SOBRE A SEMANA DO CLIMA DE NOVA YORK



Elisa Homem de Mello, fundadora da EBVB e correspondendo em SP para Revista ECO21

Nunca na história, o futuro da humanidade e do planeta dependeu tanto da capacidade de entender que todos vivem no mesmo ecossistema, e que sobrevivência está diretamente ligada à preservação e valorização de recursos naturais. Os impactos sociais e econômicos causados pela pandemia da Covid-19 em escala global e sem precedentes alertam para o fato que a quebra da estabilidade ecossistêmica traz consequências devastadoras, semelhantes ao que vem acontecendo com a emergência climática.

Neste contexto, o mundo deita seus olhos para a situação da Floresta Amazônica, que com o aumento do desmatamento, das queimadas e da destruição, vai de encontro ao que o setor privado acredita, deixando o Brasil ainda mais distante de suas metas climáticas e de um futuro justo e sustentável. Além da percepção negativa da imagem do Brasil internacionalmente, as questões sociais e ambientais na Amazônia são altamente prejudiciais ao desenvolvimento de negócios e projetos. Os valores sustentáveis devem ser disseminados e intrínsecos aos atores e à maneira de fazer negócios na região.

Na semana de 21 a 27 de setembro, a cidade norte americana de Nova York debateu online com líderes do mundo todo as mudanças climáticas no globo. O consenso geral é de que a crise pela qual passamos é uma oportunidade e não uma perda. Mas, acima de tudo, de que fazer negócio no mundo atual vai muito além de lucro financeiro. Ciente do potencial impacto nos negócios e na competitividade, o setor empresarial brasileiro afirmou publicamente, durante a Semana do Clima (Climate Week New York City), organizada por The ClimateGroup, suas preocupações com os atuais níveis de desmatamento e a falta de governança na Amazônia e demais biomas do país. Não deixou, entretanto, de apresentar o impacto positivo de esforços e projetos promissores que vem sendo realizado, ao longo de décadas, no Brasil e em especial na região Norte.

Em um dos painéis de debates online, que contou inclusive com a presença da diretora do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Gueorguieva, a diretora executiva para os EUA da organização 350.org (uma das que mais combateu o uso dos combustíveis fósseis nos últimos 10 anos), Tamara Toles O’Laughlin foi enérgica ao afirmar que estabelecer como meta uma pegada de carbono líquida zero (Net Zero) não é o suficiente. “Faça-os pagar”, afirmou ela em relação aos incêndios e enchentes que o mundo tem experimentado com frequência, e concluiu: “é preciso combater o capitalismo do combustível fóssil”. 

O tema das queimadas, que enchem os tabloides mundo afora, deteriorando ainda mais a imagem do Brasil, levou a ONG Amazônia Possível (fruto da parceria entre CEBDS com Instituto Arapyaú, Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Instituto Ethos, Rede Brasil do Pacto Global da ONU e Sistema B), a lançar internacionalmente o Guia dos “10 princípios empresariais para uma AM sustentável”. O Guia pretende ser um norteador para empresas que desejam operar de forma mais sustentável na região, sendo idealmente utilizado para embasar o desenho do planejamento estratégico e o exercício de priorização de projetos, para que tenham mais impactos positivos na ponta das cadeias produtivas. Segundo o cientista brasileiro, Carlos Nobre, apesar da biodiversidade brasileira nunca ter sido vista como um valor, os tempos atuais mostram que, tanto para o setor empresarial quanto econômico (e principalmente para este último), a biodiversidade é um potencial a ser explorado de forma sustentável, o que, infelizmente, quase nunca ocorre. Para Nobre, parte do problema está no fato de os países tropicais estarem seguindo uma tendência de “desindustrialização”. “No contexto da Revolução 4.0 e da economia do século XXI, é preciso apostar na bioeconomia baseada no uso dos ativos biológicos e biomiméticos para desenvolver a Amazônia”. A chamada “Terceira via” para o desenvolvimento da Amazônia 4.0 se contrapõe a outros dois modelos, que até recentemente foram privilegiados na discussão. Segundo este modelo, é preciso conciliar a proteção dos ecossistemas em unidades de conservação, terras indígenas e reservas extrativistas com a chamada intensificação sustentável da agropecuária e contenção dos desmatamentos causados pela expansão das fronteiras agrícolas e da mineração e da hidroeletricidade, isto é, um modelo intensivo em recursos naturais. 

Em outras palavras, é preciso unir o progresso científico-tecnológico à experiência dos povos da Floresta, o que, para Denise Hills, diretora global de sustentabilidade da Natura Brasil, é um fato: “não existe um povo que melhor conheça a Floresta que os que nela habitam. Trata-se de conhecimento secular”. Segundo Hills, a Natura usa mais de 30 ativos da região amazônica, sendo que, para cada um deles, existe mais de 4 mil moléculas a serem pesquisadas, fora remédios, probióticos etc; são conhecidos mais de 5 mil frutos com potenciais ativos para manteigas e óleos de beleza e medicinais. “Desmatar a Amazônia é como queimar a Monalisa! A Natura inspira-se na própria Floresta para garantir, até 2025, melhores esforços em rede para desmatamento zero”, afirmou Hills. Exemplos de investimentos em uma economia circular e verde não faltam. A Ford vem acelerando suas produções de carros elétricos (e aqui vale ressaltar que 95% das emissões de CO2 são provenientes de veículos movidos a combustíveis fóssil) e já chegou a aplicar mais de US$ 11 bilhões nesta corrida. A francesa L’Oréal, que já aportou € 100 milhões em regeneração de florestas e em projetos e estudos de economia circular, criou o programa “Dividindo Beleza” que estabelece como meta a redução total de CO2, até 2025. Atualmente, e com base nas ações já realizadas, a companhia já chegou a reduzir suas emissões em 80%. 

Mas a Amazônia é um caso especial e nem sempre é simples romper com o modelo de perpetuação da miséria. Dados mostram que no estado do Pará, 46% da população vive em estado de pobreza. A região Norte do Brasil tem o segundo menor IDH do país (0,683), considerado de médio desempenho se comparado à outras regiões brasileiras. E para Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira de Agronegócio (ABAG), a mãe de todas as desgraças continua sendo a estrutura fundiária. Segundo ele, são poucas as empresas que não entram no jogo da corrupção: “tem gente que ainda acha que dá para esconder as coisas do monitoramento via satélite”. É importante considerar ainda que cerca de 2 milhões de habitantes da Amazônia brasileira não tem acesso a energia elétrica e a maioria da população se utiliza de linhas de distribuição e de combustíveis fósseis para ter luz, impactando diretamente na qualidade de vida, na economia e na cultura dessa gente. A população absoluta da região Norte responde por cerca de 8% do total do país, somando 15.864.454 habitantes, conforme dados do Censo Demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É preciso criatividade para suprir carências básicas como esta, como cita Regina Magalhães, diretora do Setor Automotivo e de Transportes da Schneider Electric para a América Latina, que lidera o programa “Xingu Solar”, em desenvolvimento há mais de 10 anos, e que conta com a parceria do Instituto Socioambiental (ISA) e do Consulado da Mulher para levar energia, educação e impactar positivamente na qualidade de vida dos habitantes.

Em julho passado, líderes do setor privado nacional entregaram o “Comunicado do Setor Empresarial” ao presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal, vice-presidente da República, General Hamilton Mourão. A repercussão atraiu o apoio de novas empresas e transformou a pauta em movimento permanente do empresariado, que se reuniu com a cúpula dos 3 poderes do Brasil, do Ministério Público e de governos da região. O Comunicado defende sete eixos temáticos, dentre eles, o combate inflexível e abrangente ao desmatamento ilegal na Amazônia e demais biomas brasileiros, inclusão social e econômica, minimização do impacto ambiental no uso dos recursos naturais, buscando eficiência e produtividade nas atividades econômicas daí derivadas, valorização e preservação da biodiversidade, adoção de mecanismos de negociação de créditos de carbono, direcionamento de financiamentos e investimentos para economia circular e de baixo carbono, além de pacotes de incentivos para a recuperação econômica dos efeitos da pandemia da Covid-19.

O maior conhecimento sobre como ecossistemas se relacionam com as atividades de empresas e com a sociedade tem sido usado por organizações e iniciativas como forma de conectar oportunidades à solução de problemas na região. Para André Magalhães, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (IPAM), os fluxos de riscos a serem analisados passam pela reputação do Brasil e pela produtividade da região. “É preciso olhar com seriedade para as preocupações mundiais, que se tornaram uma tendência, à respeito de como o Brasil tem lidado com o desmatamento. E nosso maior desafio é dar uma resposta concreta ao mundo, combatendo as atividades ilegais imediatamente”. 

Em 2010, o Brasil atingiu o menor índice de desmatamento desde 1998. À época, “apenas” 6 km2 haviam sido derrubados. A maior parte da terra desmatada foi ocupada por pastagens (70%), o restante cabia ao extrativismo ilegal de madeiras. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) previa que a Amazônia poderia se transformar em instrumento de absorção de carbono em 2015, por meio de programas de recuperação das áreas desmatadas. Precisamente neste ano, o desmatamento começou a subir novamente e já em 2019 o Inpe registrava um aumento de 278% no número de alertas para áreas devastadas na Amazônia em comparação ao mês de julho do ano anterior. “Já conseguimos no passado, podemos conseguir novamente. Façam negócios com a Amazônia e afastem a maneira como vocês colocam os limites para a região. Não há um contrato técnico, nem políticas públicas eficazes que nos protejam, mas a pergunta é o quão rápido queremos implementar ações positiva, sejam elas no setor privado ou governamental. Não para 2025 ou 2050. É pra já!”, asseverou Tasso Azevedo, o engenheiro florestal que estruturou o bilionário Fundo Amazônia.

Gráfico – Desmatamento na Amazônia em m² X Tempo/anos FONTE: INPE

Para trazer para a mesma linguagem o P&L (perdas e lucros) financeiros é preciso passar a medir o P&L social, monetizando os impactos ambientais e sociais, revertendo a perdas naturais (biodiversidade e florestas) e as emissões de GEE, influenciando positivamente todo o setor, uma vez que os benefícios compartilhados gerarão rendimentos financeiros também. Aproveitar esta oportunidade é a nossa maior chance no momento, uma vez que o mundo se tornou consciente e conivente. É pegar ou largar! 

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