Os Agrotóxicos e a saúde



Fernanda Alcântara | Jornalista

São muitos os impactos que a liberação desenfreada de agrotóxicos tem causado à população brasileira. Aprovados em grandes levas, os agrotóxicos receberam o nome simpático de “defensivos agrícolas” e ganharam a afeição do atual governo, que libera cada vez mais venenos na mesa do brasileiro. Os números são realmente assustadores. Enquanto os governos de Dilma, entre 2010 a 2016, aprovaram em média 20 novos agrotóxicos por ano, o governo de Bolsonaro já aprovou 166 novos venenos, e este número tende a piorar: Uma média de 17 por dia são inseridos na lista de espera. Agora, ao atingir a marca de 166, o país atualiza o número total de agrotóxicos para 2.232, considerando os herbicidas em circulação no mercado e aumenta também o investimento das grandes corporações.

Desde 2018, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. O Comitê Técnico para Assessoramento de Agrotóxico (CTA), responsável por emitir a autorização para a circulação destes venenos, confirma que a lista para a aprovação é 80% maior que no ano passado.

Essa aprovação é feita por ordem cronológica ou por “emergência”- em média mensal. A média de 20 novos agrotóxicos por ano passou a ser de duas semanas. O recorde de pedidos e aprovações mostra a força do agronegócio no Brasil, que tem como finalidade agradar os interesses corporativos.

Agrotóxicos e saúde

Para Luiz Zarref, do MST, as aprovações não fazem sentido colocando em perspectiva a atual situação de vantagem que o cultivo no Brasil tem. “Não é plausível que, em quatro meses, nós tenhamos a liberação de tantos agrotóxicos. Mesmo que nós estivéssemos em uma situação de colapso total da agricultura por uma série de epidemias, de doenças e insetos indesejáveis, ainda assim nós teríamos que refletir sobre isso. Mas este não é o caso”, afirmou.

Se não temos tantos problemas agrícolas que demandam tamanha multiplicidade de venenos, a submissão das agências reguladoras ao interesse das grandes empresas transnacionais explica esse fato: “não tem nenhuma conexão com as necessidades produtivas e fitossanitárias do campo brasileiro”, defende Zarref. Nem para o próprio interesse econômico do governo: enquanto o agronegócio teve um lucro de US$ 8,8 bilhões em 2017, o estado deixou de arrecadar 2,07 bilhões com isenções fiscais destas empresas.

Dos pesticidas aprovados em 2019, 49 foram classificados como “extremamente tóxicos” e outros 24 como “altamente tóxicos” para a saúde humana. Estes danos à vida vão desde alterações genéticas como as malformações de embriões até efeitos mais agudos. Pesquisas recentes confirmam as consequências para a nossa saúde destes agrotóxicos, principalmente na nossa comida, na água que bebemos, no ar que respiramos e nos lugares em que nossas crianças brincam.

O glifosato

Um dos princípios ativos que está presente em vários destes agrotóxicos liberados é o glifosato, um herbicida sistêmico que já foi proibido em outros países por ser cancerígeno. A empresa produtora do composto é acusada de falsificar dados sobre a segurança e o vender para departamentos municipais de parques e jardins e também para consumidores. “Recentemente, a licença de vários produtos com variedades de glifosato foi revalidada. Apesar das várias críticas e dos estudos científicos que especialistas, universidades e institutos de pesquisa apresentam, estes herbicidas estão sendo usados de novo” lembra Zarref.

Nas comunidades agrícolas, existe uma forte relação entre a exposição a alguns destes compostos com glifosato, que tem a capacidade afetar as funções hormonais da tireoide. Em mulheres grávidas que moravam a um raio de mil metros de distância de onde se aplicava o pesticida, há uma associação entre o glifosato e a anencefalia, com casos de ausência de uma grande porção do cérebro, do crânio e do pericrânio formado durante o desenvolvimento do embrião. Entretanto, o risco de câncer continua sendo o risco maior pelo qual os trabalhadores do campo estão expostos com os agrotóxicos. Uma pesquisa de 65 mil pessoas em comunidades agrárias argentina mostra médias de câncer entre duas e quatro vezes maiores do que a média nacional, com altos índices de câncer de mama, próstata e pulmão.

A pesquisa aponta que, em uma comparação entre dois povos, àquele em que o glifosato foi aplicado, 31% dos moradores tinham algum familiar com câncer; ao mesmo tempo, só 3% dos moradores de um povoado sem o agrotóxico tinham conhecidos com a doença. Estas diferenças surgem da reconhecida capacidade do glifosato de induzir danos ao DNA, algo que foi demonstrado em inúmeras pesquisas de laboratório.

Mas os riscos não estão restritos apenas aos trabalhadores ligados diretamente às plantações. É possível afirmar que, com a liberação massiva de novos agrotóxicos, o envenenamento da população vem também de outros modos, como alerta Zarref.

 “Na grande maioria das capitais brasileiras, todos os habitantes consomem um coquetel que chega até ter 27 princípios ativos diferentes na água que vem do sistema de abastecimento público. Então os impactos são terríveis e afetam toda a população brasileira, não só quem está no campo, mas toda a população”, afirmou.

Diante desta realidade, a informação segue como ferramenta chave para a luta por uma alimentação saudável. A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida oferece uma série de vídeos, textos e contatos para esclarecer dúvidas sobre o tema. A luta pela redução dos agrotóxicos no Brasil não oferece somente mais saúde para a população, mas também um ambiente sadio para se produzir comida de qualidade. A própria sociedade brasileira tem ciência disso: segundo pesquisa IBOPE, 81% dos brasileiros considera que a quantidade de agrotóxicos aplicada nas lavouras é “alta” ou “muito alta”. Mas é preciso se mobilizar e começar a refletir sobre este tema na mesa de casa. “Consumir produtos do agronegócio é reforçar o próprio poder de envenenamento do agronegócio”, conclui Zarref. Assim, precisamos ficar sempre atentos ao que está sendo ingerido e lutar por uma alimentação saudável como o único caminho.

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