Desertos de gelo ou de areia, neles não reinamos – apenas estamos – Por Samyra Crespo

Palmeira no Deserto do Saara - Foto: Milenium


Samyra Crespo | Ambientalista. Ex-Presidenta do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Quando tinha 8 ou 9 anos decidi que iria ao Ártico.  Meus pais assinavam Readers Digest e o Clube do Livro. Tinha Enciclopédia Barsa em casa e um manancial de informações que alimentavam minha imaginação infantil. Eu sabia que teria “rodinhas nos pés” e que viajar era mais do que um projeto, mas um modo de vida.

Por que Ártico? Li uma reportagem que falava da “noite” que durava seis meses e da “aurora boreal” – quando o Sol finalmente nasce no horizonte, após a longa ausência. Aquilo me pareceu tão mágico que jurei a mim mesma que um dia estaria ali, vivendo aquela emoção.

Não cumpri este desejo totalmente. Na hora da decisão, optei por conhecer a Antártica, onde estive por 10 dias, encantados, no mês de Janeiro de 2009.

Além de tudo o que se sabe do Polo Sul, fiquei muito tocada com o que se pode chamar de paisagem agreste ou pristina.

Samyra na Antártida – Foto: Arquivo

Quase nada da presença humana, e a natureza em todo o seu esplendor. 

Ao retornar da Antártica, tomei outra decisão: conhecer o deserto. A paisagem meio lunar, meio marciana de um continuum de areia.

O primeiro em que pisei foi o da Jordânia, e visitando seus Parques Nacionais pude ver pores dos sóis alucinantes, visitar Petra e fazer escaladas leves pelas montanhas suaves, conhecendo aldeias semi urbanizadas de beduínos.

O segundo, foi o Deserto do Sinai, no Egito. Neste tive uma experiência pessoal e existencial muito marcante.

O terceiro foi o do Marrocos, para onde os bérberes, população nativa, foi empurrada.

Deste último guardo alguma frustração, pois fiquei doente e não pude explorar suas montanhas, ravinas e dunas. Fiquei sonhando, no hotel com febre, com o Ryad em que ficaria hospedada, numa das cidades cenográficas onde foi filmada parte da série Games Of Thrones.

O que tanto me encantou no deserto? Ou nos desertos (se é que têm alguma coisa em comum)?

Na experiência mais extrema, que foi a do retiro no Sinai, em jejum e solidão, você está num ambiente onde não há lixo, placas de neon, barulhos tipo moto, ambulância ou bombeiros. Não há iluminação nem poluição atmosférica, a não ser ocasionais tempestades de areia.

No meu caso, o jejum e a limpeza do ambiente funcionaram como um verdadeiro SPA. Pude sentir a limpeza interior e exterior, pela primeira vez.

No início, quando se pisa num deserto, a estranheza é grande: aquela imensidão de areia, a ausência de montanhas e um horizonte “achatado” e igual amedronta. Tem uma monotonia de cores e formas que entendia de uma maneira que você não entende.

Nos sentimos pequenos e tudo parece hostil com o Sol cáustico e a secura. O deserto toma água de você – daí a proteção máxima ser ficar hidratado.

Como nossos olhos não estão treinados, tudo parece imóvel e o tempo flui vagaroso, com uma claridade que adentra a noite. Subitamente vem uma escuridão gelada.

Fiquei num acampamento beduíno e depois só, numa barraca tipo “Lobinho” – na qual eu entrava abaixada.

Nela, só tapete para dormir e cobertor duplo para enfrentar a noite, demasiado fria para caber neste conceito. Gela os ossos.

O Céu no deserto merece este C maiúsculo. Ele acontece, de repente, e você à noite se sente um grego admirando o “cobertor furado”. É mais do que deslumbrante, e experimenta-se um clímax que só a beleza extrema, ou um orgasmo nos provoca.

Depois de uns dias, vem a experiência do movimento: você nota mudanças, pequenas, insignificantes mas reais na paisagem, e então o deserto se move, com ele você também está em movimento, sua alma acompanha. O vento e o movimento da areia tornam o local uma clepsidra gigante.

Deserto do Saara, Marrocos – Foto: I Twins

Claro, não conto aqui as vivências mais íntimas, de ordem espiritual, que vivi nesses lugares.

Nem as experiências interessantes com as populações locais, com seus costumes e sua comida. 

São memórias que não caberiam todas aqui.

Mas, posso dizer que nos desertos você ouve Sherazade chorar na opressão de todas as mulheres que lá se encontram. 

Você vê caravanas ao longe e homens que pintam os olhos com hena (para diminuir o impacto da claridade) como os antigos egípcios.

O chá que se toma com água e açúcar misturados à hortelã fresco é exatamente isto: quente e fresco, ao mesmo tempo.

Não se resume ao exótico e nem ao que nós ocidentais pensamos sobre o que se passa ali. 

É mais. É se entregar e deixar que o deserto o/a modifique. Como uma das circunstâncias da Terra, deste belo planeta em que vivemos.

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