por Arthur Soffiati
Transpor água de uma bacia hídrica para outra é, geralmente, resultado da ação humana.
O rio Tejo nasce no centro da Península Ibérica e corre naturalmente para o oceano Atlântico aberto. O território irrigado por sua bacia foi dividido nos estados nacionais de Espanha e Portugal. Assim, a nascente situa-se na Espanha e a foz em Portugal. O que pouca gente sabe é que a Espanha construiu obra de transposição do Tejo para o rio Segura. Assim como o Paraíba do Sul desemboca em São João da Barra, desemboca também na baía de Sepetiba. Por sua vez, o Tejo, pouco menor que o Paraíba do Sul e com uma bacia totalmente no interior da Península Ibérica, desemboca no oceano Atlântico aberto e no oceano Atlântico fechado, conhecido como mar Mediterrâneo. O sistema é chamado de Transvase Tejo-Segura.
Além da transposição do Paraíba do Sul para o Guandu, que desvia cerca de 2/3 da vazão do primeiro para o segundo, foi construída recentemente uma transposição do Paraíba do Sul para o sistema Cantareira, em São Paulo. Fala-se agora em nova transposição para a grande Niterói.
No baixo Paraíba do Sul, existe uma transposição natural do rio para o sistema lagoa Feia, tanto pela superfície, através do rio Cacumanga, quanto pelo lençol freático. Assim, os rios Paraíba do Sul e Ururaí e a lagoa Feia formam, naturalmente, um só e mesmo sistema. Mas, não é só. No passado, o rio Macabu corria apenas para a lagoa Feia. De forma indireta, ele integrava o grande sistema do Paraíba do Sul no seu curso final. Na década de 1920, projetou-se a transposição do rio Macabu para o rio São Pedro, afluente do rio Macaé, a fim de alimentar a hidrelétrica de Glicério. A transposição do rio Macabu para o Macaé ainda existe, embora não consiga mais atender à demanda insaciável da grande Macaé por água. No século XIX, as bacias do Paraíba do Sul e do Macaé foram interligadas pelo famoso canal Campos-Macaé, logo depois abandonado.

Mas não apenas. No trecho final do Paraíba do Sul, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento interligou-o ao pequeno rio Guaxindiba pelos canais do Vigário (até a lagoa do Campelo) e Engenheiro Antonio Rezende (da lagoa ao Guaxindiba). Em documentos do órgão, consta que a ligação visava atenuar a salinidade da lagoa para a agropecuária e fornecer água doce para o antigo Sertão de São João da Barra, hoje município de São Francisco de Itabapoana.
Voltando para a bacia do rio Macaé, observe-se que ela foi transposta para o rio das Ostras, com o fim de abastecimento público. O rio das Ostras não tem vazão suficiente para abastecer a cidade de mesmo nome. Assim, além de atender Macaé, a Petrobrás, outros empreendimentos, o rio Macaé atende também a rio das Ostras.
Até aqui, constatamos que o Paraíba do Sul, direta ou indiretamente, atende ou atendeu à demanda de água de São Paulo, do grande Rio de Janeiro, de São Francisco de Itabapoana (de maneira insatisfatória)e de Macaé (também insatisfatoriamente). O Macaé, por sua vez, atende a rio das Ostras. As interligações de bacias findaram? Ainda não. De vez em quando, volta à baila a proposta de abertura de um canal entre os rios das Ostras e São João para aliviar enchentes na cidade de Rio das Ostras.

Caminhemos para o este e constaremos que o rio São João está intimamente ligado à Região dos Lagos. Existe ligação direta do rio São João ao rio Una. As águas do São João são transpostas para as sedentas cidades da Região dos Lagoa, a fim de atender a demandas de diferentes interesses, prioritariamente consumo público. Uma concessionária tenciona (com resistência da população) lançar no pequenino rio Una as águas servidas.
Por um lado, essas interligações de bacias hídricas visam a atender à demanda crescente de consumo público. As cidades da Região dos Lagos conurbaram-se. Essa conurbação integra uma bem maior, constituída por Unamar, Barra de São João, Rio das Ostras e Macaé. Existe um pequeno intervalo entre esse complexo urbano e Campos. Os entusiastas do progresso vibram com essa conurbação e pleiteiam uma segunda região metropolitana para o estado do Rio de Janeiro.
Contudo, não consideram que essa imensa concentração de pessoas implicou em desmatamento, escassez de água doce, depleção dos rios, crise hídrica. É preciso situar esse grande complexo urbano no contexto planetário de mudanças ambientais empobrecedoras e de falência hídrica. Em síntese, a oferta de água doce, em franco processo de esgotamento, está perdendo a capacidade de atender a uma população crescente entre a Região dos Lagos e Campos dos Goytacazes.

Em breve, o teste da torneira levará o consumidor à loucura. A torneira, o chuveiro e o vaso sanitário não mais verterão água constantemente, como já acontece na grande São Paulo.



