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PNDBio – Brasil apresenta estratégia nacional para impulsionar a bioeconomia até 2035

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.comPor trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Plano lançado pelo governo aposta na biodiversidade como ativo econômico, combina sociobioeconomia, bioindústria e uso sustentável da biomassa, e projeta metas até 2035

O governo federal apresentou, na quarta-feira (1º), o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), iniciativa que pretende transformar a biodiversidade brasileira em um dos eixos estruturantes do desenvolvimento econômico do país até 2035. Lançado pela ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, o plano busca articular conservação, geração de renda, inovação industrial e uso sustentável dos recursos naturais.

A proposta parte de uma premissa decisiva para o debate contemporâneo: no Brasil, a biodiversidade não pode seguir tratada apenas como patrimônio a ser protegido, mas também como base estratégica de uma economia capaz de combinar inclusão social, valorização territorial e transição ecológica. O plano pretende alcançar uma cadeia ampla, que vai de povos e comunidades tradicionais, agricultores familiares e extrativistas até segmentos industriais vinculados à saúde, à bioquímica e aos biocombustíveis.

Organizado em três eixos: Sociobioeconomia e ativos ambientais, Bioindustrialização competitiva e Produção sustentável de biomassa, o PNDBio procura estabelecer uma política de longo prazo para inserir a bioeconomia no centro do projeto nacional de desenvolvimento. Segundo a secretária nacional de Bioeconomia do MMA, Carina Pimenta, trata-se de uma estratégia que passa a olhar os ativos ambientais não apenas sob a ótica da conservação, mas também de seu aproveitamento econômico sustentável, com potencial para inaugurar um novo ciclo de prosperidade.

Para Marina Silva, a bioeconomia pensada para o Brasil deve ser abrangente e inclusiva, capaz de dialogar com diferentes territórios, escalas produtivas e formas de conhecimento. A ideia, em tese, é construir um modelo que reconheça o valor econômico da floresta em pé, da sociobiodiversidade e dos saberes associados aos povos e comunidades que historicamente mantêm esses patrimônios vivos.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin. Foto: Marcelo Camargo – Agência Brasil

Sociobioeconomia e serviços ambientais

No primeiro eixo, o plano prevê a estruturação de um ecossistema de negócios comunitários voltado à sociobioeconomia. Entre as metas anunciadas estão o apoio a 6 mil empreendimentos, a ampliação de 20% nos contratos da linha do Pronaf destinada a produtores de baixa renda e a duplicação do valor bruto anual produzido a partir da sociobiodiversidade.

O governo também pretende ampliar os mecanismos de valorização dos serviços ambientais e socioculturais prestados por povos e comunidades tradicionais, com previsão de pagamento por serviços ambientais a 300 mil beneficiários. Outro objetivo é elevar em 50%, até 2035, o número de organizações aptas a receber recursos provenientes da repartição de benefícios do patrimônio genético — mecanismo previsto em lei para assegurar que comunidades tradicionais participem economicamente dos ganhos obtidos pela indústria a partir do uso de informações genéticas de plantas, animais e microrganismos.

Ainda nesse eixo, o PNDBio estabelece como meta a recuperação de 2,3 milhões de hectares de vegetação nativa integrados às cadeias da bioeconomia, além da consolidação de 30 territórios de restauração em diferentes regiões do país. O plano inclui ainda a concessão de 60 Unidades de Conservação para promoção do ecoturismo e a ampliação das áreas destinadas ao manejo florestal para 5,28 milhões de hectares.

Bioindústria e saúde

No campo da bioindustrialização, o plano concentra esforços sobretudo nos setores de saúde e bem-estar, a partir do uso sustentável do patrimônio genético brasileiro. Entre as metas está a incorporação de novos fitoterápicos ao Sistema Único de Saúde (SUS), além do aumento de 5% da participação desses medicamentos no faturamento da indústria farmacêutica nacional.

A diretriz reforça uma ambição antiga, mas ainda pouco concretizada no país: converter a megabiodiversidade brasileira em base para inovação tecnológica, agregação de valor e democratização do acesso a produtos de saúde. Para Sérgio Leitão, diretor executivo do Instituto Escolhas, o plano pode ajudar a consolidar o reconhecimento de que a biodiversidade brasileira é capaz de gerar renda, inovação e medicamentos mais acessíveis à população.

Biomassa, circularidade e transição industrial

O terceiro eixo do PNDBio volta-se ao aproveitamento da biomassa na indústria nacional, com base em insumos agrícolas e florestais. Biomassa, nesse contexto, refere-se ao conjunto de matérias orgânicas de origem vegetal ou animal que podem ser utilizadas tanto como fonte de energia quanto como matéria-prima industrial. O plano também contempla o fortalecimento da indústria bioquímica de renováveis, incluindo a expansão de segmentos como o dos biocombustíveis, entre eles o etanol.

Ao defender a iniciativa, Geraldo Alckmin sintetizou a aposta do governo em uma indústria “inovadora, competitiva, exportadora e verde”. A formulação traduz a tentativa de associar política industrial, reindustrialização e sustentabilidade, em linha com a crescente pressão internacional por cadeias produtivas de baixo carbono.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin – Marcelo Camargo – Agência Brasil

Uma política construída de forma interministerial

O PNDBio é resultado de um processo de formulação de cerca de dois anos, envolvendo 16 ministérios, além de representantes da sociedade civil, da academia e do setor privado reunidos na Comissão Nacional de Bioeconomia (CNBio). Após passar por consulta pública, que recebeu mais de 900 contribuições, a política foi concluída e aprovada pela comissão em 5 de março de 2026, com a definição de 185 ações estratégicas.

Mais do que um plano setorial, o PNDBio se apresenta como tentativa de dar materialidade a um tema que há anos ocupa o discurso oficial, mas que ainda carece de escala, coordenação e instrumentos efetivos. O desafio agora será transformar metas e diretrizes em políticas concretas, evitando que a bioeconomia permaneça apenas como promessa retórica em um país cuja maior riqueza continua sendo, ao mesmo tempo, seu maior impasse político.

Fonte: Agência Brasil

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