O destino da Mata Atlântica

Foto: Lúcia Chayb


Carmel Croukamp | Diretora Geral do Parque das Aves

É lamentável saber que mais de dois terços da população brasileira, que vivem e dependem da região da Mata Atlântica, conhecem tão pouco sobre ela. É nossa a missão de focar todos os esforços na conservação das espécies desse bioma.

Cheguei há 10 anos ao Brasil, desde então tenho centrado meu trabalho nas aves, principalmente nas 120 espécies e subespécies da Mata Atlântica ameaçadas de extinção. A maioria dessas aves é exclusiva da Mata Atlântica; mas 90% delas não possuem nenhuma ação específica para conservação, além de existirem em áreas protegidas, como as Unidades de Conservação.

Hoje, mais do que nunca, é muito importante a criação e manutenção dessas áreas. Contudo, o que vemos é uma forte ofensiva para o desaparelhamento dessas Unidades, edição de Decretos e Emendas Constitucionais para inviabilizar a criação de novas áreas protegidas no território da Mata Atlântica e, mais recentemente, o agressivo desmonte do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

A participação da sociedade civil tem um papel fundamental para conter esse retrocesso, mas para isso é preciso que a população saiba que o que está em jogo é o seu próprio destino. Dependemos da floresta para a produção de alimentos, manutenção dos recursos hídricos, entre outros serviços ambientais.

Apesar da enorme redução da cobertura florestal que deu fim a muitas espécies e da iminente ameaça de tantas outras, estamos vivenciando a derrubada de marcos regulatórios, processos e estruturas que deram suporte às políticas de proteção. Ainda existem chances de que ações bem planejadas resultem na conservação da Mata Atlântica.

Creio que isso seja um processo pedagógico de educação ambiental alinhado a efetivas políticas públicas. De onde eu venho, na Namíbia, uma das principais preocupações está na preservação do meio ambiente. Viajar por lá significa se deparar continuamente com iniciativas e projetos sustentáveis, visto que o país declarou como reserva ambiental 42% de seu território.

Não vejo porque o Brasil seria diferente. Temos uma rede de Unidades de Conservação e áreas protegidas que são orgulho para o país. O investimento em Parques Nacionais que acoplem a ideia da conservação produz benefícios amplos que gerariam, inclusive, o desenvolvimento social e econômico em inúmeras regiões de domínio de Mata Atlântica, visto que os mercados ecoturísticos para o Brasil estão muito longe de ficar saturados. Esse é um ativo ambiental desprezado pelo país.

Além disso, é necessário ressaltar um fato importante: muitas Unidades de Conservação precisam ser mantidas pelo Governo e deixadas intocadas, sendo absolutamente necessárias para que todo o ecossistema da Mata Atlântica não entre em colapso. Somente o poder público pode garantir que cada dono de terra em domínio de Mata Atlântica (que me inclua também) aceite a necessidade de preservar e não explorar uma parte da sua propriedade, florestada na sua integridade ou não.

Nós, do Parque das Aves, decidimos focar em espécies da Mata Atlântica. Nossa contribuição está em manter um centro de conservação integrado de aves desse bioma e também ser uma atração turística no meio da mata para milhares visitantes estreitarem sua relação com o meio ambiente.

Cerca de 45% das aves do Brasil ocorrem neste bioma. Embora seja um dos ecossistemas mais ricos em biodiversidade, é também o domínio que possui o maior número de espécies ameaçadas. Poucos sabem que as aves nativas e endêmicas da Mata Atlântica são amostras da riqueza do ecossistema mais ameaçado do mundo. Existem 30 espécies e subespécies de aves nativas na Mata Atlântica classificadas como criticamente ameaçadas de extinção, ou seja, à beira do desaparecimento. Várias dessas espécies têm menos de 50 indivíduos remanescentes no Planeta. Ironia de o destino ver que algumas aves podem sumir sem que muitos brasileiros que vivem nesta região nunca tenham sequer ouvido falar nelas.

120 espécies e subespécies de aves do bioma sofrem algum tipo de ameaça de extinção. Este número é alto, tão alto, que caracteriza uma das piores crises de extinção de aves no Planeta. Nós precisamos dessas espécies, pois cada uma depende de múltiplas outras para sobreviver, e isso, em última análise, inclui os seres humanos. Uma vez perdida é impossível recuperar. Fazer com que o povo brasileiro conheça mais sobre a Mata Atlântica é também promover a emancipação social dessas 140 milhões de pessoas que estão inseridas nesta região. Essa floresta faz parte da identidade do brasileiro e da memória afetiva herdada dos antepassados. Manter de pé esse bioma é fundamental para a sobrevivência de todos. É um destino mútuo.

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