Brasil perde investimentos do maior fundo soberano do mundo

Bombeiros fazendo buscas com auxílio de um cachorro - Foto: Ricardo Stuckert


Deivison Pedroza || CEO da Verde Ghaia

Deivison Pedroza – Foto: IPTC

Quando grandes empresas negligenciam o meio ambiente, colocando o lucro na frente do respeito à natureza e às pessoas, a conta a ser paga no futuro pode ser gigantesca. O caso da mineradora Vale e da estatal de energia Eletrobrás ilustram bem minha opinião. A Noruega, por meio do Banco Central, vetou no início de Maio os investimentos nas duas companhias, as excluindo do maior fundo soberano do mundo, responsável por administrar uma reserva de mais de US$ 1 trilhão a partir de lucros gerados pelo petróleo. Somente no Brasil são quase US$ 10 bilhões aplicados pelo fundo.

Isso significa que a Vale e a Eletrobrás não poderão mais receber investimentos em ações. No total, além destas duas gigantes brasileiras, mais cinco empresas ao redor do mundo foram excluídas desse fundo. São as canadenses, Canadian Natural Resources, Cenovus Energy, Imperial Oil, Suncor Energy, e a egípcia, ElSewedy Electric. De acordo com o relatório do banco, as companhias foram excluídas pelo critério de poluentes, que avaliou emissões de gases e carbono “em níveis inaceitáveis”.

Para as empresas brasileiras, os motivos pelas exclusões foram as violações de direitos humanos e danos ambientais originados por um megaempreendimento na região amazônica e por tragédias em áreas de extração de minério. No caso da Vale, segundo o Conselho de Ética do banco norueguês, as tragédias de Brumadinho e de Mariana demonstraram graves danos socioambientais, além de contabilizar quase 300 mortos. Soma-se a isso todas as outras barragens ainda mantidas por todo o Brasil e que não trazem segurança se causarão mais prejuízos – apesar das divulgações, por parte da empresa, atestando não existir mais riscos de acontecer algo semelhante. 

No Relatório de Sustentabilidade 2019 da Vale, por exemplo, são apresentadas ações e aprendizados da companhia pós-Brumadinho. Englobando as mudanças na gestão dos processos da empresa e os desempenhos econômico, ambiental e social da organização. Segundo o Relatório, o investimento feito nas questões socioambientais está na ordem de R$ 3,6 bilhões pagos em acordos individuais, compensações trabalhistas e ajudas emergenciais. Outros R$ 2,6 bilhões destinados para descaracterização de barragens e R$ 200 milhões em aportes financeiros para apoiar as cidades onde as operações foram paralisadas, sendo que mais R$ 80 milhões foram direcionados a Brumadinho, entre outros investimentos. 

No meu ponto de vista, apesar destes números, fica difícil acreditar na Vale depois de tudo o que aconteceu em menos de quatro anos. E pelo jeito não sou só eu, já que o fundo norueguês também resolveu retirá-la do maior fundo soberano do mundo. As ações desenvolvidas pela companhia, sem dúvida, são necessárias como uma tentativa de ao menos amenizar os impactos sobre as populações e o meio ambiente. Entretanto, não são suficientes para que a Vale seja considerada uma empresa segura. 

Mais um argumento para corroborar. Mesmo sujando de lama o seu nome, a Vale continuou ganhando dinheiro. Olhe seu lucro. Antes da tragédia de Brumadinho, no quarto trimestre de 2018, ganhou R$ 14,48 bilhões. No primeiro trimestre de 2019, período do rompimento da barragem, a mineradora registrou prejuízo de R$ 6,4 bilhões, o que já era esperado. Contudo, um ano depois, no primeiro trimestre de 2020, a companhia registrou um lucro líquido de R$ 984 milhões. Vamos aguardar agora para saber como serão esses números após veto do fundo norueguês.

No caso da Eletrobrás pesou a construção do megaempreendimento da Usina Hidrelétrica Belo Monte, considerada a quarta maior hidrelétrica do mundo. Inaugurada em 2016, no Rio Xingu, no Pará, com um custo de aproximadamente R$ 40 bilhões. Em novembro de 2019, atingiu plena operação, se consolidando como a maior hidrelétrica 100% brasileira. Com uma potência correspondendo a 7% de toda a capacidade de geração brasileira, a usina é capaz de atender cerca de 60 milhões de pessoas ou cerca de 10% da demanda nacional. Apesar dos números impressionantes, ainda de acordo com o conselho do banco norueguês, o megaempreendimento violou direitos humanos resultando em danos irreparáveis aos povos indígenas que habitavam a região e causou inúmeros danos ambientais. 

Como se isso não fosse suficiente, o relatório do fundo identificou participação e interesse da Eletrobrás de integrar projetos denunciados por violações semelhantes. Todavia, o resultado por não considerar as populações tradicionais da região e nem o meio ambiente rendeu, apenas em 2019, um lucro de R$ 6 bilhões.

Ao analisar as ações da Norte Energia S.A., responsável pela construção e operação da Usina Hidrelétrica Belo Monte, até podemos pensar o contrário (em breve momento) do que foi identificado pelo relatório do Conselho de Ética norueguês. A companhia fala de seus “legados ambientais”, com informações sobre preservação de peixes, quelônios, qualidade da água, espécies nativas em áreas de proteção permanente e conservação da flora. Além de destacar seus “legados sociais”, envolvendo o combate à malária, investimentos em educação, transformação social e saneamento. E ainda reitera que nenhuma área indígena foi alagada, havendo diálogo permanente com esses povos. Será que tudo isso realmente é verdade?

É uma pena que o reconhecimento de que estas companhias violaram direitos humanos e causaram danos ambientais não veio do Brasil. Mas aconteceu e nos traz breve esperança de pensar em um futuro mais verde. E quando falo de um futuro mais verde, falo de um mundo mais equilibrado entre os pilares econômicos, sociais e ambientais. 

Para que esse futuro realmente aconteça, o compliance, ou estar de acordo com leis, normas e regramentos existentes, seria fundamental. Pensar em compliance pela sustentabilidade poderia nos garantir visualizar uma luz (verde) no fim do túnel. Isso porque se houvesse o cumprimento de todas as leis incidentes sobre as atividades desempenhadas pela Vale e pela Eletrobrás, com certeza não teria acontecido os danos socioambientais, nem as violações de direitos humanos e muito menos a morte de pessoas. 

O que espero é que estas duas companhias possam servir de exemplo para outras empresas brasileiras que ainda não acreditam na importância de considerar o meio ambiente e as pessoas em seus processos e atividades. Desenvolver ações depois que uma tragédia acontece não trará vidas perdidas de volta, nem irá recuperar o meio ambiente. Afirmar preocupação com a sustentabilidade e com os povos e comunidades tradicionais habitantes das regiões em que se atua também não garante que a sustentabilidade e o respeito sairão do papel.

De lindas palavras e intenções o mundo está cheio. Precisamos de mais ações. E que essa aplicada pelo Banco Central da Noruega possa ser o início de sanções mais severas para quem ainda não conseguiu entender que economia, meio ambiente e sociedade caminham juntas. Somente trilhando um caminho em comum nos garantirá um futuro verde, não pela cor do dinheiro, mas sim pela cor da esperança de um mundo melhor para todos nós. 

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