O eclipse de Sobral confirmou a Teoria da Relatividade Geral

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Ronaldo Rogério de Freitas Mourão || Astrônomo e escritor (In memoriam)

Em 1919, duas comissões de cientistas ingleses e norte-americanos se juntaram à dos brasileiros para observar o eclipse de 29 de Maio de 1919; seus objetivos científicos eram bem diferentes. A meta mais importante era dos ingleses, que desejavam verificar experimentalmente as consequências da Teoria da Relatividade.

Fotograma do Eclipse de Sobral

Não fosse a confirmação dessa teoria, durante o eclipse, este seria mais um eclipse entre os muitos observados. Sua importância vem do fato de que só a partir dessa época a Teoria da Relatividade e seu autor se tornaram universalmente conhecidos, tanto no meio científico como entre os leigos. Parece que a confirmação, através de um fenômeno astronômico que sempre foi cercado por uma atmosfera de magia, seguramente facilitou a enorme popularidade que desde então envolve a Teoria da Relatividade e a figura do seu criador Albert Einstein.

A comissão inglesa pretendia comprovar a previsão de Einstein, segundo a qual os raios luminosos, ao passarem próximo ao Sol, deveriam sofrer um desvio duas vezes superior ao previsto pela Teoria de Newton. Para verificar a realidade dessa conclusão einsteiniana, publicada em Novembro de 1915, a Comissão Permanente de Eclipse da Royal Society e da Royal Astronomical Society, estimulada por uma comunicação lida por Sir Frank Dyson, em Março de 1917, decidiu organizar duas expedições. As estações selecionadas, na linha de totalidade do eclipse, compreendiam a cidade de Sobral, no Ceará, e a ilha de Príncipe, no golfo da Guiné. Para a primeira estação foram enviados os astrônomos A.C.D. Crommelin, e C.R. Davidson, e, para a segunda, os astrônomos Cottingham, e Eddington. Todos esses pesquisadores ingleses pertenciam ao Observatório Real de Greenwich, e os instrumentos aos observatórios de Greenwich e Oxford.

A comissão brasileira tinha como objetivo o estudo da coroa solar, sua forma e disposição, assim como a análise espectroscópica de sua constituição.

No dia 29 de Maio o céu amanheceu completamente encoberto, com nuvens cúmulos, cúmulos-nimbos e cirros-cúmulos. Às 7h10m, o céu começou a limpar a nordeste; logo depois, às 7h40m, estava completamente escuro. Uma abertura entre as nuvens permitiu a Morize constatar, às 7h46min, que o disco solar já estava mordido. Logo depois, o céu encobriu-se de novo; às 8h15m, caíram algumas gotas de chuva, e as nuvens baixas corriam de sudeste para nordeste. A oeste, o céu estava limpo, mas, exatamente sobre o disco solar, encontravam-se pesadas nuvens de cúmulos-nimbos. Às 8h25m, uma abertura entre as nuvens permitiu ver o eclipse. O suspense era enorme. Imaginava-se que talvez não fosse possível observar a fase máxima.

Para alegria geral, às 8h52m ocorreu uma grande abertura onde se achava o Sol. Teve início uma série de fotografias, tanto pela comissão brasileira quanto pela inglesa. Na corrida para obter o maior número de fotografias, os astrônomos tiveram pouco tempo para apreciar, durante o eclipse, uma soberba e belíssima protuberância. Por outro lado, na ilha de Príncipe as nuvens haviam encoberto o disco solar. Assim, enquanto Eddington informava por telegrama à Royal Society que tinha esperanças de aproveitar algumas das fotografias obtidas em Príncipe, Crommelin telegrafava: “Eclipse esplêndido”. Davidson conseguiu sucesso em 15 de suas 18 exposições, e Crommelin em 7 de suas 8 tentativas. Um autêntico sucesso.

Telescópio

Logo que as placas chegaram a Greenwich, os astrônomos Davidson e Furnar iniciaram a medida das placas fotográficas. Segundo um relatório preliminar de Eddington à reunião da Associação Britânica realizada em Bournemouth de 9 a 13 de Setembro, da deflexão da luz situava-se entre 0,87 segundo de arco e o dobro deste valor. Esta notícia provisória do sucesso desta missão foi comunicada a Einstein no fim do mês de Setembro de 1919, por um telegrama do seu amigo, o físico holandês Hendrik Antoon Lorentz (1853 -1928) de Leiden, onde a informação chegou trazida por Van del Pol que havia participado da conferencia de Bournemouth.

Antes mesmo que um resultado definitivo fosse anunciado, uma primeira notícia sobre os resultados do eclipse de 1919, confirmando o desvio da luz previsto pela teoria da relatividade, foi publicada, no Berliner Tageblatt de 8 de Outubro de 1919. Acredita-se que o jornalista Alexander Moszkowski, autor deste artigo intitulado “Die Sonne brach’es anden Tag”, baseou-se em informações fornecidas por Einstein antes de 27 de Setembro de 1919, data da carta na qual comunicava à sua mãe que o eclipse havia confirmado a sua teoria.

Depois de quase três meses de trabalho minucioso, convocou-se, a 6 de Novembro, uma reunião conjunta da Comissão do Eclipse da Royal Society e da Royal Astronomical Society. Coube ao astrônomo real, Sir Frank Dyson, anunciar que os resultados das medidas confirmaram as previsões de Einstein.

No dia seguinte, entre as manchetes do Times, de Londres, encontrava-se a seguinte: “Uma revolução na ciência. As idéias de Newton estão arruinadas.”

Einstein e a imprensa: a origem de um mito

Em 26 de Abril de 1914, Einstein teve publicado, no Die Vossische Zeitung um artigo de sua autoria sobre a Teoria da Relatividade. Até Novembro de 1919, Einstein era uma celebridade pública restrita aos países de língua alemã. Com efeito, a publicação dos resultados da pesquisas efetuadas, durante o eclipse de 1919, no dia 7 de novembro, no Times de Londres e, no dia 10 de novembro, no New York Times, transformou Einstein em uma figura mundial.

Monumento ao Eclipse em Sobral – CE.

Entretanto, o nome de Einstein só surgiu na imprensa das Américas pela primeira vez na cidade cearense de Sobral. De fato, durante os dias que antecederam o eclipse total do Sol, de 29 de Maio de 1919, os jornais da cidade de Sobral publicaram vários artigos e entrevistas com os astrônomos ingleses, fazendo referências à Teoria da Relatividade. A primeira referência à Teoria de Einstein, na imprensa das Américas, surgiu em 16 de Maio de 1919, no periódico sobralense A Lucta. A mais importante delas foi o artigo escrito, no dia 22 de Maio de 1919, pelos astrônomos ingleses Crommelin e Davidson, e publicado em 24 de Maio no Correio da Semana, de Sobral. Ao explicar o motivo da missão inglesa, por solicitação do Bispo Dom José Tupinambá, responsável pelo jornal Correio da Semana, o astrônomo redator do texto – Crommelin -, além de fazer a primeira referência explícita ao nome de Albert Einstein na mídia das Américas, redigiu um dos mais completos textos já escritos sobre a observação da deflexão da luz durante os eclipses do Sol para comprovar a Teoria da Relatividade publicada no Brasil. Como era de se esperar esses artigos tiveram uma repercussão local, com reflexos no Rio de Janeiro, onde foi reproduzido, no Jornal do Commercio, em 29 de Maio, ou seja, cinco dias depois de sua publicação em Sobral.

Numa pesquisa realizada nos microfilmes do New York Times, o escritor Abraham Pais demonstrou não existir qualquer menção a Einstein até Novembro de 1919. Por ocasião das comemorações dos 80 anos do eclipse de 1919, quando foi criado o Museu do Eclipse, em Sobral, no local onde esteve instalada a Comissão Brasileira, a professora Norma Soares da Universidade do Vale do Acaraú, em Sobral, localizou e reproduziu os principais textos relativos às entrevistas publicadas nos jornais sobralenses na época. Recentemente, conseguimos localizar o manuscrito do artigo de Crommelin – primeiro texto redigido e publicado nas Américas -, onde Einstein é citado nominalmente. Uma nova tradução foi redigida a partir dos dois manuscritos, tendo em vista que os artigos impressos, em Sobral e no Rio de Janeiro, além de constituírem uma adaptação do texto original, não traduzem com precisão, algumas palavras e expressões mais técnicas desconhecidas pelo Dr. Leocádio Araújo. A nova versão dos dois manuscritos originais de Crommelin e outro de Davidson; deverão constar do livro em elaboração: “Einstein de Sobral ao Rio de Janeiro”.

Em 1933, durante uma reunião na sala de jantar do Trinity College, em Cambridge, o físico britânico Ernest Rutherford – Prêmio Nobel da química em 1908 – dirigiu-se ao astrônomo inglês Arthur S. Eddington, com a seguinte afirmativa: “você é o responsável pela fama de Einstein”. Tratava-se da uma grande verdade.

Einstein foi canonizado, como escreveu o seu biógrafo Abraham Pais, depois do anúncio dos resultados de Eddington sobre o eclipse de 1919, que confirmaram uma das principais previsões da Teoria da Relatividade Geral. A contribuição de Eddington, na realidade, não se limitou à observação e determinação da deflexão dos raios luminosos nas proximidades do Sol, mas também a uma sistemática divulgação por intermédio de relatos, conferências e palestras, na Royal Astronomical Society e na British Association for the Advancement of Science, e de artigos publicados nas revistas inglesas Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, Observatory e Nature. Tão convencido estava da veracidade da Teoria da Relatividade Geral, que tudo fez para sua difusão e comprovação.

Eddington considerava a teoria de Einstein, da qual teve conhecimento através dos artigos enviados pelo seu colega e amigo – o astrônomo holandês Willam de Sitter -, em 1915, como o a “mais bela amostra do poder de raciocínio independentemente de sua teoria ser ou não correta”.

Conta-se que o astrônomo real Sir Frank Dyson, ao explicar a importância da observação da deflexão dos raios luminosos a E.T. Cottingham – astrônomo que deveria acompanhar Eddington à Ilha de Príncipe – teria dito que haviam três possibilidades: não ocorrer nenhuma deflexão de luz, isto é, não ser a luz influenciada pelo campo gravitacional; ocorrer uma deflexão – metade da prevista por Einstein – conforme havia sugerido a Teoria de Newton; e, finalmente, uma deflexão da ordem do dobro de newtoniana, como havia sido proposto por Einstein. Em face desta exposição, Cottingham imaginou que quanto maior a deflexão mais importante seria o resultado e questionou a Dyson: “Se obtivermos um valor superior, por exemplo, ao dobro da previsão einsteiniana?” Diante dessa questão, Dyson teria respondido: “Neste caso, Eddington enlouquecerá e você terá que regressar sozinho…”

O entusiasmo de Eddington foi enorme. Alguns autores o acusam de ter forçado o resultado do eclipse procurando usar somente os valores que confirmavam a teoria de Einstein. Na realidade não o fez, pois Eddington não iria contra a sua consciência de cientista nem o faria tendo em vista a sua formação religiosa.

Não temos dúvida em afirmar, parodiando a frase de Einstein em entrevista ao jornalista Assis Chateaubriand, durante a sua passagem pelo Rio de Janeiro, que: “o problema concebido pelo cérebro de Einstein, incumbiu-se de resolvê-lo o luminoso céu de Sobral”, ou melhor, não há dúvida que foi o céu de Sobral que permitiu a canonização do maior homem da ciência do Século XX.

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