz entre os povos eram a pedra de toque.

Com essa decisão, os Estados Unidos, na sua insana disputa de influência com a China, enterra os anos 90, o período em que sonhamos grande e que pensávamos ser possível reformar (esverdear) o capitalismo.

O desmantelamento do sistema ONU não é só um atentado contra o globalismo nem uma atitude radical negacionista isolada.

É um brado de força suja, suja de petróleo, irada com a ira própria dos dementes. Aquele tipo de demência egoísta, supremacista e truculenta.

Como não reagirmos a esse desastre?

Quando vejo a triste figura desse presidente norte-americano lembro do grito trovejoso de um dinossauro. Um estertor que, infelizmente, vai sacolejar o nosso mundo.

Nunca estivemos tão perto de sucumbir à barbárie, de abandonar os mais caros valores que cultivamos como civilização ocidental.

Se estamos mal com a ONU, pior, muito pior estaremos sem ela.

Samyra Crespo | Ambientalista, coordenou a série de pesquisas nacionais intitulada “O que o Brasileiro pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável” (1992-2012). Foi uma das coordenadoras do Documento Temático Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira, 2002. Pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins/RJ. Ex-Gestora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

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