Como Enviado Especial para o Clima, John Kerry não será um estranho nas negociações internacionais sobre o clima

O Enviado Presidencial Especial para o Clima John Kerry fala depois de ser apresentado pelo presidente eleito Joe Biden - Foto: Mark Makela



Phil McKenna | Repórter do InsideClimate News

Duas semanas antes de ser eleito o Presidente Trump, em Novembro de 2016, o então Secretário de Estado, John Kerry, realizou uma reunião num quarto de hotel em Kigali, Ruanda, para ajudar a garantir um dos mais importantes e pouco conhecidos acordos climáticos internacionais.

Durwood Zaelke, Presidente do Instituto para Governança e Desenvolvimento Sustentável (Institute for Governance and Sustainable Development), lembrou a abordagem direta de Kerry e o domínio do processo.

Ele chamava a um Ministro e lhe dizia: “Você não está dando a resposta certa aqui, o que há de errado?” Zaelke disse, observando como os Ministros deixaram de se opor ao Acordo e começaram a falar em apoio ao Acordo imediatamente após se reunirem com Kerry.

“Ele usou todas as habilidades diplomáticas de um diplomata experiente, incluindo seus laços com Chefes de Governo”, disse Zaelke. “Se ele tivesse um Ministro relutante, como às vezes acontecia, ele poderia chamar o Primeiro-Ministro ou o Presidente e obter o apoio extra de que era necessário. Sem Kerry, não teríamos conseguido em Kigali, ele foi fundamental”.

O Acordo, conhecido como a Emenda Kigali ao Protocolo de Montreal, agora começou a reduzir o uso dos superpoluentes hidrofluorcarbonos (HFC), nos refrigerantes, que de outra forma, causariam até 0,5°C de aquecimento global adicional até 2050.

O anúncio do Presidente Eleito, Joe Biden, na terça-feira 24/11 de que Kerry – ex-Secretário de Estado, Senador e candidato à presidência – serviria no recém-criado cargo como enviado presidencial especial para o clima, ressaltou a importância que o Governo Biden dará às negociações internacionais para tratar das mudanças climáticas, conforme ilustrado pelo trabalho de Kerry em Kigali.

“Os Estados Unidos, com toda a nossa força industrial, são responsáveis por 13% das emissões globais”, disse Kerry em Wilmington, Delaware, durante uma aparição conjunta com Biden e outros membros recém-anunciados de sua equipe de segurança nacional. “Para acabar com esta crise, o mundo inteiro deve se unir. Você está certo em voltar a Paris no primeiro dia, e você está certo em reconhecer que só Paris não é suficiente”.

Kerry provavelmente tentará aproveitar o sucesso da Emenda Kigali tomando medidas rápidas para trabalhar com outros países para reduzir as emissões de outros setores da economia global, disse Zaelke.

Um lugar que ele pode procurar é a International Maritime Organization (Organização Marítima Internacional), uma agência das Nações Unidas cujos Estados-membros cooperam nas regulamentações que regem a indústria de navegação internacional. Em 2018, a IMO concordou em cortar as emissões de gases de Efeito Estufa dos navios em 50% até 2050, mas mais tarde a organização não aprovou quaisquer medidas específicas de redução de emissões.

Outra é a International Civil Aviation Organization (Organização da Aviação Civil Internacional), uma agência da ONU que atualmente trabalha para compensar o crescimento das emissões de carbono dos voos internacionais após 2020.

Uma terceira possibilidade seria expandir o escopo do Protocolo de Montreal, um acordo internacional desenvolvido na década de 1980 para eliminar gradualmente a produção de produtos químicos que destroem a Camada de Ozônio. Alguns especialistas em política climática dizem que agora o Acordo deve ser estendido para reduzir as emissões de outros gases de Efeito Estufa, como o óxido nitroso, um gás de Efeito Estufa produzido na fabricação de produtos químicos que é quase 300 vezes mais potente no aquecimento do Planeta do que o dióxido de carbono, e também causa o esgotamento de ozônio atmosférico.

Esses Acordos menos conhecidos e essas organizações da ONU têm a capacidade de exigir reduções obrigatórias de emissões, o que lhes dá mais força do que o mais conhecido acordo climático de Paris, que é voluntário. “Precisamos ter esses Acordos irmãos avançando para conectar e apoiar o Acordo de Paris”, disse Zaelke.

Outro lugar onde a forte liderança dos Estados Unidos poderia estimular uma maior ação internacional sobre as mudanças climáticas é a Climate and Clean Air Coalition, uma organização voluntária administrada pela ONU, fundada em 2012 com o apoio do Governo Obama.

A Coalizão se concentra na redução das emissões de “poluentes climáticos de curta duração”, incluindo metano, HFCs, carbono negro e ozônio no nível do solo, todos eles superpoluentes climáticos que permanecem na atmosfera por um período de tempo relativamente curto. A redução desses poluentes é vista amplamente como uma forma de começar a lidar rapidamente com o aquecimento global.

A Coalizão, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a Comissão Europeia, o Fundo de Defesa Ambiental e empresas líderes de petróleo e gás, anunciou um novo esforço para relatar e reduzir as emissões de metano do setor de petróleo e gás na segunda-feira 23/11.

“Kerry pode redobrar os esforços e fazê-lo funcionar duas vezes mais rápido, e também pode levá-lo ao mais alto nível do Governo”, disse Zaelke sobre a Coalizão.

No entanto, antes que os Estados Unidos possam tentar liderar qualquer acordo internacional sobre o clima, eles devem primeiro retornar à Emenda Kigali, que a nação abandonou depois que Kerry defendeu o acordo.

Mais de 100 países assinaram a emenda, que os EUA, China e Índia ainda não ratificaram. A ratificação dos EUA pode acontecer rapidamente. A legislação que determinaria a redução gradual dos HFCs, um pré-requisito para a ratificação da Emenda Kigali pelos Estados Unidos, agora está tramitando no Senado dos Estados Unidos. A legislação tem raro apoio bipartidário e é respaldada por um amplo grupo de organizações ambientalistas e interesses comerciais, incluindo o Natural Resources Defense Council (Conselho de Defesa de Recursos Naturais), a Câmara de Comércio dos EUA (U.S. Chamber of Commerce) e a National Association of Manufacturers (Associação Nacional de Fabricantes).

Esses grupos afirmam que essa medida reduziria as emissões de gases de Efeito Estufa e criaria empregos, estimulando o desenvolvimento de novos refrigerantes químicos mais ecológicos. Em uma carta de 18 de novembro aos líderes republicanos e democratas da Câmara e do Senado, esses grupos pediram a rápida aprovação do Projeto de Lei durante a atual sessão “pato manco” (expressão usada na política norte-americana que define o político que continua no cargo, mas por algum motivo não pode disputar a reeleição e perde a expectativa de poder) do Congresso.

“Há um apoio notável para isso entre as partes interessadas e um patrocínio bipartidário bastante notável no Senado”, disse David Doniger, diretor estratégico sênior do Natural Resources Defense Council’s Climate (Conselho de Defesa de Recursos Naturais e do Clima) e do Clean Energy Program (Programa de Energia Limpa). “Permaneço em algum lugar entre a esperança e o otimismo de que isso pode ter sucesso nesta sessão de pato manco”.

FONTE:

https://insideclimatenews.org/news/24112020/Kerry-Kigali-Amendment-Biden-special-envoy-climate?utm_source=InsideClimate+News&utm_campaign=1193b3d849-&utm_medium=email&utm_term=0_29c928ffb5-1193b3d849-327880537

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