EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA LAVRA DE UM EXPERIENTE MESTRE




Samyra Crespo | Ambientalista. Ex-Presidenta do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Genebaldo Freire Dias é  Bacharel, Mestre e Doutor em Ecologia pela UNB. Analista ambiental do Ibama, ativista há cinco decadas e um dos fundadores da Educação Ambiental do Brasil (EA).

Como se pode ver – e com mais de 20 livros publicados  – está  na estrada há  muito tempo.

Há um ditado popular que diz: “Sabe por que o Diabo é  sábio? É  porque é  velho”.

No caso do mestre Genebaldo se trata mais de experiência do que idade; se trata de uma vida reflexionada e de uma missão que vem cumprindo com louvor: fincar os pilares da Educação Ambiental no Brasil, influenciando professores, alunos, discípulos, algumas gerações de educadores.

Samyra Crespo

Segundo explica na orelha do seu mais recente livro – Percepção Ambiental – que recebi por apreciada cortesia, entre 2015 e 2019 ministrou  palestras e conferências para 25.000 pessoas.

Há quem não goste ou concorde com suas idéias, mas não se pode ignorar o lugar de honra que ocupa na história da Educação Ambiental no País.

Por falar nisso, EA – esta é  uma matéria  que anda em baixa, tendo talvez que se utilizar da resistência das “catacumbas” cristãs no período da perseguição romana para sobreviver.

Primeiro,  a matéria foi extinta do Ibama, no reinado ainda de Marina Silva. Foi reduzida a um baixo orçamento para depois desaparecer (no Governo Bolsonaro) no Ministério do Meio Ambiente.

Foi defenestrada do MEC onde fazia bonito com as Conferências Nacionais de Educação e Meio Ambiente (gestão  PT) em parceria com o MMA. Virou poeira.

A REBEA – Rede Brasileira de Educação Ambiental é  uma caixa de ressonância que resiste a duras penas, sem conexão com as instâncias de tomada de decisão seja na esfera federal, estadual ou municipal.

A UNESCO fez um apelo recente, aproveitando o chamado para a Conferência de Educação em Berlim, para que os países  membros da ONU institucionalizem a EA no Curriculum escolar. Note-se que por aqui a turma da EA sempre foi contra, com receio de engessar o conteúdo. Entretanto, a facilidade com que canetadas casuísticas vêm decretando o seu fim, creio que talvez seja uma boa idéia trabalhar por sua institucionalização.

Voltando ao livro do professor Genebaldo: não espere um tratado de metodologia ou um manual prático.  Tampouco se trata de um compêndio teórico.  É  um pouco de tudo isto e mais um bocado de reflexão da lavra do autor.

Despretensiosamente, com honestidade, a cada página o mestre vai desfiando suas referências filosóficas, políticas e da boa ciência ecológica.

Se eu tivesse que classificar a obra em uma das muitas correntes de pensamento da Educação Ambiental, diria que está  – sem medo de errar –  no campo da deep ecology, ou ecologia profunda como também é  denominada por aqui.

Como Boff e outros desse campo, defende a necessidade de exercitarmos três conexões a fim de mudar positivamente a nossa compreensão sobre o meio ambiente: conexão conosco mesmos, parte do ambiente que desejamos compreender; com a natureza que nos abriga e  nos sustenta, assim como a vida de todos os demais seres; com o “divino” que se expressa no micro e no macro, no infinitamente pequeno e no infinitamente grande (o Cosmo). A ciência entra como a ferramenta que nos ajuda a desvelar estas relações intrínsecas entre o todo e a parte, mas nunca dissecando completamente o mistério maior do milagre da vida e da existência do universo.

Nessa quase prosa poética – recheada de sabedoria – a palavra “percepção ” é  espancada, desconstruída, para depois ressurgir como pedra polida, e finalmente brilhar como diamante por meio de  inteligentes digressões.

Mais não direi para não estragar a surpresa dos leitores.

Ao chegar ao final, do trajeto nada linear da obra, há um apêndice sobre gatos.  Achei uma delícia, pois sou daquelas humanas completamente domesticadas pelos gatos que crio.

Para os céticos ou alérgicos, ou que preferem cães,  sugiro passar direto à  bibliografia.

*Espiando os créditos, vi que a edição é  independente, do autor portanto e deste ano, 2021, 376 pp.)

Para solicitar a obra há um endereço de e-mail: [email protected]

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