Déficit ecológico

Marcus Eduardo de Oliveira || Economista e ativista ambiental

Marcus Eduardo de Oliveira – Foto: Arquivo Pessoal

No tempo atual, parece não haver nada mais urgente que a afirmação seguinte, ainda que alguns (ou muitos) possam dela discordar: nossa manifestada presença na Terra tem sido caracterizada, de um lado, por uma humanidade bem esclarecida (consciente e devotada à construção do bem comum), mas também, de outro, por uma humanidade obscurecida (displicente e alheia à realidade). Tão obscurecida e displicente que, por entender o meio ambiente como um imenso e inesgotável baú de recursos e energia, é capaz de ignorar que a biosfera (a “esfera da vida”, nos dizeres de Carl Folke) não dá conta de suportar as crescentes e insaciáveis demandas humanas.

Se analisado friamente, tudo indica que, ao menos uma boa parte do nosso atual problema socioambiental (desastre ecológico), está justamente aí, nessa última e específica passagem. Isso tudo porque, em prol de atender ilimitadas demandas humanas, já chegamos num momento bastante perigoso da convivência humana em que as forças dominantes (grupos de poder) não hesitam em colocar o “consumo” no lugar da “cidadania”. O fato crucial é que o estilo de vida (ocidentalizado e centrado no consumo ostensivo) que pauta a realidade do mundo moderno é altamente insustentável porque afeta a capacidade de carga da Terra e força o Planeta a uma crise ambiental cada vez mais hostil.

O mais curioso, no entanto, é que desde há muito já está claro que o dinamismo do mercado econômico, traduzido na impositiva política de crescimento, não levará a comunidade humana para um porto seguro; tampouco proporcionará um happy end para todos. Com algum estoicismo raro, é preciso abandonar a ideia corrente de que, se o PIB aumenta, o progresso acontece.

Seja dito às claras: o crescimento econômico, definido pelo aumento do PNB per capita, pode até nos tornar mais ricos – aliás, disso ninguém duvida – mas está longe, vale frisar, de ser a condição que nos tornará melhores. É crucial ter em conta que não é, pois, observando o avanço/dinamismo do mercado econômico que alcançaremos/desfrutaremos de algum conforto existencial. Sobre isso, me parece até mesmo desnecessário levantar e aprofundar a discussão do que é entendido por “dinamismo do mercado econômico”, salvo para destacar que, por essa via, os recursos do Planeta vão sendo devorados, ajudado, por exemplo, pelos múltiplos interesses em torno do extrativismo.

De tal modo, fala-se aqui de interesses que guiaram muitas das escolhas feitas em diferentes períodos da história humana; especificamente em relação aos interesses econômicos que comandam as conhecidas políticas extrativistas. Nesse sentido, o ponto de partida, se observado apenas pelo âmbito da América Latina, é reconhecer, tal como narrado pelo economista equatoriano Alberto Acosta, que os governos neoliberais e os governos progressistas, em diferentes momentos, colocaram suas expectativas de desenvolvimento em uma expansão acelerada do extrativismo.

O ponto nevrálgico, assim confirma Acosta, é que “em nenhum caso – dentre tantos, grifo meu – ocorreu a transformação da matriz produtiva. Tudo se mantém como sempre foi; e sequer se tenta afetar a lógica de acumulação do capital”. É isso o que leva o conhecido economista equatoriano a afirmar taxativamente que se trata, o mais das vezes, de “apenas de modernizar o capitalismo”. Continua ele: “é por isso que, embora tenham reduzido a pobreza, graças ao enorme rendimento das exportações de matérias-primas, os ricos enriqueceram ainda mais”.(1)

Ora, o que mais vale anotar aqui, eliminando dúvidas, e retornando ao ponto inicial, é o fato de que pouco importa às já mencionadas forças dominantes quais são as contraindicações desse específico dinamismo econômico. Uma vez pautado pela incontrolável “necessidade” de aumentar a produção material (na verdade, uma obsessão macroeconômica), o interesse (único, eu diria) que se sobressai, custe o que custar, é o de fazer o PIB crescer, indicando com isso o nível de sucesso de nações e governos.

Isso permite dizer algo importante: enquanto aumenta-se, de um lado, o fanatismo no princípio do crescimento (um dos dogmas da modernidade), exacerbam-se os muitos contratempos (ecológico e ambiental, em destaque) do mundo social, de outro. Aliás, trata-se de algo que pode ser comprovado apenas observando o que se passou nos últimos 150 anos, à medida que o crescimento econômico avançava em diferentes períodos e as indústrias do mundo moderno seguiam poluindo o ar e modificando severamente o meio ambiente, desfigurando assim o semblante da natureza.

Óbvio dizer que isso configura, ao fim e ao cabo, uma situação na qual a categoria humana foi empurrada à convivência com um desconfortante desequilíbrio ecológico-ambiental, cujos “custos” (bastante elevados) todos estamos pagando. Exemplos não faltam. Basta atentar que: 1º) “(…) mais da metade do carbono dissipado na atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis – o jeito como a economia global funciona – foi emitido apenas nas últimas três décadas; 2º) apenas nos últimos quarenta anos, diz o World Wildlife Fund (WWF), mais da metade dos vertebrados do mundo morreu; e, 3º) nada menos que 200 milhões de refugiados do clima, até 2050, assim projeta as Nações Unidas, estarão vagando por aí.

Indo direto ao assunto: isso mostra a existência de uma severa crise que já está fora de controle, além de não ser fácil combatê-la. Até mesmo porque, convém esclarecer, essa crise traz consigo a certeza de que “é impossível pensar em recuperar o equilíbrio do sistema da Terra sem abandonar a lógica do capital, que tudo converte em mercadoria e faz da crise uma oportunidade para novos lucros”, ao modo assinalado por Pablo Solón, ativista ambiental boliviano.

O que mais se quer chamar a atenção aqui, sempre em tom de esclarecimento, é que essa crise tem suas raízes no modelo de economia que prega o expansionismo como “salvação” do mundo moderno, uma vez que coloca o avanço econômico como o responsável direto pela boa vida das populações.

E como tudo está estreitamente interligado e não mais se pode pensar os problemas ambientais (todos eles) como meras ocorrências isoladas, recolhamos a narrativa em circulação para dizer que se o crescimento das economias globais (umas mais outras menos) têm ajudado a desequilibrar ecologicamente o Planeta, apenas nos últimos 60 anos, como é muito fácil verificar, os humanos sobrecarregaram exaustivamente os mais importantes ecossistemas conhecidos, afetando as macroestruturas do Sistema Terra. O sistema de águas, principalmente quando percebido o nível de esgotamento dos oceanos – o maior dos ecossistemas existentes e, de longe, o grande “sistema de suporte à vida”, nos dizeres de Sylvia Earle (2) – talvez seja, nessa direção, o mais ilustrativo dos exemplos a ser citado.

Afora isso, é sabido que até 2048, caso não haja radical mudança de postura, os oceanos atingirão um ápice em que não mais será permitido a retirada de recursos alimentares, uma vez que a excessiva atividade de pesca não respeita o tempo de reposição dos cardumes. Com isso, e novamente em tom de acusação, se quer anunciar aqui a existência de um déficit ecológico que a humanidade vem provocando no mundo biofísico. Detalhe ardiloso: um déficit que ocorre a cada ano num período de tempo cada vez mais curto.

Para que não se confabule com a dúvida, isso exige um oportuno esclarecimento: calculado pela Global Footprint Network, considerando 4 fatores principais, quanto os ecossistemas são capazes de produzir; quantas pessoas existem no Planeta; quanto essas pessoas consomem; e, com que eficiência os produtos são feitos, foi observado que em 2019 o Planeta Terra entrou no “cheque especial” no dia 29 de Julho. Para ser objetivo, significa dizer que os 7,6 bilhões de habitantes do Planeta consumiram todos os recursos naturais que o Planeta consegue regenerar em um período de um ano em apenas 210 dias. Eis que a velocidade de consumo, nesse caso, é 74% maior do que a capacidade de a Terra se regenerar.

Entrementes, suponho ser desnecessário enfatizar que aí está um “drama” (tornando aceitável esse termo) que contribui para alterar o sistema de funcionamento da Terra, uma vez que, como é plausível imaginar, ao entrar nesse mencionado cheque especial a humanidade imediatamente contrai uma “dívida ecológica” (esgotamento ecossistêmico, escassez de água potável, perda de biodiversidade, erosão do sistema solo, acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera, acidificação dos oceanos, empobrecimento biológico etc.) que, em reforço ao que já foi dito, tem sido cada vez mais difícil de pagar.

Por fim, é certo afirmar que essa dívida/diferença ecológica atesta, de fato, o quão insustentável tem sido o estilo de vida (padrões de produção e consumo) moderno, dado que cria condição de manter boa parte da comunidade humana (principalmente as populações que não encontram mecanismo de defesa, face o estado de vulnerabilidade do qual padecem) bem mais próxima das dores de um mundo que visivelmente aumentam e mudam rápido demais, em decorrência da existência de um relacionamento marcadamente hostil entre os homens (atores sociais), a economia (eixo de articulação) e a natureza (matriz de tudo).

Notas:

(1) https://diplomatique.org.br/alberto-acosta-governos-progressistas-apostaram-na-expansao-do-extrativismo/

(2) S. Earle, A Terra é Azul. São Paulo: SESI, 2018

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