Por Arthur Soffiati
Em termos de alterações na superfície da Terra, o aquecimento global se traduz em chuvas intensas, com transbordamentos, alagamentos e deslizamentos de encosta, como aconteceu em 2022/25 no Paquistão e no Brasil; secas prolongadas e ingentes, como as que vêm assolando o chifre da África nos últimos anos; derretimento das geleiras polares e dos picos elevados, como nos Alpes, por exemplo; acidificação das águas oceânicas, o que contribui para o empobrecimento da vida aquática; elevação do nível dos mares, que ameaça os núcleos urbanos costeiros e insulares; devastadores incêndios que varrem anualmente a Califórnia, o sul da Europa e a China; furações e ciclones que devastam o Caribe, o sul dos Estados Unidos, a Indonésia, as Filipinas, o Japão e o Sudeste Asiático de modo geral.
Em 30 conferências de cúpula sobre mudanças climáticas promovidas pela ONU, admitiu-se que tais mudanças estão ocorrendo como resultado de ações econômicas. Seria contraditório não admitir essa evidência, pois, se as mudanças climáticas fossem naturais, as COPs nada poderiam fazer além de buscar mitigação para o problema. Reconhece-se a necessidade de promover mudanças. Não se trata de substituir a economia de mercado por outra, mas de introduzir mudanças que permitam a ela continuar existindo. O ideal seria a instauração de um novo sistema econômico, mas não vislumbro uma mudança radical na economia de mercado, agora atuando em âmbito planetário. Em palavras mais simples, concluiu-se como imperativo limitar a temperatura global a 1,5 C acima das temperaturas pré-industriais. Na COP-27, que se realizou no Egito em 2022, admitiu-se a criação de um fundo para ajudar os países pobres e vítimas das mudanças climáticas. Esse fundo ainda não tem verba. Agora, com o errático Governo Trump, as preocupações com as mudanças climáticas, por parte dos maiores poluidores do mundo, passam a terceiro plano.
Na mesma COP-27, a Organização Meteorológica Mundial, órgão da ONU, anunciou que os oito anos mais quentes desde as primeiras medições ocorreram entre 2013 e 2022. A temperatura média subiu 1,14°C desde 1850. Agora, no final de 2025 e início de 2026, o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, divulga os resultados de seus registros: os últimos 11 anos foram os mais quentes desde 1850, ano tomado como referência. Os anos de 2023, 2024 e 2025 foram os mais quentes entre os 11.
A grande imprensa mundial costuma anunciar as mudanças climáticas de maneira não muito clara. Os anos de 2023 a 2025 formam os mais quentes de história ou da humanidade, anuncia. Sei que a imprensa apenas informa. Contudo, usar o parâmetro história e humanidade causa desinformação. Houve temperaturas muito mais altas na história da Terra, como mostra o gráfico a seguir. A humanidade ainda não existia. Foram temperaturas provocadas naturalmente. O máximo atingido situa-se em 500 milhões antes do presente. As temperaturas começaram a cair há 50 milhões de anos antes do presente, estabilizando-se no Pleistoceno.

Temperaturas da Terra nos últimos 500 milhões de anos
Cabe examinar mais detalhadamente o gráfico. O Pleistoceno é o famoso período das glaciações e das fases interglaciais. Durante as glaciações (assinaladas nos pontos baixos da parte em azul do gráfico), as temperaturas caíam acentuadamente. Nos picos superiores em azul do gráfico, as temperaturas ficavam altas. Lembremos que a humanidade já existia durante o Pleistoceno.
Como se pode ver, as temperaturas mais altas no Pleistoceno/Holoceno foram registradas na última fase interglacial, entre 130.000 e 115.000 anos atrás. Essa fase foi batizada de Eemiano e durou 15 mil anos. A humanidade era, então, muito reduzida, distribuindo-se pela África, Ásia e Europa. Ela não havia ainda alcançado a Oceania e a América. A economia praticada por ela nesses três continentes consistia na coleta, na pesca e na caça. A humanidade vivia, então, no Paleolítico, a mais longa fase da sua história. Como ela não sucumbiu a tão elevadas e baixas temperaturas? Certamente, deve ter havido perdas humanas, mas houve a sobrevivência da espécie como um todo. Durante 15 mil anos, as temperaturas médias da Terra foram causticantes. Daí em diante, elas começaram a cair novamente, configurando a última grande glaciação. A humanidade aguentou o tranco.
A fase atual, batizada de Holoceno no século XIX, tanto pode ser uma nova época como uma fase interglacial. O marco do seu começo foi convencionado em 11.700 anos antes do presente. Houve pequenas oscilações naturais até 1850 da nossa era. O aquecimento atual do planeta vem sendo produzido pela ação coletiva da humanidade dentro de um sistema econômico que ganhou seus contornos no século XV. Não se trata de uma fase climática natural, mas de um aquecimento antrópico dentro de um aquecimento natural.
Se a humanidade suportou a penúltima fase de aquecimento do planeta, entre 130 e 150 mil anos atrás, pode-se supor que ela também suportará o aquecimento global da atualidade? Representada por muitos exemplares, a espécie deve resistir. Ela hoje é constituída por 8 bilhões de indivíduos.
Mas esse raciocínio seria imoral se não fosse apenas um ensaio. Muitas pessoas já estão morrendo com temperaturas muito elevadas e/ou muito baixas (invernos rigorosos também fazem parte do aquecimento global). A humanidade, dentro de uma economia de mercado, está extinguindo espécies. Extinções naturais são aceitas porque causadas pela própria natureza. Extinções provocadas por atividades humanas são imorais, já que o Homo sapiens é a única espécie com consciência e ética.
A própria economia que gerou e vem elevando o aquecimento global da atualidade está perdendo a luta e contabilizando enormes prejuízos. A humanidade mais pobre é a mais penalizada. Nem sequer estamos conseguindo organizar a vida na Terra para enfrentarmos o agravamento das mudanças climáticas globais.

Temperaturas da Terra de 1940 aos dias atuais
A bem da verdade, este artigo parece inútil. Além de não interessar a ninguém a sua leitura, a grande imprensa continuará bombasticamente a publicar que atingimos as mais altas temperaturas conhecidas pela humanidade e pela história. No meu entendimento de historiador, a história da humanidade começa em torno de 1 milhão de anos, com o início do uso de instrumentos pelos grupos humanos. Os climatologistas estimam as temperaturas médias medindo as temperaturas na superfície do oceano e dos continentes. Ouço os climatologistas com atenção. No fundo, escrevo para organizar meus pensamentos e compreender melhor a crise que criamos e enfrentamos. Para vislumbrar saídas para esse calor (e frio) que provoca arrepio.

Incêndio no sul da França



