Abordagem que integra saúde humana, animal e ambiental é destaque em eventos paralelos na conferência da ONU em Campo Grande
Por Fábio de Castro e Solange Azevedo, de Campo Grande (MS)
A conexão entre a saúde dos ecossistemas, da fauna e das populações humanas ganhou atenção na 15ª Reunião da Conferência das Partes (COP15) da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), que está sendo realizada em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, de 23 a 29 de março. A abordagem, conhecida como “Uma Só Saúde”, foi destaque em dois eventos paralelos organizados pelo WWF-Brasil, reunindo cientistas, gestores públicos e representantes da sociedade civil para debater estratégias de implementação dessa agenda em escala global.
As espécies migratórias desempenham um papel estratégico nesse contexto. Ao percorrerem grandes distâncias entre diferentes biomas e países – dos trópicos aos pólos –, esses animais conectam ecossistemas e ajudam a revelar mudanças ambientais e riscos emergentes. Além de serviços essenciais, como polinização e transporte de nutrientes, as espécies migratórias também funcionam como indicadores naturais da circulação de doenças e de desequilíbrios ecológicos.
Ruth Cromie, conselheira para a Saúde da Vida Silvestre designada pela COP15, que participou de um dos eventos, destacou que tomadores de decisão precisam reconhecer que a saúde humana não existe isoladamente, mas depende diretamente da integridade dos ecossistemas e da saúde animal – e que os motores da degradação, como a agricultura insustentável, as mudanças climáticas, a poluição e a perda de habitats, estão levando ao declínio de espécies.
De acordo com ela, se continuarmos reagindo apenas com diagnóstico e tratamento de doenças, chegaremos sempre tarde demais; é imperativo investir, de forma colaborativa e global, em ecossistemas resilientes e em abordagens preventivas integradas. A lição da COVID-19, frisou, e os avanços rumo a acordos pandêmicos deixam claro: nossa saúde é interdependente e as decisões precisam refletir essa unidade – prevenir a próxima pandemia começa agora, com a proteção simultânea das pessoas, dos animais e do planeta.
Nesse sentido, a conservação da biodiversidade passa a ser uma estratégia de prevenção em saúde pública. “A saúde humana, animal e ambiental é indissociável. Espécies migratórias são aliadas fundamentais para entender e antecipar riscos, mas isso só é possível se seus habitats estiverem preservados e conectados”, afirma Mariana Paschoalini Frias, analista de Conservação do WWF-Brasil. “Conservar a natureza é também proteger a saúde das pessoas. Ecossistemas íntegros funcionam como barreiras naturais contra doenças, enquanto ambientes degradados ampliam riscos e incertezas.”
Embora doenças façam parte dos ciclos naturais dos ecossistemas, pressões como mudanças climáticas, espécies invasoras e expansão das atividades humanas podem intensificar esses processos, gerando impactos além do equilíbrio natural. Esse cenário reforça a necessidade de abordagens integradas que considerem simultaneamente os diferentes sistemas que sustentam a vida.
Dados recentes da ONU indicam que as espécies migratórias enfrentam declínios significativos em todo o mundo. Atualmente, uma em cada cinco espécies listadas pela CMS está ameaçada de extinção, enquanto 44% apresentam queda populacional. Esse processo reduz a capacidade desses animais de atuar como “sentinelas” na detecção precoce de riscos sanitários e ambientais.
Ações concretas no foco
Para Vanesa Tossenberger, vice-presidente da Fundación Cethus e conselheira para Mamíferos Aquáticos designada pela COP15, o Brasil tem uma oportunidade única de impulsionar a agenda das espécies migratórias durante os três anos de mandato do país na Presidência da conferência da CMS. Entre as ações essenciais, ela citou a importância de fortalecer o monitoramento de espécies sentinela, promover a cooperação entre governos, além de mobilizar apoio para o financiamento das iniciativas.
“A ciência sozinha não é suficiente. É fundamental contar com governos fortes e fortalecer também a colaboração entre autoridades e instituições científicas”, disse Vanessa. “A saúde da vida silvestre sustenta ecossistemas mais saudáveis, e ecossistemas mais saudáveis sustentam uma sociedade mais saudável”.
A recuperação e reconexão dos habitats por onde as espécies migratórias circulam – como aves, tartarugas e mamíferos marinhos – foram apontadas como medidas fundamentais para fortalecer sistemas de alerta precoce na identificação de mudanças ambientais e apoiar a tomada de decisões baseada em evidências.
Iniciativas transdisciplinares, coordenação entre governos e cooperação internacional foram apontadas como caminhos essenciais para o mundo enfrentar desafios complexos. Nesse contexto, os participantes das mesas enfatizaram que a vigilância da saúde da vida selvagem, aliada à conservação dos ecossistemas, é fundamental para antecipar crises e reduzir vulnerabilidades.
Essa perspectiva foi reforçada por exemplos concretos de políticas públicas em andamento. Vivyanne Santiago Magalhães, do Comitê Interinstitucional de Uma Só Saúde, do Ministério da Saúde, salientou que, em um contexto de mudanças climáticas, que já alteram rotas migratórias e provocam impactos graves sobre espécies e ecossistemas, essa vigilância se torna ainda mais urgente.
“Com um decreto de abril de 2024, o Brasil deu um passo inovador ao criar um comitê interinstitucional de Uma Só Saúde, coordenado pelo Ministério da Saúde e integrado por múltiplos setores”, disse. De acordo com ela, essa iniciativa fortalece a coordenação entre níveis de governo e impulsiona um plano nacional baseado em colaboração, evidenciando que proteger a saúde humana exige integrar, de forma contínua, a saúde dos animais e dos ecossistemas.
Na mesma linha, a implementação dessa abordagem em nível local também ganhou destaque, com a experiência de Mato Grosso do Sul em evidência. “Com a criação da Coordenadoria de Saúde Única em 2023, o governo do estado fortaleceu uma atuação territorial integrada”, disse Danila Rodrigues Frias, diretora técnica da Associação Brasileira de Saúde Única (Abrasuni) e coordenadora do programa Uma Só Saúde de Mato Grosso do Sul.
“Na calha do rio Paraguai, temos comunidades ribeirinhas com cerca de 3 mil pessoas que convivem com espécies migratórias. Por isso, fazemos um trabalho focado nesses locais. Em parceria com a Marinha, levamos não apenas atendimento e vacinação, mas uma vigilância ativa integrada – monitorando vetores, animais, água e solo – o que nos permite entender o que circula nesses ambientes e agir de forma preventiva, protegendo simultaneamente a saúde das pessoas, dos animais e dos ecossistemas”, acrescentou.
Ao ganhar espaço na COP15, a abordagem “Uma Só Saúde” se consolida não apenas como um conceito, mas como um eixo estratégico para enfrentar os desafios atuais. Ao integrar ciência, políticas públicas e conservação, ela aponta para um novo modelo de tomada de decisão, capaz de antecipar riscos, reduzir vulnerabilidades e fortalecer a resiliência dos sistemas naturais e sociais. Em um cenário de mudanças climáticas, perda de biodiversidade e emergência de novas doenças, conectar biodiversidade, clima e saúde deixa de ser uma escolha – e passa a ser uma condição essencial para prevenir crises futuras e garantir a sustentabilidade da vida no planeta.
COMO O WWF-BRASIL ATUA
O WWF-Brasil tem o compromisso de contribuir para a construção de um futuro sustentável, em que o país avance rumo à neutralidade de emissões, com sua biodiversidade conservada e impulsionado por um modelo de desenvolvimento justo, inclusivo e responsável. Nossa estratégia está estruturada em quatro pilares:
• Zerar o desmatamento e fomentar Soluções Baseadas na Natureza.
• Fortalecer a conservação da biodiversidade, incluindo espécies sentinelas em diferentes paisagens.
• Proteger direitos e promover o bem-estar de povos e comunidades tradicionais.
• Promover um desenvolvimento de baixo impacto.



