Na Europa os jovens lutam, no Brasil são os mais velhos

REVISTA ECO 21 - Edição 270 - Maio 2019


Lúcia Chayb e René Capriles || Revista ECO21

Uma revolta global de estudantes está em andamento; jovens de todo o mundo exigem que os adultos enfrentem a crise climática. Eles precisam ter uma base sólida e fazer uma parceria com os mais velhos e, assim, encarar os desafios futuros. Hoje essa é uma opinião generalizada, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, quando se trata de entender o novo fenômeno da rebelião ambiental que movimenta as ruas das grandes cidades do mundo industrializado.

A escritora Barbara Cecil, especialista em analisar os limites da vida, disse: “jovens talentosos, motivados, brilhantes e dedicados entraram em colapso na pouco exigente atmosfera que lhes oferecemos: as expectativas dos pais e da escola ficaram para trás pelo imediatismo da crise climática”. Uma aluna e ativista climática nos EUA, Laurie Chan, escreveu: “Ser capaz de fazer uma pausa e realmente pensar é tão raro e difícil nesta vida acelerada. A ideia de que somos mais produtivos se estivermos constantemente em movimento não é verdade e esquecemos quem somos, quais são nossos valores, quem queremos ser e para onde queremos ir”.

Rupert Read, professor de Filosofia na Universidade de East Anglia analisou a questão desta forma: “Uma onda mundial de greves escolares em luta pela crise climática foi iniciada pela notável Greta Thunberg. Alguns críticos afirmam que esses alunos-ativistas estão simplesmente perdendo tempo, mas eu discordo”. Falando tanto como defensor da luta contra a crise do clima quanto como filósofo, ele acredita que as greves das escolas são moral e politicamente justificáveis. Ele disse: “A filosofia pode nos ajudar a abordar a questão para saber se essa ação é garantida pela Teoria da Desobediência Civil. Isso afirma que, numa sociedade democrática, a pessoa é justificada em desobedecer a Lei somente quando outras alternativas foram esgotadas e a injustiça que está sendo denunciada é grave. No caso das greves da escola pelo clima, sem dúvida, é uma injustiça; a ameaça, é grave. Não há nada mais sério para eles”.

É possível afirmar que as outras alternativas já foram esgotadas. As pessoas, organizadas em ONGs, grupos e outras entidades da sociedade civil, têm tentado por décadas acordar os governos para lutar contra a ameaça climática. Felizmente nem tudo está perdido; muito recentemente o Reino Unido e a Irlanda declararam oficialmente estado de urgência climática. Portugal deve ser o próximo. Quem defende a proposta é o Bloco de Esquerda no Parlamento português. “Não temos muito mais tempo. Não há Planeta B”, diz o projeto de resolução que recomenda ao governo que “aja em conformidade, assumindo o compromisso com a máxima proteção às pessoas, economias, espécies e ecossistemas, e com a restauração de condições de segurança e justiça climáticas” e antecipa a meta de neutralidade carbônica de 2050 para 2030. Já no Brasil, a realidade é outra. Os jovens ainda não foram sensibilizados pelas questões ambientais; as recentes passeatas estão ligadas mais ao fator econômico e curricular.

Os dois Ministros da Educação do Governo Bolsonaro ignoraram a importância do meio ambiente na formação profissional. Já os oito  ex-Ministros do Meio Ambiente que ocuparam o cargo desde 1993 até 2018 lançaram uma severa advertência sobre o desconstrução ambiental que se instalou no atual executivo. Na Europa e nos EUA os jovens protestam e processam os seus governos; no Brasil, por enquanto, os mais velhos são os que estão lutando para evitar a catástrofe. Os jovens estão mais preocupados com a incerteza de ter um trabalho no futuro imediato do que com a preservação da biodiversidade, mesmo que um milhão de espécies possam desaparecer nas próximas décadas.

Com os agrotóxicos dizimando os polinizadores e o desmatamento avançando como um tsunami, a previsão é que o Brasil vire um imenso Brumadinho. Em pouco tempo a lama contida pelas barragens invadirá as nossas cidades. A Europa sabe disso e o tema foi colocado pelos políticos verdes, em algumas campanhas políticas, tanto na França quanto na Alemanha.

A atual política ambiental brasileira é considerada como uma prioridade para o futuro Parlamento Europeu e, certamente, terá influência num eventual acordo com o Mercosul. Não seria surpreendente que os jovens europeus fossem os salvadores do Brasil da destruição ambiental.

Gaia Viverá!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui