28 C
Rio de Janeiro
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
spot_img

Empresas podem liderar a transformação ou enfrentar riscos de extinção, alerta IPBES

Mais lidas

eco21
eco21https://eco21.eco.br
Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.comPor trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

IPBES

Relatório internacional aponta que toda empresa depende da biodiversidade e que o modelo econômico atual aprofunda riscos à economia, às finanças e ao bem-estar humano

Toda empresa depende da natureza e, ao mesmo tempo, impacta a biodiversidade. Essa relação, historicamente negligenciada, tornou-se um dos principais riscos sistêmicos para a economia global, a estabilidade financeira e o bem-estar da humanidade. A constatação é de um novo relatório histórico divulgado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES).

Segundo o estudo, o crescimento econômico das últimas décadas ocorreu à custa de uma perda acelerada da biodiversidade. Mesmo empresas que não se consideram “dependentes da natureza” utilizam, direta ou indiretamente, serviços ecossistêmicos essenciais, como abastecimento de água, controle de enchentes, estabilidade climática e valores culturais, turísticos e recreativos. Ainda assim, grande parte dos impactos negativos gerados pelas atividades empresariais não é internalizada nos custos econômicos.

Aprovado por representantes de mais de 150 governos durante a 12ª sessão plenária do IPBES, realizada em Manchester, o Relatório Metodológico sobre Impactos e Dependências das Empresas em relação à Biodiversidade afirma que o setor empresarial é peça-chave para deter e reverter a perda de biodiversidade — mas carece de informação, incentivos adequados e instrumentos eficazes para agir.

Modelo atual aprofunda riscos ambientais e econômicos

O relatório aponta que o chamado business as usual continua sendo estimulado por subsídios, políticas públicas distorcidas e práticas econômicas de curto prazo. Em 2023, os fluxos globais de financiamento público e privado com impactos negativos diretos sobre a natureza chegaram a US$ 7,3 trilhões, enquanto apenas US$ 220 bilhões foram destinados à conservação e restauração da biodiversidade — o equivalente a cerca de 3% do total de recursos que hoje incentivam práticas prejudiciais ao meio ambiente.

Para os autores, essa assimetria cria uma realidade perversa: degradar a natureza ainda parece mais lucrativo do que protegê-la. No entanto, os impactos acumulados entre setores e cadeias produtivas elevam o risco de colapsos ecológicos que podem comprometer economias inteiras.

“O que antes parecia rentável no curto prazo hoje se revela um risco global”, destaca o relatório. A perda de biodiversidade, segundo os especialistas, pode gerar efeitos em cascata sobre produção, cadeias de suprimentos, sistemas financeiros e segurança alimentar.

Medir impactos ainda é exceção entre empresas

Outro dado alarmante é que menos de 1% das empresas que divulgam relatórios públicos mencionam explicitamente seus impactos sobre a biodiversidade. Embora já existam métodos, dados e ferramentas capazes de orientar decisões empresariais, sua adoção ainda é baixa e desigual entre setores e regiões.

Entre as principais barreiras identificadas estão a falta de dados confiáveis, modelos adequados e cenários que permitam avaliar riscos e oportunidades associados à natureza. Instituições financeiras que representam cerca de 30% do valor do mercado global apontam essas lacunas como entraves centrais à incorporação da biodiversidade em suas análises de risco.

O relatório propõe que não existe uma única metodologia válida para todas as empresas. A escolha dos indicadores deve considerar o contexto, o porte do negócio e o tipo de decisão a ser tomada, combinando diferentes abordagens conforme necessário.

Povos indígenas e ciência ainda são pouco integrados às decisões

O estudo também chama atenção para a subutilização do conhecimento científico e dos saberes indígenas e locais. Embora povos indígenas sejam reconhecidos como alguns dos principais guardiões da biodiversidade no planeta, seus territórios enfrentam crescente pressão da expansão industrial e da exploração de recursos naturais.

Cerca de 60% das terras indígenas no mundo já sofrem ameaças diretas do desenvolvimento industrial. Ainda assim, esses grupos permanecem pouco representados nos processos de tomada de decisão empresarial.

Para os autores, uma colaboração mais respeitosa e estruturada entre empresas, ciência e comunidades tradicionais pode melhorar a gestão de riscos, ampliar oportunidades econômicas sustentáveis e fortalecer estratégias de conservação e restauração.

Mais de 100 ações para transformar o papel das empresas

O relatório deixa claro que as empresas não conseguirão, sozinhas, promover a transformação necessária para conter a crise da biodiversidade. A mudança exige ações coordenadas entre governos, setor financeiro e sociedade civil.

Foram identificados cinco pilares fundamentais para criar um ambiente favorável à transformação:
políticas públicas e marcos regulatórios; sistemas econômicos e financeiros; valores sociais e cultura; tecnologia e dados; e capacitação e conhecimento.

Com base nesses pilares, o IPBES apresenta mais de 100 ações concretas que podem ser adotadas imediatamente por empresas e demais atores, incluindo melhorias de eficiência, redução de resíduos e emissões, transparência nos relatórios, revisão de subsídios prejudiciais e alinhamento entre lucro e benefícios ambientais.

Biodiversidade é tema central da economia do século XXI

Para os autores, a crise da biodiversidade deixou de ser uma pauta ambiental isolada e passou a ocupar o centro das decisões econômicas e estratégicas. “Não se trata de escolher entre ser pró-meio ambiente ou pró-negócios”, destaca o relatório. “Toda atividade econômica depende da natureza.”

A avaliação também contribui diretamente para o cumprimento de metas globais, como o Marco Global da Biodiversidade, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e o Acordo de Paris. Ao colocar as empresas no centro da solução, o IPBES reforça que conservar, restaurar e usar a biodiversidade de forma sustentável é condição essencial para a prosperidade econômica de longo prazo.

Tabela SPM.2. Ações que as empresas podem adotar agora para enfrentar seus impactos e dependências
Tabela SPM.1. Ações que diversos atores podem empreender para criar um ambiente favorável às empresas
Previous article

Notícias relacionadas

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Últimas notícias

- Advertisement -spot_img