Em cartaz até 30 de outubro, a exposição “Cinzas da Floresta” reúne mais de 200 obras inéditas de 152 artistas de 11 estados brasileiros.
A mostra faz referência às cinzas das queimadas de quatro biomas brasileiros – Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal – que foram coletadas pelo artivista Mundano e sua equipe em 2021, em uma expedição de mais de 10 mil km rodados.
Depois de coletadas, foram transformadas na matéria-prima das obras expostas, substituindo as tintas convencionais. Todas estarão à venda por preços acessíveis e os recursos arrecadados serão revertidos para a Rede Nacional de Brigadas Voluntárias (RNBV), contribuindo com a estruturação dessa rede e apoio aos brigadistas.
“Esta exposição é uma denúncia com a floresta em pó e um grito pela floresta em pé!”, sintetiza Mundano, que coletou as cinzas para a produção de uma empena artística de mais de 1.000m² em homenagem aos brigadistas voluntários – homens e mulheres que combatem os incêndios que destroem as florestas brasileiras ano após ano em um ritmo devastador.

Intitulada “O Brigadista da Floresta”, ela é uma releitura da obra “O Lavrador de café”, de Cândido Portinari, que pode ser vista no centro de São Paulo. Seu tema continua extremamente atual: em agosto foram 1.699.993 hectares queimados na Amazônia, 1.190.352 hectares no Cerrado, 47.401 hectares na Mata Atlântica e 19.867 hectares no Pantanal, segundo dados do MapBiomas.
A exposição “Cinzas da Floresta” é um desdobramento dessa ação. Com o excedente das cinzas coletadas, surgiu a ideia de distribuir para artistas de todo o Brasil um kit contendo as cinzas, para que novas artes fossem criadas. “Para mim, participar do projeto Cinzas da Floresta foi muito especial pois convivo de perto com a realidade das queimadas aqui na Chapada Diamantina, logo, a ideia de utilizar as cinzas como matéria-prima para produzir arte é muito representativo e importante”, explicou Alaido, de Igatu – Andaraí, na Bahia.

Alguns dos artistas relataram a sensação de produzir arte com cinzas de seres vivos, como animais e plantas: “Eu senti muita tristeza ao usar as cinzas, imaginar que são vidas carbonizadas pela ação humana. Pensei muito nas pessoas que vivem, dependem e protegem as florestas. Pensei em como nosso modo de vida está em desequilíbrio com a natureza”, contou AFolego, artista da capital paulista.

Gil Leros, de São Luís (MA), descreve sentimentos semelhantes: “O impacto de estar pintando com a ideia de que ali existe um pouco de uma floresta destruída, de alguma forma nos conecta emocionalmente com a tragédia que vem acontecendo há anos em nosso país. Talvez esse seja o material mais significativo que vou utilizar na composição de desenhos.”

Wagner Andrade, do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, experimentou uma sensação diferente: “Incrível a oportunidade de me reconectar com a expressão artística, especialmente para fazer dela um manifesto artivista de comunicação. Uma chance de ressignificar o olhar para a tragédia que vivemos como humanidade, mostrando através da arte que ainda há esperança. Que somos capazes de coletivamente gerar e preservar a vida. Muito simbólico pra mim, especialmente por estar vivendo uma segunda paternidade, depois de 10 anos.”

Antes de ocupar a passagem literária, a exposição ocupou a galeria Pimp My Carroça, também em São Paulo, e contou com a pré-estreia do documentário “Cinzas da Floresta”, dirigido por André D’elia, que acompanhou e registrou a expedição em 2021. Com 75 minutos de duração, o filme mostra a importância das brigadas voluntárias de combate a incêndios florestais.
Últimos dias para ver a exposição Cinzas da Floresta
De 12 a 30 de outubro de 2022, na Passagem literária da Consolação (esquina da Av. Consolação com a Av. Paulista, ao lado do cine Petra Belas Artes).
Dias: de segunda a sexta, das 10h30 às 18h30; sábados e feriados, das 11h às 19h, domingo fechada.
Entrada franca