DIAS E MAIS DIAS PARA “CELEBRAR ” A TRISTE MEMÓRIA DO PRESENTE.




Samyra Crespo || Ambientalista, coordenou a série de pesquisas nacionais intitulada “O que o Brasileiro pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável” (1992-2012). Foi uma das coordenadoras do Documento Temático Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira, 2002. Pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins/RJ. Ex-Gestora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Hoje é o “dia do tigre”. Postei uma onça, tão ameaçada quanto o felino de outras plagas. Embora a onça ocorra em toda a América, aqui no Sul, e em nosso país ela enfrenta uma impiedosa luta pela sobrevivência. Desmate, caça, queimadas, tráfico são as duras rotinas que empurram nossos felinos para a barreira da extinção. E uma extinção é para sempre.

Mas se você não liga pra bicho, hoje também é  o Dia da Sobrecarga da Terra.

A Ong Global Footprint calculou nossa pegada ecológica coletiva e afirma que já gastamos mais recursos do que o Planeta pode sustentar. E não existe Planeta B. Existe sim um passeiozinho em Marte, marcado para breve –  com tickets de milhões de dólares. Para uns poucos que têm no bolso – ou em bitcoins –  o equivalente a PIBs como o do Haiti.

Mas se isso lhe parece ficção científica, ontem foi Dia do Agricultor. E o “cara” que foi eleito com um pouco mais da metade dos votos do País,  celebrou com a foto de um “cabra armado ” e um texto demonizando o MST. O pobre agricultor travestido de capanga.

Baixo, despudorado e daí.  Quem liga?

Ah, também “celebramos” na mesma semana a proteção mundial da natureza, se é  que você entende que a grama do ibirapuera são só uns tufos e que a Mata Atlântica  – esta sim um remanescente natural –  está sendo dizimada sem dó. O Pantanal queimado. A Amazônia correndo rio abaixo em forma de troncos e chapas de madeira. Os rios com mercúrio, levando a doença e a morte em suas águas.

Faz uns dias e foi também  o Dia dos Manguezais e explicou-se a sua função de “berçário ” das espécies marinhas. Mas todo mundo sabe que o Parque do Flamengo  é  aterro. Que boa parte do território do Rio de Janeiro foi conquistado na base do aterro dos mangues. É  assim: história, presente, futuro?

Se a Terra será derretida pelo Sol (em alguns bilhões de anos) se antes disso os polos vão se liquifazer, se os pingüins vão morrer de calor e nós? Bem tem as “roupas funcionais”, o ar condicionado, os aquecedores… tanta tecnologia para ir nos ajudando nessa saga insensata em direção ao pior dos mundos que… estamos criando.

Vamos chorar os tufões e as enchentes na tela da TV ou do celular, e aproveitar a vida enquanto seu lobo não vem. Enquanto não acontecer na nossa rua, não afetar ‘nossa familia’… a gente vai vivendo.

E para quem possui pensamento mágico, há  sempre um herói da família Marvel que poderá aparecer.

Com tanto descaso, negligência e dias para “celebrar” inutilmente ao que parece – lembrar plantas, animais e ecossistemas que vão desaparecer…

Não desaparecerão das projeções virtuais em circos do futuro. Serão hologramas, bichos em 3 D.

Parece um triste final de festa, este tempo em que vivemos.

Ando cansada dessa falta de poesia. 

A distopia avança a passos largos e alguns poucos de nós lutam, oram, aspiram um destino diferente. Dará  tempo, será ainda possível ganhar corações e mentes para um desfecho menos indigno?

Somos os utópicos.

Já já vão inventar um “Dia” para nós:

o Dia da Utopia. Aí saberemos que é  o fim.

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