Brasileiros… mas nem tanto. (O indígena no Brasil de Alencar a Krenak)

Foto: Getty Images



Samyra Crespo | Ambientalista. Ex-Presidenta do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

As pesquisas que conduzi, entre 1991 e 2012, no âmbito do meu estudo longitudinal de opinião “O que o Brasileiro pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável – revelam uma tendência duradoura que a maior parte da população brasileira tem de achar que os povos indígenas fazem parte do mundo natural, separado do mundo cultural –  dos humanos civilizados. É  como se eles fossem jaguatiricas humanizadas ou um bando de macacos que aprenderam a falar. Ou neandertais, que em vez de cavernas, habitam as florestas. Essa percepção, distorcida e inaceitável, vem sendo erodida com muito vagar. Embora tenhamos hoje no panorama nacional expressivas lideranças indígenas, em geral é  como se eles, os primeiros habitantes do território, pertencessem a um mundo exótico, visto como reminiscência do passado, povos de “cultura atrasada” que deveriam integrar-se à  civilização. Irrelevantes estatística e culturalmente falando.

Segundo censos do ISA, nós temos no Brasil cerca de 600 mil indígenas aldeados, e outros 100 mil  que transitam entre as fronteiras do Brasil e de outros países vizinhos, tanto na Amazônia quanto no extremo Sul do País.

Como ocorre com a desigualdade estrutural, herdada de nosso passado escravocrata, temos também um arraigado preconceito contra as populações originárias do Brasil.

Esta desvalorização da herança cultural indígena e do suposto “caldeirão de raças” – mito cantado e decantado pela intelligentsia (que tentou fundar/forjar  o que seria a nossa “identidade nacional”),  onde os índios são uma terça parte da mistura – se deve em parte às teses de que a miscigenação resulta em degradação e não num processo que contribui para uma diversidade positiva. 

A literatura chamada “indianista”, ou nativista, de José de Alencar (escritor, periodista e deputado do século XIX) foi a primeira e bem sucedida tentativa de  colocar na cena literária e no imaginário popular, e como protagonista, o indígena  – com o trio de livros Iracema, Ubirajara e o famoso Guarani. Este último, além de estrondoso sucesso literário, foi eternizado na fabulosa ópera de Carlos Gomes. De certa forma esta narrativa tentava dar conta do encontro – ou choque de culturas – entre os povos originários e os colonizadores. 

O segundo grande movimento na direção de recolocar os índios no mapa do Brasil saiu da literatura para a antropologia dos irmãos Villas Boas. Aos poucos, uma versão mais moderna dos “povos da floresta” foi sendo difundida  junto à opinião pública – reduzidos no entanto à uma identidade homogeneizada e distante como se todos fossem Yanomamis, ou coisa parecida. Mas sem dúvida fundou-se ali a ideia de que era necessário o respeito à cultura própria dos povos indígenas, e mais do que isso a de se garantir seu território, nascendo então o sistema de proteção aos índios que sobrevive até  nossos dias. Sua vulnerabilidade ganhou status legal e paramos de nos preocupar com eles.

A terceira grande narrativa nos foi oferecida pela mídia e pela visão dos ambientalistas a partir dos anos 80′, e a icônica série televisiva Xingu, do falecido jornalista Washington Novais, inaugurou um novo olhar sobre estes brasileiros, cujo modo de vida era basicamente desconhecido por nós. A mídia aproxima o que parecia distante e passamos a ouvir os índios, em sua voz própria, em nossa sala de jantar.

A quarta onda ou novo discurso surge depois da RIO 92, quando se instaura no País a luta pela demarcação das terras indígenas – emergindo a disputa conflituosa com grileiros, fazendeiros e madeireiros, que não cessou até hoje, muito ao contrário, se acirrou. Assim como a mídia nos anos 80′ exercera o papel fundamental de tornar a problemática indígena nacional, dos 90′ em diante ela se tornou global, com desdobramentos que ainda hoje têm o efeito de ampliar politicamente esta agenda, fazendo-a repercutir em foros internacionais.

Todas estas narrativas aparecem hoje mescladas e nenhuma delas dá conta, por inteiro, da problemática indígena brasileira em sua diversidade e complexidade.

O que nos parece irônico, e mesmo triste às vezes, é que o próprio movimento indigenista contemporâneo busca desconstruir o que chamam de mito romântico do “bom selvagem” ou do herói. Acha que o romantismo mais prejudicou do que favoreceu estes povos, impedindo que víssemos suas verdadeiras necessidades ou respeitássemos sua singularidade. Colocam no lugar, usando largamente os meios de comunicação, as vozes de agrupamentos vitimados pelo desmatamento, pela destruição de seus hábitats e de suas culturas, tanto pela proximidade da urbanização compulsória como pela exploração predatória dos recursos naturais de suas reservas.

É uma desconstrução criativa: tenta-se erguer uma narrativa outra, a da sua contribuição positiva à nacionalidade, apresentando não só o seu direito fundamental de existir, mas o legado dos saberes tradicionais e da conservação do meio ambiente.

Em qualquer dessas vertentes a política do atual governo federal – que tutela as nações indígenas – não  cumpre qualquer papel positivo.

Denunciado dentro e fora do País por negligência criminosa, ainda não deu mostras de que fará algo significativo ou eficaz para impedir três principais flagelos: invasão das terras indígenas seguida de mineração ilegal bem como predação dos recursos, e abandono das populações à sua própria sorte, em plena pandemia, ou no caso, das queimadas.

Nesta nova narrativa, destaca-se a voz de Aílton Krenak com o seu icônico livro “Ideias para adiar o fim do mundo” (Companhia das Letras, 2019).

O sucesso editorial do livro e midiático do seu autor, indica alguma mudança substantiva na qualificação dos indígenas como players que importam nas mudanças de rumo do nosso País?

A conferir. 

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