Emergência climática: reforma ou revolução?

Jovens em greve pelo clima - Foto: GreenLeft

John Bellamy Foster || Professor da Universidade de Oregon, Estados Unidos.

Hoje estamos observando o que parece ser o início de uma revolução ecológica, um momento histórico diferente de qualquer outra experiência da nossa história recente. Tal como Naomi Klein sugere no seu novo livro “On Fire”, não só o planeta está ardendo, mas que está surgindo um movimento possivelmente revolucionário como resposta.

A grande quantidade de manifestações pela mudança climática durante o último ano se deve em certa medida à tomada de consciência que provocou o informe do “Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas” (IPCC). Esse documento de expertos revela que se as emissões de dióxido de carbono se mantiverem no nível atual, o mundo obrigatoriamente deverá diminuir em 45% as emissões antes de 2030 para chegar à zero em 2050.

Segundo esse informe uma redução drástica das emissões contaminantes é a única possibilidade que tem a humanidade para evitar a catástrofe ambiental que produzirá o aumento de 1.5°C da temperatura global do Planeta.

No último ano, um número incalculável de pessoas tem percebido de que para se distanciar do precipício é necessária uma mudança socioeconómica de acordo com a delicada crise do “Sistema Terra”. Em breve tempo o movimento estudantil da “greve climática”, as manifestações dos jovens, o Movimento Sunrise e o chamado “New Deal Verde” impulsionaram a luta ambiental nos países capitalistas mais avançados. Este combate está adoptando posições cada vez mais radicais. O câmbio de sistema – e não só a luta contra a mudança climática – está se convertendo paulatinamente num mantra nos movimentos ecológicos nos Estados Unidos.

Até agora o movimento foi majoritariamente reformista. Seu programa busca mudar os investimentos capitalistas numa direção “consciente com o clima”. De fato, a grande marcha de Nova York em 2014, organizada pelo Movimento pelo Clima, se dirigiu ao lugar onde se reuniam as grandes empresas que negociavam os termos dos acordos climáticos.

Agora, organizações como Extinción-Rebelión, Sunrise e a Aliança pela Justiça Climática são conhecidas pela sua ação direta. Estes novos movimentos são jovens, audazes, diversos e pode chegar a ser revolucionário no seu desenvolvimento. Na luta atual pelo Planeta, estas organizações começam a reconhecer que as relações de produção sociais e ecológicas devem se transformar radicalmente.

Avança, não sem dificuldades, a ideia que só uma transformação revolucionária pode tirar a humanidade da armadilha que o capitalismo lhes impôs. Até a jovem ativista Greta Thunberg declarou na Conferência sobre Mudança Climática da ONU, no dia 15 de Dezembro de 2018: “si as soluções dentro deste sistema são impossíveis de encontrar, então, talvez deveríamos mudar o sistema”.

Green New Deal: reforma ou revolução?

O surgimento de propostas de diferente teor fez com que a luta contra a mudança climática esteja se transformando numa força aparentemente imparável. O novo nos movimentos ambientais é que o chamado Green New Deal e outros programas propõem unir a justiça social com a luta ecológica.

O Green New Deal não foi originalmente una estratégia de transformação, mas, sim uma proposta reformista moderada. O termo surgiu em 2007, numa reunião entre Colin Hines, ex-chefe da Unidade de Economia Internacional do Greenpeace e Larry Elliott, editor de economia do jornal The Guardian.

De face aos crescentes problemas económicos e ambientais, Colin Hines sugeriu uma dose de despesa keynesiana, etiquetando-a como um Green New Deal, numa referência ao New Deal de Franklin Roosevelt. Então, Elliott, Hines e o empresário britânico Jeremy Leggett, lançaram o Grupo Green New Deal do Reino Unido.

A ideia se impôs rapidamente dentro dos círculos da política ambiental. O colunista do New York Times, Thomas Friedman, começou a promovê-lo nos EUA aproximadamente ao mesmo tempo em que formulava uma nova estratégia capitalista eco-modernista.

Barack Obama lançou uma ideia similar na sua campanha de 2008, porém, abandonou a terminologia depois das eleições de metade da presidência, em 2010. Em Setembro de 2009, o Programa de Meio Ambiente da ONU emitiu um informe intitulado “Global Green New Deal”, consistente num plano de crescimento sustentável. Esse mesmo mês, a Green European Foundation publicou uma estratégia capitalista verde e keynesiana, hoje conhecida como o New Deal Verde Europeu.

Todas estas propostas – enquadradas sob o manto de um Green New Deal eram criações políticas de cima para baixo que postulavam um keynesianismo verde com um planejamento tecnocrático empresarial sem preocupação pelo emprego e a erradicação da pobreza; todos são projetos de um capitalismo verde ligeiramente reformista.

Nesse sentido, as primeiras propostas Green New Deal tinham mais em comum com o primeiro New Deal de Franklin Roosevelt (de 1933 a 1935) que foi de caráter empresarial e muito pro-negócios, do que com o segundo New Deal (de 1935 a 1940) que foi consequência de uma rebelião generalizada da classe trabalhadora em meados da década de 1930. Em contraste, com as primeiras propostas empresariais, as últimas versões do Green New Deal têm sua inspiração na grande rebelião de baixo para cima do segundo New Deal de Roosevelt.

Uma força chave nesta metamorfose foi a Aliança para a Justiça Climática que surgiu em 2013 através da fusão de várias organizações pró-justiça ambiental. Esta aliança atualmente reúne 78 organizações que representam comunidades de baixo ingresso e de cor, compromissadas com a luta pela justiça ambiental e uma transição justa.

O conceito de uma Transição Justa teve a sua origem na década de 1980. Foi enunciado por Tony Mazzochi, um dirigente ecossocialista (do Sindicato de Trabalhadores do Petróleo, Químicos e Energia Atómica) que propôs por primeira vez construir um movimento de justiça laboral e ambiental.

Este movimento propôs a luta por um “Novo Acordo Verde dos Povos” que supere o abismo entre as lutas económicas e ecológicas mediante uma Transição Justa, além da proteção do clima.

Durante as campanhas presidenciais do Partido Verde de Jill Stein, em 2012 e 2016, o Green New Deal se transformou numa estratégia com base popular.

Então, o New Deal do Partido Verde tinha quatro pilares: 1) uma declaração que incluía direitos trabalhistas, emprego seguro, assistência médica, educação universitária gratuita; 2) uma transição que promovesse o investimento nas pequenas empresas, a pesquisa e os empregos verdes; 3) uma reforma financeira real, que incluía o alívio da dívida dos hipotecados e dos estudantes, a democratização da política monetária, a regulação dos derivados financeiros, o fim dos fundos financeiros e dos resgates governamentais aos bancos e, 4) uma democracia participativa que revogava a Lei Patriota de Bush e reduzia a despesa militar em 50 por cento.

Não há dúvida sobre a natureza radical (e anti-imperialista) do programa original do Partido Verde. A redução pela metade do orçamento militar era a chave deste programa para aumentar o investimento federal em outras áreas. No coração deste programa se encontrava um ataque à estrutura económica, financeira e militar do Império estadunidense, ao mesmo tempo em que suas propostas económicas proporcionavam 20 milhões de novos empregos verdes. Ironicamente, a transição verde era o componente mais fraco deste New Deal. Porém, a grande inovação que introduziu foi vincular a mudança ambiental a um câmbio social igualmente necessário.

Acordos Verdes que não são anti-imperialistas

Mas, foi somente em Novembro de 2009 que a ideia de um Green New Deal explodiu no Congresso dos EUA. Um projeto apresentado pela Deputada Alejandra Ocasio-Cortez, se converteu rapidamente num fator novo na política dos Estados Unidos. Ocasio-Cortez, que havia participado ativamente na manifestação dos indígenas contra o oleoduto de Dakota do Norte, se comprometeu na sua campanha (no Distrito 14 que representa Bronx e parte de Queens) com o Movimento ecologista Sunrise.

A “sentada” deste Movimento no escritório da Presidenta da Câmara, Nancy Pelosi, foi o ponto de partida ao Green New Deal que apresentaram Ocasio-Cortez e o Senador Ed Markey. Este projeto destaca as responsabilidades dos EUA associando a emergência climática mundial a “crises relacionadas” tais como: a redução da esperança de vida, o estancamento salarial, o descenso da mobilidade entre classes sociais, a desigualdade crescente, a divisão racial na riqueza e a diferencia salarial de género.

Este New Deal se propõe reduzir as emissões líquidas de gases de Efeito Estufa através duma “transição justa”, criando “milhões de empregos, promover a justiça e a equidade e terminar com a opressão aos povos indígenas, comunidades de cor, imigrantes e sectores desindustrializados”. Propõe uma “mobilização nacional de recursos por 10 anos”, com o objetivo de atingir o “100% de energia através de fontes limpas, renováveis e zero emissões”.

Juntamente com o fato de se opor à atividade dos “monopólios nacionais e internacionais” propõe criar uma agricultura familiar, uma infraestrutura veicular de emissão zero, uma rede de transporte público e trens de alta velocidade; o intercâmbio de tecnologia relacionada com o clima; associações de sindicatos e cooperativas; garantias trabalhistas, capacitação e educação superior para a população ativa; atenção médica universal e proteção das terras e águas públicas.

A diferença do New Deal do Partido Verde, o projeto de Ocasio-Cortez e Markey não se opõe diretamente ao capital financeiro ou à despesa militar dos EUA e, por tanto, à expansão do Império. Seu carácter se limita a estimular o desenvolvimento econômico com algumas medidas redistributivas para as comunidades marginalizadas com o combate contra a mudança climática mediante uma “transição justa”. Pese a suas limitações, pode-se dizer que tem um carácter “progressista”, porque se for realizado completamente se requereria a expropriação da indústria de combustíveis fósseis.

Bernie Sanders vai além. Propõe o 100% de energia renovável para a eletricidade e o transporte até 2030, além de uma descarbonização completa até 2050 (o que equivale a uma redução de 71% nas emissões de carbono dos EUA). O projeto de Sanders dedica 16.3 trilhões de dólares para o investimento público para terminar com os combustíveis fósseis, declara a emergência climática, proíbe a extração no alto mar, o fracking, o carvão e oferece una transição justa para os trabalhadores e as comunidades marginalizadas. Destina 200 bilhões de dólares para um Fundo Verde para que os países pobres reduzam 36% das suas emissões até 2030.

Para garantir uma transição justa para os trabalhadores, Sanders propõe “até 5 anos de garantia salarial, assistência ao emprego e recolocação, ajuda para a moradia de todos os deslocados, assistência médica, uma aposentadoria baseada no salario anterior e capacitação remunerada em carreiras universitárias de 4 anos”.

O custo da assistência médica estaria coberto por Medicare para todos. Se respeitariam os princípios de justiça ambiental para proteger as comunidades indígenas com US$ 1.12 bilhões para programas de aceso e extensão de terras tribais. O financiamento proviria de varias fontes: 1) “aumento dos impostos sobre os ingressos dos combustíveis fósseis contaminantes e dos investidores corporativos nesta área”, “aumento das sanções por contaminação por parte das grandes corporações”; 2) “eliminação dos subsídios à indústria de combustíveis fósseis”; 3) “geração de entradas pela energia produzida por autoridades regionais”; 4) “cortes ao orçamento militar dirigido a salvaguardar os fornecimentos mundiais de petróleo”; 5) “arrecadação de ingressos fiscais adicionais como resultado do aumento do emprego”; e 6) “novos impostos aos mais ricos”.

O New Deal de Sanders se diferencia do projeto de Ocasio-Cortez em: 1) estabelecer um cronograma para os cortes de emissões de gases de Efeito Estufa; 2) confrontar diretamente às grandes empresas do “capital fóssil”; 3) planejar uma transição justa para a classe trabalhadora e as comunidades marginalizadas; 4) especificar a criação de 20 milhões de novos empregos; 5) questionar o papel dos militares na salvaguarda da economia dos combustíveis fósseis; 6) destinar 16.3 trilhões de dólares do orçamento federal durante 10 anos para financiar este programa; e 7) aumentar os impostos às corporações contaminantes.

Apesar de tudo isso tão prometedor, o programa de Sanders ainda está muito longe da proposta do Partido Verde para reduzir pela metade o orçamento militar do Império.

Necessitamos transformações revolucionárias

A diferença das propostas dos Democratas a estratégia do “New Deal Verde dos Povos” constitui o que na teoria socialista se denomina reformas revolucionarias, isto é, reformas que se propõem uma transformação radical do poder econômico, político e ecológico, que assinalam para uma transição do capitalismo para o socialismo.

As mudanças propostas pelos ecossocialistas são uma ameaça real ao poder do capital. O desinvestimento completo em combustíveis fósseis, incluídas as reservas, constitui um tipo de abolicionismo que seu semelhante mais próximo foi a abolição da escravidão nos EUA em 1860.

Para deter a mudança climática é necessário pôr fim à indústria dos combustíveis fósseis (sua estrutura financeira, indústrias e infraestruturas relacionadas) o que implica enfrentamento com o poder e com os possuidores da riqueza. Para os ecossocialistas uma mudança verdadeira só será possível com uma profunda transformação social e ecológica.

Sobre isso, em 2016 o Banco Interamericano de Desenvolvimento revelou que as companhias de energia perderiam uns US$ 28 trilhões se se reduz o uso dos combustíveis fósseis. As corporações de energia, escreve Naomi Klein, “deveriam deixar baixo terra trilhões de dólares de suas reservas que hoje contam como ativos”.

Os capitalistas sabem desde o início que uma mudança realmente ecológica ameaça toda a atual ordem político-econômica. Uma vez que a população estiver mobilizada, todo o metabolismo da produção capitalista será questionado nas suas raízes, mas, para que isso ocorra se requererá uma luta de classes em progressão ascendente.

Esta claro que as propostas dos Democratas dos Estados Unidos estão muito longe de abordar a magnitude da tarefa que exige a atual emergência planetária. Porém, o desenvolvimento da luta pode chegar a desencadear uma luta revolucionária.

Ainda que alguns dos câmbios apresentados pelos democratas de esquerda vão contra a lógica do capital suas estratégias têm contradições insolúveis na sua base conceitual. Estas contradições estão relacionadas com a ênfase que fazem no crescimento econômico e na acumulação de capital.

Todas as propostas “reformistas” esquecem que para estabilizar o clima se devem impor drásticas restrições ao capitalismo e que issto significará mudanças na estrutura subjacente do atual sistema de produção. Nenhum Green New Deal considera o nível dos resíduos acumulados, pelo contrário, promovem irresponsavelmente um crescimento económico rápido e exponencial. Em outras palavras, um novo processo de acumulação do capital, apesar de que estas medidas de todas as formas agravará a emergência planetária. Como adverte Naomi Klein, um Green New Deal fracassará em proteger o Planeta e numa transição justa se toma o caminho do “keynesianismo climático”.

As estratégias de mitigação

A pesar de suas ambiguidades o movimento ambiental e os New Deal estão ameaçando destruir a linguagem política que liderou o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC). Em marcado contraste com um cuidadoso tratamento das causas e consequências da mudança climática o enfoque do IPCC recomenda políticas inspiradas na ideologia dos economistas neoclássicos que subordinam todas as mudanças aos processos de acumulação capitalista.

As pautas de mitigação do IPCC se circunscrevem basicamente a dois dispositivos; um: utilizar Novos Modelos Informáticos (IAM na sua sigla em inglês: enormes modelos informáticos que integram os mercados energéticos e os usos da terra junto a projeções dos gases de Efeito Estufa) e, dois: manter as vias comerciais habituais (SPP na sua sigla em inglês, que constam de 5 trajetórias diferentes dentro do atual statu quo, baseadas pelo geral em marcos tecnológicos, com um crescimento económico substancial e que em todos seus modelos deixa formalmente de lado as medidas políticas climáticas). Estes modelos deliberadamente conservadores descartam qualquer alternativa que questione o poder das grandes empresas e fazem avaliações pouco realistas do que se pode e deve fazer.

Em geral, os cenários de mitigação incorporados pelo IPCC: 1) supõem implicitamente a necessidade de perpetuar a hegemonia político-econômica atual; 2) propiciam uma mudança tecnocrática baseada em tecnologias que não existem ou que não são factíveis; 3) enfatizam os fatores tecnológicos do lado da oferta, em lugar de fatores do lado da demanda ou da diminuição do consumo para reduzir as emissões; 5) dependem das chamadas emissões negativas, isto é, capturar dióxido de carbono da atmosfera; 6) pressupõem que a mudança será feita pelas elites gerenciais; e, 7) postulam respostas demasiado lentas.

Na hora de propor soluções realistas o IPCC apela às consabidas fórmulas mágicas (como o comércio de carbono) e a uma tecnologia barroca inexistente e/ou irracional, Todos seus enfoques assinalam que a sociedade continue vivendo no modo produtivo capitalista. Os modelos de mitigação climática propostos por este organismo da ONU promove a plantação de bosques em grande escala, para depois queimá-los e assim produzir energia. Ao mesmo tempo propõe capturar o dióxido de carbono da atmosfera para armazená-lo numa espécie de sequestro geológico e oceânico.

No hipotético caso que se chegara a implementar estas ideias, se requereria uma quantidade de terra igual ao território de duas Índias e uma quantidade de água doce que se aproxima à que atualmente utiliza a agricultura mundial.

A promoção destes enfoques não é uma casualidade, são ideias estabelecidas pela ordem capitalista subjacente à qual servem. Em palavras do destacado climatólogo Kevin Anderson do Centro Tyndall para a Pesquisa da Mudança Climática do Reino Unido: “O problema é que cumprir com o compromisso de 1.5 a 2°C exige cortes de emissões para as nações ricas de mais dos 10% a cada ano, um dado que vai além das taxas consideradas possíveis com o sistema económico atual. Aparentemente, para remediar este atolamento, os modelos informáticos têm um papel importante, mas são perigosos por serem ineficazes. Detrás de uma aparência de objetividade, o uso destes modelos informáticos profissionalizou a análise da mitigação da mudança climática substituindo a política por um formalismo matemático não contextual. Dentro destes limites profissionais, os algoritmos sintetizam modelos climáticos simples, respaldados por uma interpretação económica [ortodoxa] do comportamento humano… De forma geral, se utilizam modelos baseados em axiomas de libre mercado. Os algoritmos integrados nestes modelos supõem mudanças marginais próximas ao equilíbrio económico e dependem em grande medida de pequenas variações na demanda resultante de câmbios marginais nos preços. O Acordo climático de Paris, pelo contrário, apresenta um desafio que está muito longe dos equilíbrios da atual economia de mercado, na realidade propõe uma mudança imediata e radical em todos os aspectos da sociedade”.

Na realidade, enfatiza Anderson, é que “o modelo proporcionado pelo IPCC são suposições dos economistas neoclássicos, baseados nos requisitos do sistema capitalista de ganância. Estas pautas não têm sentido no contexto da emergência climática atual e são perigosas, já que inibem a ação em defensa do clima com o uso de uma tecnologia inexistente”.

Todo o projeto de mitigação do IPCC, explica Anderson, foi um “completo fracasso”. Com efeito, suas propostas deram como resultado que: “As emissões anuais de CO2 estiveram aumentado aproximadamente 70% desde 1990. Como os efeitos das emissões são acumulativos e não lineares, o fracasso continuo das soluções conservadoras para mitigar as emissões nos leva à necessidade urgente de uma reforma revolucionária do sistema. Esta não é uma posição ideológica; surge diretamente de uma interpretação científica e matemática do Acordo climático de Paris”.

Reconhecendo a emergência climática, o IPCC no seu último informe se afasta um pouco de seus documentos anteriores e muda levemente o enfoque incluindo considerações do lado da demanda. Porém, o modelo de mitigação do IPCC, continua sendo extremadamente limitado porque incorpora, através das IAM e as SSP, um crescimento econômico rápido ao mesmo tempo em que excluem toda política de conteúdo social. Para alguns críticos – como Jason Hickel e Giorgos Kallis – um enfoque medianamente realista do lado da demanda deve obrigatoriamente limitar tanto os benefícios do capital como o crescimento econômico (os benefícios chegam a tão somente 0,1% da população mundial)

O caminho está aberto

O mais provável é que, numa primeira etapa, a auto-organização popular venha ter um carácter ecodemocrático, que se limitará à criação de uma alternativa energética unida a uma transição justa. Mas, este primeiro passo não conterá uma crítica sistemática ao modelo capitalista de produção ou consumo. Mas, se se consegue desmascarar o grosso véu da ideologia dominante o movimento pela mudança climática e a luta pela justiça social pode levar as pessoas a uma concepção revolucionária mais integral,

Os “New Deal Verdes” estão ligados ao “keynesianismo verde” porque com suas promessas de empregos ilimitados, de rápido crescimento e de maior consumo fazem impossível uma solução real à emergência ecológica planetária.

Um New Deal Verde medianamente crível necessita um plano concreto para garantir que os salários não se vertam de imediato em estilos de vida de alto consumo que terminarão por seguir aumentando as emissões de gases de Efeito Estufa (No mundo atual quem têm uma boa entrada consome massivamente produtos-lixo que rejeitam rapidamente).

O que necessitamos é uma transição que estabeleça limites estritos à extração e que simultaneamente crie novas oportunidades para melhorar a qualidade de vida e obter satisfação fora de um ciclo de consumo permanente.

O caminho para a liberdade ecológica e social requer abandonar um modo de produção baseado na exploração do trabalho humano e na expropriação da natureza e dos povos; um sistema que nos levou para crises econômicas e ecológicas cada vez mais graves e frequentes.

A sobre-acumulação de capital sob o regime do capital do monopólio financeiro converteu o desperdiço – em todos os níveis – numa parte integral do sistema. Foi criada uma sociedade na qual o que é racional para o capital é irracional para as pessoas e a terra. Este sistema fabrica uma quantidade incrível de produtos inúteis só para engrossar as contas das grandes corporações transnacionais, e, ao mesmo tempo, esbanja os recursos naturais em todo o mundo.

Pelo contrário, a produção humana e as riquezas da terra devem ser utilizadas para expandir a liberdade humana e satisfazer as necessidades individuais e coletivas garantindo um meio ambiente sustentável.

Na atual crise climática, os países imperialistas são os que produzem a maior parte das emissões de dióxido de carbono contaminante per capita. Além disso, estes países monopolizam a riqueza e a tecnologia necessária para reduzir drasticamente as emissões globais de carbono.

Pelo tanto, é essencial que as nações ricas assumam a maior carga para estabilizar o clima mundial, reduzindo suas emissões de dióxido de carbono a uma taxa de 10% ou mais ao ano.

Com um sistema imperialista que abre una fenda cada vez maior entre os países ricos e pobres o mais provável é que o ímpeto revolucionário surja no Sul Global, onde a crise planetária está gerando os efeitos mais cruéis.

Na periferia do mundo capitalista o legado da revolução é mais forte. Cuba y Venezuela, por exemplo, persistem no seu caminho apesar dos desapiedados ataques do Império.

O papel da China é crucial e contraditório. Sendo um dos países mais poluídos fez mais do que qualquer outra nação para desenvolver tecnologias de energias alternativas orientadas para a criação de “uma civilização ecológica”.

Surpreendentemente, para a mentalidade capitalista, China goza de autossuficiência alimentaria devido a que a terra é de propriedade social e a produção agrícola depende de pequenos produtores que têm uma alta responsabilidade coletiva e comunitária. O estado chinês, e mais ainda, o povo chinês, será chave para determinar o destino da Terra com a criação de uma civilização ecológica.

Mas, a revolução ecológica que está a caminho enfrentará a hostilidade do sistema. Nestas condições, a resposta da classe capitalista (resguardada pela sua retaguarda de extrema direita) será regressiva, destrutiva e violenta.

Um exemplo é a Administração Donald Trump. Ele tentou impedir a luta contra a mudança climática se retirando do Acordo de Paris e acelerando a extração de combustíveis fósseis. Nessas circunstâncias somente una autêntica luta revolucionária, e não reformista, poderá deter a catástrofe que nos ameaça.

Uma nova era de mudanças radicais

É comum na literatura da ideologia liberal reinante, supor que a sociedade está organizada em torno a ações individuais de seus integrantes. Os pensadores críticos apresentam uma opinião oposta sustentando que os indivíduos são produto da estrutura social. Uma terceira visão considera que os indivíduos influem na sociedade e a sociedade influi nos indivíduos num movimento de ida e volta. Em contraste com estas ideias, na sua maioria liberais (que deixam pouco espaço para uma verdadeira transformação social) a teoria marxista estuda o que o filósofo Roy Bhaskar chama “o modo transformador da atividade social”

Para os marxistas os indivíduos nascem num momento histórico particular e se socializam numa sociedade determinada (modo de produção), que estabelece os parâmetros iniciais de sua existência. Porém, estas condições objetivas e relações produtivas subjacentes levam à sociedade a contradições e crises.

Inseridos em situações históricas que não são de sua eleição, os seres humanos, tendem espontaneamente a atuar através de movimentos sociais (que refletem sua identidade de classe e outras identidades individuais e coletivas) para transformar as estruturas dando lugar a momentos históricos revolucionários e de ruptura.

Nesse sentido, Karl Marx escreveu: “Os homes fazem sua própria história, mas não a fazem tal como querem; não o fazem dentro de circunstâncias escolhidas por eles mesmos, mas sob circunstâncias específicas e herdadas do passado”. As relaciones sociais existentes se convertem em cadeias para o desenvolvimento humano e num período de crise e de transformação se produz o derrocamento revolucionário do sistema de produção. Marx também chamou este processo de “metabolismo social da humanidade e da naturaliza”.

Nas atuais condições a contradição entre o capital e a natureza não tem precedente na história. Na Era do Antropoceno, a emergência ecológica planetária se superpõe a uma sobre-expropriação imperialista intensificada, criando uma crise econômica e ecológica mundial.

La sobre-acumulação do capital é o fator determinante da crise ecológica porque permanentemente impulsiona ao capital a buscar novas formas de estimular o consumo para manter os lucros. O resultado é uma espécie de “Armagedão Planetário”, que ameaça não só a estabilidade socioeconómica, mas a sobrevivência da civilização e da nossa espécie.

Para Naomi Klein, a explicação central é simples: “Marx escreveu sobre a “fenda irreparável” que produz o capitalismo com o natural. Um sistema econômico baseado em liberar os vorazes apetites do capital destruirá os sistemas naturais dos quais depende a vida humana”.

Isto é exatamente o que aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial, com a grande aceleração da atividade econômica e o consumo excessivo por parte dos países ricos que nos levou à conseguinte destruição ecológica.

A sociedade capitalista glorificou durante muito tempo o domínio sobre a natureza. William James, o filósofo do pragmatismo, em 1906 sustentou que “temos que recrutar um exército preparado para conquistar e dominar a natureza”.

Hoje, temos que reverter esta brutal ideia e criar uma nova concepção moral. Não necessitamos recrutar um exército para conquistar a Terra, mas uma auto-organização para salvar o Planeta, o único lugar do hábitat humano. Isto só pode ser feito através de uma luta intransigente pela sustentabilidade ecológica e por uma igualdade substantiva que recupere os bens comuns mundiais.

É como disse Thunberg ao se dirigir às Nações Unidas no dia 23 de Setembro de 2019: “É aqui e agora onde traçamos a linha. O mundo está despertando. E a mudança se aproxima, gostem ou não vocês”. Esta vez o mundo está em chamas.

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