Ecologia e ecologismo… Qual é qual?

Arte: Petey Ulatan


Paloma Nuche || Doutora em Ecologia e responsável da campanha de Costas do Greenpeace Espanha  Fernando Valladares || Doutor em Ciências Biológicas pela UCM

Arte: Jorge Mayet

Estamos num momento fulcral para o nosso Planeta e a sociedade é cada vez mais consciente disso. Já sabemos que a mudança climática se consolida como a principal preocupação da cidadania em escala global. Perante essa situação não devemos confundir duas disciplinas diferentes, mas complementares, as duas são essenciais para enfrentar os desafios ambientais com os que nos defrontamos hoje. Seus nomes são parecidos e, às vezes, se usam indistintamente: ecologia e ecologismo. Da mesma forma que estamos muito familiarizados com a política, mas muito pouco com a politicologia, conhecemos ou temos ouvido a muitos ecologistas, pero a muito poucos ecólogos o ecólogas. Vejamos o que é que, em que se parecem e em que se diferenciam para encaminhar bem a nossa preocupação global pela saúde do Planeta.

A ecologia é a ciência que estuda os ecossistemas, isto é, a combinação de espécies (incluindo o ser humano) e o meio ambiente no qual habitam, assim como as interações entre ele, enquanto que o ecologismo é o movimento sociopolítico que se preocupa com a proteção da natureza. A ecologia procura se descolar dessa etiqueta política que, com certa frequência, se lhe adjudica erroneamente. Os e as ecólogas levamos anos tratando de que a ciência à qual nos dedicamos, cujo objeto de estudo é a natureza, receba o mesmo reconhecimento social que outras como, por exemplo, as matemáticas, a física ou a medicina

A ecologia é a ciência da qual se alimenta o ecologismo quando trabalha para conseguir esse mundo ambiental e socialmente justo ao qual aspira. Um mundo no qual todas as pessoas tenham acesso ao ar e à água limpos e a sistemas de produção de alimentos que não esgotem os recursos naturais, que funcionem com energia limpa e renovável. Um mundo, em definitiva, no qual a vida se situe no centro, onde seu cuidado e promoção sejam o verdadeiro objetivo de todas as nossas atividades. Por isso, o ecologismo é uma opção política, integradora, que se nutre dos conhecimentos gerados pela sociologia, a antropologia, a ciência política, a filosofia, a economia e, também, a ecologia. Do mesmo modo, a ecologia é uma ciência integradora que combina conhecimentos de matemáticas, física, biologia, química e muitos âmbitos mais da ciência e a tecnologia.

O que aporta a ecologia ao ecologismo?

Arte: Steve Decke

A ecologia permite responder a preguntas sobre, por exemplo, o papel que desempenham os ecossistemas no bem-estar social, justificando assim a necessidade de conservá-los. Uma parte da ecologia explica e quantifica o valor (em termos monetários ou não) de um ecossistema bem conservado que realiza funções imprescindíveis e, pelo tanto, permite saber quanto perdemos com a sua degradação. Por exemplo, a vegetação bem conservada contribui a frear o avanço das secas, a diminuir as inundações e a proteger a perda do solo de face à erosão e é, além disso, um importante sumidouro do carbono atmosférico.

A ecologia também aspira a responder preguntas complexas que num contexto ecologista poderiam ajudar à conservação das espécies em perigo – quais são suas principais ameaças: a destruição do seu hábitat, a contaminação, a sobrepesca –  e a por freio à exorbitante perda da biodiversidade mundial, posto que permite identificar aquelas espécies chave de um ecossistema concreto das que dependem muitas outras. A ecologia também nos permite dar solução a questões relacionadas com a gestão do território, como por exemplo: que características correspondem a florestas com maior capacidade de adaptação aos incêndios florestais ou à mudança climática?

Por isso tudo, é imprescindível que a ecologia receba o reconhecimento que merece como ciência. Que o trabalho, as conclusões e as propostas ecologistas baseadas nesta disciplina sejam tão respeitadas quanto o são, por exemplo, as das empresas que baseiam seus projetos de inovação em tecnologia, economia ou matemáticas. É comum afirmar que o Século 21 é o século da biologia. Para muitos, na realidade será o século da ecologia. Seja ou não assim, é a ciência que mais pode iluminar os processos envolvidos na alteração do planeta provocada pelas nossas atividades e nos seus impactos no nosso bem-estar.

O que aporta o ecologismo à ecologia?

Vivemos num momento histórico. Jovens e adolescentes de toda Europa estão se mobilizando para tornar visível a urgência de atuar contra a mudança climática. Quem sabe se serão futuros ecólogos ou ecólogas? Os coletivos naturalistas, ambientalistas, ecologistas ou conservacionistas, isto é, a sociedade civil não (necessariamente) científica gera, através da sensibilização e a educação ambiental, um desejo de conhecer mais sobre as leis que reinam na natureza, um anseio por estudar esta ciência, a ecologia.

Frequentemente, a cidadania com consciência ecologista concentra uma grande quantidade de conhecimento especializado sobre o território e as espécies, são pessoas interessadas, expertas, e tem, por isso, muito que contribuir para a ciência da ecologia. Por exemplo, são mais propensas a participar das atividades de ciência cidadã que ultimamente proliferam na comunidade científica e que tanto valor agregado aportam à sociedade.

As organizações ecologistas são, frequentemente, muito experientes em comunicação social, uma tarefa que desde a comunidade científica frequentemente deixamos de lado em favor do âmbito académico. Comunicar à sociedade os conhecimentos gerados pela ecologia ou fazer chegar estes à classe política é basilar para a proteção da natureza que é, definitivamente, o nosso objeto último de estúdio.

É fundamental que se conheça, reconheça e fomente o trabalho destas duas esferas, a ecologia e o ecologismo, porque somente indo juntos podem conseguir aquilo pelo que tanto lutamos umas e outros: a sobrevivência do nosso Planeta.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui