UM DIA QUE DEIXOU DE CABER EM 24 HORAS

Climate Children - Foto: Eduardo Munoz



Samyra Crespo || Ambientalista. Foi uma das coordenadoras do Documento Temático Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira, 2002. Ex-Presidenta do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

A crescente importância da agenda ambiental no Brasil e no mundo

O Dia Mundial do Meio Ambiente é 5 de Junho. A ONU elegeu este dia para exortar as Nações a aderirem ao programa global de promoção da sustentabilidade.

Mas, numa sociedade pensada em extensão planetária, a cada ano com mais interações propiciadas pelas tecnologias de comunicação, o dia parecia não caber em tantas celebrações e ações mundo afora.

Assim, aos poucos, na última década, deixou de ser efeméride de um dia e passou a ser evento de uma semana, dez dias, alguns antes e outros depois do dia 5 – oficial. O objetivo é evidenciar e reforçar uma cesta parruda de ações positivas em prol do meio ambiente e da qualidade de vida. Também uma demonstração didática e edificante de nossa responsabilidade com nossas próprias condições de vida: ar limpo para respirar, água boa para beber, comida no prato sem veneno, floresta em pé, bichos protegidos no seu habitat.

Uma ideologia fácil de entender. Pois, se existe uma ideologia ecológica ou ambiental, ela se caracteriza, em resumo, a esta cartilha simples de bem estar para todos – respeitando a diversidade biológica, e os valores culturais que não atentam contra a vida humana nem contra a saúde do Planeta-casa em que vivemos.

A razão porque um único dia não dá conta é simples: o tema é transversal e a transformação da sociedade na gestão dos bens ambientais se dá em várias esferas de gestão: da coletiva à individual, da nacional à municipal. Da global à local.

Nossa tristeza e até desespero nos dias atuais, é ver a Esfera Federal – responsável por 333 Reservas e Parques (a que chamamos Unidades de Conservação) além de tutelar mais de uma centena de etnias indígenas – tratar a agenda como se a odiasse. Como se fosse um estorvo. Está sob sua gestão 24% do território nacional.

Nem durante o mais visceral desenvolvimentismo de décadas passadas isso ocorreu.

É atípico, antinatural, e criminoso.

Dá desgosto e indignação ver nossa expressão “nacional” – quando se age em nome de todo o povo brasileiro – negar a emergência climática e a missão de proteger nosso patrimônio ambiental. É ignominiosa a iniciativa do Executivo de desmantelar o aparato estatal de proteção e deslegitimar uma legislação que era considerada uma das melhores do mundo. Fomos, durante duas décadas exemplo para outros países, dentro e fora do Continente.

Mas se na Esfera Federal observamos uma política de terra arrasada, o mesmo não se dá quando nossos olhos e esperança procuram os outros âmbitos da gestão pública. Há avanços consideráveis a contabilizar.

Nos Estados da federação, a atuação dos gestores segue a vocação e a disposição de vontades regionais e de coletivos que se mantém de pé. Nos Estados, com raras exceções, os conselhos de meio ambiente estão mantidos, as agências ambientais funcionando e seguindo a maior parte das Leis existentes.

Nota-se que antes da Pandemia – evento inédito, inesperado e fora da curva, que infelizmente drena atenção e recursos – esta esfera da gestão pública mantinha robusto programa de conversão energética e pactos subnacionais de descarbonização, de diminuição de emissões dos gases do Efeito Estufa. O zoneamento ecológico avançou em vários estados e regiões assim como o combate às queimadas e desmatamentos locais.

Ainda assim, vimos retrocessos em alguns Estados como São Paulo, Minas Gerais e Bahia – com perdas significativas de nossa Mata Atlântica. E Estados como Pará, Rondônia, Acre e agora Amazonas com índices de desmatamentos recordes.

Na Esfera Municipal, o desafio são as cidades, a trama urbana e complexa de problemas que vão do saneamento à mobilidade, do cuidado com os remanescentes de vegetação e de água limpa – e bem mais recentemente, com uma agenda que se amplia a cada ano, de ações que vão rebater diretamente na qualidade de vida da população.

As cidades brasileiras, onde a vida real cotidiana acontece – com dores e alegrias – são os universos mais complexos da Federação. Pois são nas rotinas e disciplinas adotadas pela população que se podem medir os efeitos virtuosos – ou não – da gestão pública. Aqui a questão dos resíduos/lixo é premente, o impacto da circulação de carros e dos transportes de massa um desafio a ser enfrentado. Não é menor a agenda de promover um estilo de vida saudável e de, minimamente, ter a presença da Natureza preservada – em ambiente tão duramente antropomorfizado.

Este ano não teremos as expressões comunitárias das conquistas ambientais, outra dimensão importantíssima, ao vivo e a cores: as escolas, condomínios, associações, ONGs, estes micro atores da civilidade e da política de esverdeamento da sociedade maior. Mas teremos muitas “lives”, painéis virtuais e filmes, livros, poemas, orações.

No plano Global também veremos manifestações, balanços, exortações – um cenário infelizmente fortemente atingido pela Pandemia e pelo temor da já certeira recessão econômica.

Muitos especialistas e visionários estão dizendo que o mundo pós-Covid mudará radicalmente a realidade e as mentalidades. Um “novo normal” será estabelecido.

Por isso, já de olho no futuro – este tempo de ida e não de voltas – penso que no próximo ano o Dia, ou a Semana do Meio Ambiente terá muito mais a contar e a celebrar.

No entanto, é preciso lembrar que tanto para a destruição como para a construção cada dia e cada ação contam. Por isso, é muito importante pesar nossos atos e posição. De que lado da História estamos? Para o que estamos contribuindo?

Seja com nossas ações ou nossas omissões hoje, o amanhã está sendo desenhado.

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