DO VERDE HOSTIL À PAISAGEM APRECIADA, JARDIM BOTÂNICO DO RJ FAZ 213 ANOS

Entardecer no caminho de Pau-mulato no Jardim Botânico do RJ - Foto: Ana Huara



Samyra Crespo || Ambientalista, coordenou a série de pesquisas nacionais intitulada “O que o Brasileiro pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável” (1992-2012). Foi uma das coordenadoras do Documento Temático Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira, 2002. Pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins/RJ. Ex-Gestora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Foto: Marcus Nadruz

Com esse belo recanto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, representado na foto que acompanha essas notas, quero celebrar mais um aniversário dessa bicentenária instituição que presidi de 2013 a 2016.

Dia 13 de junho é a data que se comemora 213 anos deste sítio que atrai milhares de visitantes todos os anos e que está entre os 10 jardins mais bonitos do mundo.

No tempo em que lá estive, segundo pesquisa de O Globo, só perdia em popularidade para o Corcovado, símbolo e cartão postal da Cidade. É belo, querido e admirado.

Poderia escrever um livro sobre o Jardim. Administrá-lo, afinal, foi um dos maiores e melhores desafios da minha vida profissional. Vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, ali estão  – além da coleção de plantas e aleias aprazíveis,  uma escola de botânica e um instituto de pesquisa de alta sofisticação técnica. Instituto que entre outras atribuições mapeia toda a flora brasileira e elabora a lista das espécies botânicas ameaçadas de extinção. Assim, temos uma instituição múltipla, com missões públicas diversas: a pesquisa, o ensino, a educação ambiental e cultural, a conservação do patrimônio histórico, a promoção do lazer para o público que o visita.

Mas nesta data do seu aniversário, quando completa 213 anos de existência, quero abordar um outro aspecto do Jardim Botânico que tem uma história longa e interessante. Uma história que se inscreve na democratização dos espaços públicos em nosso País.

O fato é que desde sua criação – por D. João VI, na primeira década do século XIX – até nossos dias, o Jardim significou coisas muito diferentes, segundo o contexto histórico de cada época.

Foi primeiramente um sítio escolhido em uma fazenda particular, desapropriada, para experimentar a aclimatação de plantas com valor econômico.

Os portugueses traziam espécimes da Europa, Ásia, África  e Caribe e queriam saber se tais plantas prosperariam aqui. Assim, sua função científica e econômica está na origem de sua constituição: desde sempre foi um local de pesquisa.

Somente foi considerado um lugar aprazível para passeio, depois de 1850 e eram apenas os nobres que tinham permissão para fazê-lo. Próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas, considerada insalubre pelo seu vasto mangue, e aos pés da Mata da Tijuca, não ficava perto dos principais bairros da cidade que apenas começavam a abarcar as praias da orla e as fazendolas chiques de Botafogo.

Foi somente com a República, portanto na década de 80 do século XIX,  que o lugar foi aberto à  visitação pública, às famílias burguesas, claro.

E o que se ia buscar ali? Que tipo de fruição buscavam os locais, aos domingos e feriados, quando ali aportavam transportados por carroças e depois pelo bonde?

A beleza? Seguramente não era isso, pois a beleza cênica da cidade, portanto do seu entorno já era estonteante. Buscavam o verde? Ninguém apreciava o verde naquela época: a mata era cheia de bichos estranhos, muitos deles peçonhentos e parecia bem hostil.

A filósofa francesa Anne Cauquelin, em seu instigante livro  “A Invenção da Paisagem”, mostra como cada época gerou um modelo cultural (com uma linguagem e uma estética própria) com o qual se imagina e frui dos espaços abertos, sítios históricos e sobretudo das paisagens.

O “verde” que tanto apreciamos hoje, em tempos de proteção do que “resta” –  é  bem diferente do que se apreciava naquele tempo de transição de uma sociedade aristocrática para uma de estilo burguês europeu, crioulo, ou mulato.

O que se apreciava na época eram os “jardins ” concebidos à  semelhança dos europeus, espaços domesticados, com fontes e esculturas de inspiração clássica. Assim, não bastavam as plantas e as florações, mas eram precisos adornos e serviços como o fotógrafo ambulante, a venda dos picolés, as fontes de água e lugares para sentar.

A corrida ao Jardim Botânico foi de início curiosidade e busca de status. Como lugar antes vedado, só  frequentado por nobres e cientistas, era agora chique ir ao Jardim Botânico e lá  fazer picnics ou refrescar-se nos seus regatos. Percorrer suas aleias com plantas exóticas e nomes científicos era a menor das atrações.

Conta-se, como uma das muitas crônicas sociológicas saborosas do Jardim, que as belas palmeiras imperiais que sempre o enfeitaram, fazendo parte de sua alameda central, eram exclusivas dos jardins reais e da alta nobreza. Eram uma espécie de brasão: distintivas do status das famílias.  Passaram então a ser muito cobiçadas.

Os escravos que trabalhavam na manutenção do Jardim escondiam então sementes da dita palmeira no cabelo crespo e as vendiam no mercado clandestino. E assim começaram a aparecer no casario da cidade as imponentes palmeiras.

O próprio patrimônio histórico do Jardim, como os belos prédios coloniais e o seu sítio arqueológico (onde funcionou uma fábrica de pólvora de propriedade real), tudo isto só  passou a ter valor recentemente, quando os brasileiros deixaram de querer apagar o seu passado colonial-escravista para desejar entender suas origens, e o caldeirão cultural que as “cozinhou”.

Hoje, a pergunta ainda procede: o que vai buscar o visitante no Jardim Botânico do Rio de Janeiro? A resposta pode ser tão múltipla quanto os públicos que ali acorrem: uma bela foto, um selfie para o instagram,  um respiro num templo de beleza cênica, paz, sossego, contemplação, visitar as estufas e monumentos como se visita um museu a céu aberto…

Seja qual for a motivação, o Jardim ali está há mais de 200 anos. Ainda cercado em parte pela exuberante mata Atlântica do Parque da Tijuca

As roupas mudaram, o transporte se modificou, o duscurso científico também.

Árvores centenárias contemplam essas mudanças, esse ir e vir do tempo…

Poetas e escritores ali estiveram e o registraram, como por exemplo Clarice Lispector que mereceu até uma homenagem especial, pois tem frases suas incritas nos bancos convidativos ao descanso, em um dos seus corredores principais.

Eu tive o privilégio de ali plantar uma árvore em 2015: uma muda de mangueira. A aleia das mangueiras, uma das mais belas do Jardim, foi atacada por pragas e teve que ser refeita.

Se sobreviver, aquela mangueira ainda vai assistir muitas outras crônicas e eventos. Afinal o que podemos desejar de lugar tão bonito e denso, que não seja perdurar, durar outros séculos, adquirir mais e mais significados?

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