Águas-vivas e anêmonas-do-mar não têm cérebro mas apresentam um estado de repouso que atende aos critérios científicos de sono. Um estudo recente indica que, além de restaurador, esse período pode funcionar como uma janela crucial para proteger neurônios e reparar danos no DNA
Um comportamento arriscado que a evolução preservou
Dormir, para um animal, é assumir risco. A imobilidade aumenta a vulnerabilidade a predadores e reduz o tempo disponível para alimentação, acasalamento e cuidado com a prole. Ainda assim, o sono aparece de forma recorrente na natureza e se mantém ao longo da evolução em animais com sistemas nervosos, o que sugere uma função biológica indispensável.
A questão central, então, não é apenas “por que dormimos?”, mas o que o sono faz de tão essencial a ponto de ter sido mantido mesmo em organismos muito antigos e simples.
Neurônios sem cérebro: o “sono” pode ser mais antigo do que imaginávamos
Nem águas-vivas nem anêmonas-do-mar possuem cérebro. Em vez de um “centro de comando”, elas têm redes difusas de neurônios interconectados. Mesmo assim, pesquisas anteriores já haviam mostrado que águas-vivas entram em um estado semelhante ao sono. A novidade do estudo recente é avançar com uma definição mais precisa e descrever em detalhe os padrões de descanso em duas espécies, incluindo a primeira caracterização sólida do sono em anêmonas-do-mar.
Para Lior Appelbaum, neurocientista molecular da Universidade Bar-Ilan (Israel) e coautor do trabalho, há um ponto-chave: neurônios são células altamente valiosas. Como não se dividem facilmente, preservá-los pode ser uma prioridade evolutiva, e o sono pode ter nascido ligado a essa necessidade.
Relógio biológico em ação: quando e quanto esses animais “dormem”
Os pesquisadores acompanharam a água-viva Cassiopea andromeda em laboratório e também em ambiente natural, em Key Largo (Flórida). O padrão observado lembra o humano: cerca de oito horas por dia, com maior concentração de descanso à noite e um breve cochilo por volta do meio-dia.
Já a anêmona-do-mar Nematostella vectensis foi estudada em laboratório e teve seu sono descrito com mais precisão pela primeira vez. Ela também descansou aproximadamente um terço do dia, mas com maior intensidade em torno do amanhecer.
Esses ritmos sugerem que não se trata apenas de “ficar parada”: há organização temporal, consistência e comportamento repetido características típicas do sono.
Reparar para continuar: o sono como janela de manutenção do DNA
O ponto mais provocativo do estudo aparece no nível celular. Em ambas as espécies, a equipe observou um padrão consistente: o dano ao DNA nos neurônios aumentava durante a vigília e diminuía durante o sono.
Quando os cientistas induziram dano ao DNA por radiação ultravioleta, os animais responderam com mais tempo de sono, como se o organismo ampliasse a janela de reparo. A interpretação proposta é direta: durante a vigília, o acúmulo de danos pode superar a capacidade de manutenção; o sono, por sua vez, ofereceria um período dedicado para um reparo mais eficiente.
Esse argumento se encaixa em um cenário evolutivo amplo: os neurônios teriam surgido há centenas de milhões de anos em metazoários basais seres ancestrais com redes neuronais difusas, sem cérebro. Se o sono já atuava como “manutenção” ali, ele pode ter sido um recurso fundamental desde o início da vida animal com atividade neural.
Uma crítica importante e outras hipóteses em jogo
A pesquisadora Chiara Cirelli, especialista em sono na Universidade de Wisconsin–Madison, avalia o estudo como rigoroso, mas destaca uma limitação metodológica: faltou um grupo de controle que fosse mantido acordado após a indução de dano ao DNA. Em tese, parte do reparo poderia acontecer mesmo em vigília especialmente quando o animal não está envolvido em atividades intensas, como aprendizagem ativa.
Além disso, a evolução do sono pode ter múltiplos “motores”. Outras linhas de pesquisa apontam funções como recalibrar conexões neurais fortalecidas ao longo do dia, economizar energia, restaurar capacidade de aprendizagem e consolidar memórias.
O que isso revela sobre nós
Decifrar as origens do sono ajuda a compreender por que a perda crônica de descanso se associa a problemas cognitivos e doenças neurodegenerativas. Também oferece pistas para fenômenos como o “sono local”, quando pequenas regiões do cérebro humano ficam brevemente “offline” durante a vigília.
Em humanos, sono e memória caminham juntos mas o estudo sugere que, em sua raiz evolutiva, o sono pode ser antes de tudo uma estratégia de preservação neuronal: manter neurônios específicos funcionando e íntegros.
Os próximos passos do grupo incluem investigar essas questões em esponjas (sem sistema nervoso) e no peixe-zebra, cujo cérebro compartilha características relevantes com o nosso. O objetivo é entender onde o sono começa, como se transforma e por que, mesmo sem cérebro, a vida parece insistir em dormir.


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