O Rio pede nossa atenção! por Samyra Crespo

Enseada de Botafogo feita com lixo na RIO+20 - Arte: Vik Muniz


Mais uns dias e termina a metade do ano mais louco de nossas vidas.

A outra metade promete mais agruras. A Pandemia vai durar mais do que o inicialmente previsto e as incertezas econômicas, sociais e políticas do País tendem a aumentar.

Mas tem aquela bela frase do poeta Thiago de Melo – Faz escuro, mas eu canto – e também a do dramaturgo Bertold Brecht que à pergunta se em tempos de crise, e até mesmo de horror, se a arte ou poesia seriam possíveis, responde: sim e o conteúdo será a crise e o horror.

Por isso falamos, lamentamos e cantamos a dor, a indignação e recolhemos diariamente nossos fiapos de esperança para enfrentar o que precisa ser enfrentado. A reação catártica é necessária, mas não suficiente nem eficiente para mudarmos alguma coisa.

Incomoda-me que a perspectiva nacional – dramática, reconheço – vá esvaziando nosso olhar sobre as decisivas eleições municipais adiadas para dezembro, logo ali, na esquina do tempo que nos resta deste ano.

Rubens Gerchman Fim de tarde Década 80 – Foto: Casa das Artes

O Rio de Janeiro, a cidade principalmente ou área metropolitana, se revolve no caos, o real e o imaginado. Andamos que nem bêbados – ora desesperados, ora letárgicos.

Eleger uma nova câmara e vereadores, capazes de fazer frente ao avanço do poder das milícias e dos vampiros dos recursos públicos, me parece uma prioridade para quem vive aqui.

Não vejo a mesma força e ímpeto dos militantes, que continuam a focar em Bolsonaro – e que se dispersam, ou parecem exauridos quando a pauta é a cidade.

Recentemente, a França nos deu uma lição, elegendo um surpreendente número de prefeitos ambientalistas.

Gente nova, sangue novo – que sabe que água potável, saneamento e cuidado com o ambiente melhora de verdade a vida das pessoas. Gente que respeita o multiculturalismo e a diversidade. Gente que entende que os velhos métodos, como predar os recursos naturais e apostar em lógicas de curto prazo não vão resolver nossas mazelas.

Precisamos de gente honesta, não do “menos pior”. Construir essa alternativa é chave.

Caberá à nova (ou velha, se reelergermos os mesmos que estão aí) aprovar o novo Plano Diretor da cidade.

Caberá ao novo executivo dar seguimento ao Plano de aplicação dos ODSs – aos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável – estabelecido em 2017 – , praticamente abandonado pela atual administração.

Feira da Glória – Aquarela de Jorge Eduardo

É simplista pensar que administrar uma cidade complexa como o Rio se resume a ter uma política emergencial de segurança e de “geração de empregos”. É como se pudéssemos curar uma ferida profunda com esparadrapo.

A vida se reproduz material e culturalmente com muito mais. O Carioca quer colocar o nariz fora da água poluída da Baía da Guanabara, quer ciclovias seguras, alimentação saudável, quer suas áreas de convivialidade ampliadas e transporte digno. Quer uma atenção à saúde voltada para a prevenção.

O Carioca precisa de um plano para unir a “cidade partida” (expressão do caríssimo Zuenir Ventura) que vá além de cestas básicas, solidariedade importante, mas insuficiente para consolidar laços de verdadeira vizinhança.

Poderia passar horas falando dessa pauta e da certeza de que há gente boa – com a qual se possa contar.

Mas para isso, para reconstruir, precisamos correr atrás. Apoiar novos candidatos e ficar atentos a boas novidades como a ideia dos “mandatos coletivos ” (Conheço o “Se Liga na liga”, liderado pelo Roberto Anderson). Esta ideia é sensacional, embora apenas um cabeça de chapa seja eleito e empossado, o mandato tem um lastro de colegiado, de decisão compartilhada. Gosto.

Penso que devemos, cada vez mais, lutar pela possibilidade de candidatos “avulsos”. Os partidos, infelizmente são, muitas vezes, reféns de lideranças caudilhescas e mesmo bandidas.

Também desconfio que pautas majoritariamente identitárias, nesse momento, ajudam pouco. Precisamos de “frente”, correntes, alianças amplas.

Acho que já está passando da hora de colocarmos tudo isso num debate sério, que valha a pena.

Se quisermos livrar o Rio desta que parece uma triste sina, uma decadência acelerada, precisamos nos desprender deste excesso de atenção ao “nacional” e correr – contra o tempo – para resgatar as eleições municipais.

Já!!!

Samyra Crespo | Ambientalista. Ex-Presidenta do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

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