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Crise no ou do Holoceno

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Arthur Soffiati |

Um ano em três dias. Em 72 horas, o fogo queimou mais território que em 2021 todo. Ou a área queimada no ano passado foi pequena ou a área queimada em Galícia no verão de 2022 (que ainda não terminou) foi muito grande. Deve-se confiar mais nas médias que nos eventos climáticos extremos de forma pontual. Examinando as médias, nota-se que os picos de temperatura planetária têm subido. Seria um fenômeno natural como o pequeno aquecimento global da Idade Média, entre 950 e 1250? Certamente que não. O aquecimento medieval só podia ser natural, pois não havia nenhuma ação humana coletiva com capacidade de mudar o clima. No entanto, o aquecimento medieval favoreceu a eclosão e o desenvolvimento da economia de mercado, responsável por um desenvolvimento contra-natural. Se aquele pequeno aquecimento atingiu 40% do planeta e chegou ao fim no século XIII, o atual começou em torno de 1770 e se acelera ano a ano. O aquecimento natural da Idade Média durou cerca de 300 anos. O atual já tem 250 anos e tende a se acentuar. Hobbes escreveu que o homem é o lobo do homem. Ele colocou a humanidade fora de seu contexto. O homem ocidental, e não o homem genérico, é o lobo de outro homem. Hoje, a humanidade globalizada pelo ocidente é lobo do homem e da natureza. O contrato social deve ser refeito em moldes atuais e um contrato com a natureza deve ser firmado, como propôs Michel Serres. Assim como invenções criaram empregos, as mudanças climáticas tendem a criar outros, como bombeiros especializados em apagar fogo em florestas e lavouras e só dedicado a essa tarefa. Bombeiros que se preparam entre um fogo e outro. Será que vamos nos acostumar ao que vem se chamando o novo normal climático? 

Foto: Reuters

Mas os incêndios não estão confinados à Galícia, nacionalidade autônoma da Espanha em que se fala uma língua própria ao lado do espanhol. O fogo varre todo o sul da Europa. Espanha e Portugal são os países mais castigados, mas a Itália e a Grécia também estão assolados pelas elevadas temperaturas. O rio Pó, o maior que o estreito território italiano permite, apresenta um nível baixíssimo. Os especialistas informam que ele nunca chegou a uma estiagem igual. O rio Reno, o mais importante da Europa ocidental por vários países terem se constituído na sua bacia e por sua navegabilidade, também sofre com perda de vazão.

Minha limitada compreensão me leva à seguinte conclusão sobre a Europa. Ela não é um continente, mas uma grande península do continente euroasiático. Ela fica entre o círculo polar ártico e o deserto do Saara, separada pelo mar Mediterrâneo. Do norte, chegam massas frias. Do Saara, chegam massas quentes. Do ocidente, chegam as influências do oceano Atlântico, sobretudo o sistema de alta pressão conhecido como Anticiclone dos Açores. De baixo, em todos os continentes, os gases causadores do efeito-estufa e de mudanças climáticas, derivados da ação humana coletiva típica do sistema capitalista, atingem os mais distantes pontos da Terra. Elas potencializam os fenômenos climáticos naturais do Holoceno. Assim, como o derretimento progressivo das geleiras do Ártico liberam massas frias que se tornam cada vez mais fracas. As altas temperaturas do Saara estão dilatando o deserto para o sul, num processo conhecido como saelização. Para o norte, as massas quentes estão atingindo as penínsulas do sul da Europa com mais intensidade e avançando também para áreas mais setentrionais, como França, Inglaterra e Alemanha. Estaria o processo de saelização atravessando o Mediterrâneo e penetrando na Europa?

Mas não apenas. O oeste dos Estados Unidos e do Canadá também sofrem com as estiagens do inverno. Os incêndios no Arizona, Novo México, Colorado, Utah, Nevada e Califórnia se intensificam ano após ano. O mesmo acontece com o Canadá, mais próximo do Ártico, notadamente na Colúmbia Britânica. Na Ásia, o maior continente da Terra, as temperaturas estão se elevando progressivamente na Índia, na China e até na Sibéria. Na Austrália, situada no hemisfério sul, o deserto natural do centro da grande ilha se torna mais seco. O mesmo está acontecendo na América do Sul. Durante o inverno, as secas estão se tornando mais intensas e mais prolongadas. O semiárido está se tornando árido. O volume e o nível dos rios reduzem-se a cada ano, embora, no verão, as chuvas estejam se intensificando. No inverno, uma enorme área no interior do Brasil, envolvendo o Cerrado, o Pantanal Matogrossense e o Domínio Mata Atlântica apresenta temperaturas cada vez mais elevadas, secura do ar e do solo, incêndios e redução do volume dos rios.

O mundo está sendo saelizado pela ação humana. O Holoceno é uma fase nova ou uma extensão do Pleistoceno com temperaturas médias cálidas. Foram elas que estimularam a agricultura e o pastoreio; as cidades e o modo de produção capitalista; a expansão do ocidente e a industrialização; a globalização e a superexploração da natureza. A linha do clima no Holoceno mostra que houve alternância de climas quentes e frios, mas todos eles na média. A humanidade, agindo coletivamente dentro da economia de mercado, está produzindo uma nova elevação do clima, inviável à economia que a criou. Trata-se de uma das manifestações da crise, que vem sendo impropriamente chamada de Antropoceno, Capitaloceno, Plantatioceno, Eromoceno e Negroceno. Melhor considerá-la apenas uma crise. Ainda não sabemos se se trata de uma crise no ou do Holoceno.

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