O Pantanal queimado e calcinado por Samyra Crespo

Foto: Suri Rolando Cabrera Barea / WWF-Brasil


Samyra Crespo | Ambientalista. Ex-Presidenta do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Nunca fui ambientalista de gabinete e conheço todos os biomas brasileiros. E não é  conhecimento via reuniões ou visitas pró-forma não. Sempre pus o pé  na estrada e organizei minhas próprias incursões pela natureza que amo e defendo, no meu País e fora dele.  Tenho predileção por paisagens abertas e rarefeitas de gente. Em geral, nos descansa das cidades e nos introduz em outros campos de observação e experiência.

O último bioma brasileiro a ser conhecido por mim foi o Pantanal matogrossense. Nunca tinha estado lá até a década de 2000. Em algumas cidades sim, mas não  no coração do pantanal.

A primeira vez fui a convite de Israel Klabin, ambientalista e fundador da FBDS – Fundação  Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, que teve, como organização, origem curiosa. Nasceu de uma articulação do saudoso Maurice Strong (secretário da Rio 92) com o International Business Council, sediado até  hoje na Suíça, e deveria ser o braço deste no Brasil. Resultou, portanto,  de um esforço para engajar o empresariado na agenda ambiental.  Contudo, Klabin logo se desentendeu com o Comité do BIC. Considerou que as motivações, na época, eram lobistas e tomou um caminho próprio  – tornando a FBDS uma organização de projetos gerenciais e científicos.

Klabin e sua família  – de empresários judeus abastados – possui uma bela fazenda no Pantanal, às margens do Rio Touro Morto. Quando lá estive há 17 anos, a fazenda tentava a experiência da pecuária  sustentável, produzindo o “boi verde”: nome que se dá ao boi não confinado e criado com o mínimo de vacinas em áreas que respeitam todas as normas ambientais vigentes. Tentava também o mercado da carne kosher, consumida por judeus ortodoxos.

Além da reserva legal, a fazenda tinha 70% de sua área intocada e um interessante engajamento no programa de proteção da onça pintada.

Segundo Klabin me contou, embora proibida a caça de onças – com freqüência apareciam mortas e a alegação é que estavam matando o gado, principalmente as rezes jovens. Mas o que ocorria na verdade era o famoso “roubo de novilhos” – atribuído matreiramente às onças.

O fato é que o programa de proteção contava com apoio técnico do Zoológico do Bronx, um dos mais famosos dos EUA – que fazia um monitoramento por chips e sensoriamento remoto bem sofisticado.

Dizem que existe “sorte de principiante” e lá fui eu, logo que cheguei à  fazenda,  com os cientistas e dois empregados, à noite, fazer a observação dos hábitos ecológicos das onças.

Numa pequeno caiaque, munidos de lanternas fracas apagadas e uma garrafa de térmica de café. Deve-se fazer o mínimo de barulho possível. A observação é  em geral, monótona e silenciosa.

Adentramos ao Touro Morto e navegamos devagar e mudos até  o ponto detectado como o que as onças costumavam aparecer.

O ditado “onde a onça bebe água” é  absolutamente verdadeiro: bicho de hábitos noturnos ela se acerca do rio ou dos curso d’água disponíveis para beber ou caçar.

Ali ficamos cerca de 6 horas até o dia começar a clarear e nada de onça. Vimos uma família de ariranhas e nada mais.

O Pantanal concentra o maior número de bichos por metro quadrado que já vi – com os jacarés que se amontoam e parecem pedras, aves de todos os tamanhos, rios piscosos. É uma festa para os olhos. Fazendas como a do Klabin também funcionam como “refúgio de fauna”.

Não tive a sorte de ver a onça – mas no dia seguinte as câmeras detectaram a presença de um adulto e um filhote. Muita emoção, ainda que via imagens fugidias.

Ver as  tristes imagens do Pantanal queimando todos estes dias na TV e nas redes sociais, quilômetros de paisagem calcinada, rios  quase secos, e a fumaça negra como um grande funeral aéreo  – tem sido uma sensação horrorosa. Que tristeza!!!

Só a seca não explica a tragédia.

A impunidade e o beneplácito do atual Governo federal contribuem para o agravamento observado este ano. Ainda graçando e matando, é  a pior seca e queimada dos últimos 50 anos.

Contabilidade ainda preliminar calcula que 33% de todo o Pantanal foi comprometido pelo fogo.

Por isso não posso compreender – nem aceitar – a imagem do vídeo viralizado na internet, onde Bolsonaro diz rindo: “O Pantanal está queimando?” e todos os o que acompanham na reunião respondem com sonora risada.

O Pantanal está queimando e muitos brasileiros lamentam e choram o fato.

Se alguns riem ou não se importam, eis aí a diferença entre uns e outros.

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