QUE CRIANÇAS VAMOS DEIXAR PARA O PLANETA?



Samyra Crespo | Ambientalista. Ex-Presidenta do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Tenho uma amiga, já falecida, e seu nome e sua vida foram públicos: Angelica Goulart. Uso o tenho no presente, pois sua integridade e seu exemplo me inspiram até hoje. Ela foi juíza e abandonou o judiciário para dedicar-se à causa da infância. Foi diretora da Fundação Xuxa, que hoje leva o seu nome e trabalhou com afinco pelo estatuto da criança, chegando a fazê-lo no nível nacional, ocupando um cargo no Ministério da Justiça no governo da Dilma Roussef.

Devo a ela a maior parte das minhas reflexões sobre a infância.

Um dia, quando eu secretariava a Rede de Mulheres Brasileiras Líderes pela Sustentabilidade, criada por iniciativa do Ministério do Meio Ambiente (em 2011), convidei-a para falar em nosso evento semestral.

Ela começou a sua fala dizendo que nós ambientalistas vivemos preocupados em deixar um Planeta melhor para as crianças  – para as futuras gerações.  Mas pouco nos preocupamos com a qualidade das crianças que vamos deixar para o Planeta: crianças que vivem na pobreza, no trauma da guerra, nos campos de refugiados, nos reformatórios que não reformam, em escolas onde tiroteios diários (nas comunidades) jogam alunos embaixo das carteiras e afastam os melhores professores.

Se forem crianças de classe média – o espelho com que a sociedade quer que todos e todas se meçam, poucas conseguem se safar do consumismo e das armadilhas do marketing infantil das empresas de brinquedos, jogos, eletrônicos e outros produtos direcionados a este nicho de mercado.

Além de vítimas desse marketing agressivo e sedutor, as crianças vêem o exemplo dos seus pais, e cada vez mais são também cooptadas para viver num ritmo em que o tempo ocioso – para brincar, imaginar, ler, não fazer nada – é apropriado por tarefas obrigatórias extracurriculares como natação, judô, ballet, inglês e por aí  vai. Vai sim, vamos formatando os seres urbanos estressados, separados da natureza e que não têm a menor noção de que o Planeta é finito e que cada gesto, cada comportamento pode agravar a crise ecológica em que nos metemos há pouco menos de 100 anos.

Isso mesmo, praticamente no decorrer do tempo de uma vida humana, nós degradamos o Planeta e nossas próprias condições de vida nele. Dê uma espiada no documentário Our Planet, com o naturalista de 93 anos, David Attenborough (Netflix),  e você vai ver como o fizemos – aumentando a emissão de gases do efeito estufa e reduzindo drasticamente a biodiversidade que mantinha a Terra estável.

Estamos saindo do paraíso  – tanto o real quanto o ilusório  (o do crescimento infinito) – para a aventura de um pesadelo para o qual não estamos preparados.

Somos as crianças de ontem. Nossos pais, o que faziam? Que sonhos acalentavam? Que futuro nos desejavam?

Somos hoje a geração que tem parte da responsabilidade por tudo o que está aí, inclusive desmatar, devastar, matar tantos bichos que já se fala na sexta extinção  – provocada por nós.

É preciso que olhemos para a infância, para as crianças, nossos futuros adultos, tomadores de decisão no seu tempo e nos perguntemos, com coragem: que crianças estamos legando ao Planeta?

Para que mundo estamos educando nossos filhos e filhas?

Não é a confeitaria, a lanchonete nem a loja de brinquedos que vão nos ajudar a dar esta resposta.

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