Bituca, a grande vilã



Elisa Homem de Mello || Jornalista. Correspondente da ECO21 em São Paulo

Desde 2018, quando a ONU estabeleceu um combate ferrenho aos plásticos nos oceanos, não há um cidadão no mundo que não tenha aprendido sobre o mal que um simples canudinho pode causar. Mas, agora um novo estudo afirma que a bituca de cigarro é a contaminante número um nos oceanos, e não o plástico.

Dados da instituição Ocean Conservancy, que patrocina limpeza de praias mundo afora, desde 1986, indicam que as bitucas representam um terço de tudo que é retirado dos oceanos. Ao longo de 32 anos, a instituição coletou mais de 60 milhões de bitucas nos mares, ou seja, um volume maior que invólucros plásticos, recipientes, tampas de garrafas, talheres e garrafas somados.

Segundo levantamento da publicação Tobacco Atlas, da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 5,5 trilhões de cigarros são produzidos a cada ano em todo o mundo e o Brasil é apontado como o maior mercado latino-americano do produto. A maioria dos cigarros são produzidos com filtros feitos de acetato de celulose, e elementos como arsênio, cromo, níquel e cádmio, que podem fazer com que uma bituca leve uma década ou mais para se decompor. Nesse período de decomposição as bitucas afetam a vida marinha, havendo indícios de que resíduos de cigarro foram detectados em cerca de 70% das aves marinhas e 30% das tartarugas marinhas. E muita gente ainda acha que as bitucas são biodegradáveis e desconhecem que as mesmas possuem mais de 7 mil toxinas pós-combustão.

É importante informar que resíduo marinho é todo e qualquer tipo de material sólido manufaturado e descartado nos mares por atividades humanas. Além do fato de que os filtros não proporcionam benefícios à saúde e servem apenas como ferramenta de marketing, conforme explica Thomas Novontny, professor de saúde pública da Universidade Estadual de San Diego (EUA). Para ele, qualquer movimento contra filtros exigirá a participação e união de órgãos ligados à saúde e ao meio ambiente.

Aproximadamente 20% da população mundial ainda é fumante, resultando em média 7,7 bitucas/dia, sendo que no mínimo 1/3 delas vão para o chão. De acordo com a ONG ambiental Greener Future, 4,5 trilhões de filtros são jogados todos os anos, e apenas um é suficiente para matar uma vida marinha ou contaminar os peixes que sobrevivem, o que pode afetar diretamente a saúde humana se eles acabarem em um prato.

Com os filtros de cigarro afetando uma porção tão grande da vida no planeta e com os ecossistemas costeiros atuando como reservatórios de uma extensa variedade de contaminantes e resíduos, gerando desafios para o desenvolvimento sustentável e gerenciamento ambiental, há um movimento crescente para banir as bitucas completamente, despertando cada vez mais a atenção de gestores e cientistas.

Segundo estudo realizado desde 2019 pelo professor da UNIFESP, Ítalo Braga, sobre a degradação das bitucas de cigarro em zonas costeiras, esses resíduos estão entre os itens mais frequentemente encontrados em campanhas de limpeza de áreas costeiras realizadas ao redor do mundo. Em Santos (SP), o cenário não é diferente, visto que, de acordo com este trabalho, 51% do microlixo encontrado nas praias é constituído por bitucas.

Embora os riscos à saúde humana associados ao tabagismo sejam bem conhecidos, pouco se sabe sobre os efeitos dos mais de 7 mil compostos que podem ser lixiviados a partir das bitucas para ecossistemas aquáticos. Uma coisa é certa, as substâncias químicas presentes nas bitucas de cigarros são ambientalmente tóxicas.

Para a idealizadora do movimento Mundo SEM Bitucas, Natalia Zafra Goettlicher, o tema tem que ir além da limpeza de praias e transitar entre as esferas das políticas públicas. Para ela, uma boa ideia seria colocar no próprio rótulo da embalagem de cigarro dados importantes sobre como as bitucas não são biodegradáveis.

E são várias as atividades para tratar do tema. Em Trancoso (BA), por exemplo, a Pousada Estrela D’Água, retoma há 3 verões seguidos uma campanha que tem por objetivo conscientizar as pessoas a não poluírem esse charmoso distrito da Costa do Descobrimento. Trata-se da ação ‘Preserva Trancoso’, que incentiva o público a não jogar pontas de cigarro na areia. Sob o mote “Troque um copo de bitucas por um copo de cerveja”, quem estiver no bar da pousada ganha um copo para depositar as bitucas até ficar cheio, o qual é trocado depois por um de cerveja. Além dessa troca, o hotel também dá cinzeiros portáteis de fibra de coco aos fumantes para que eles não joguem cinzas nem bitucas no chão. De acordo com a sócia-proprietária do hotel, Evelyn Gaviolli, esta ação estimula a preservação de um dos maiores atrativos de Trancoso, que são as praias. Ela lembra que ao fazer a coleta, esse gesto, aparentemente simples, impacta diretamente no meio ambiente.

Em outra ação, a bióloga e educadora ambiental do Instituto Inhotim (MG), Bárbara Sales, de 26 anos, vem desenvolvendo uma pesquisa para transformar as bitucas de cigarro em porta-copos. O pesquisador Dr. Abbas Mohajerani, da Universidade RMIT, na Austrália, encontrou uma solução para as bitucas de cigarro ao transformá-las em matéria-prima para a fabricação de tijolos. Segundo ele, esta pode ser a solução para compensar completamente a produção de resíduos do cigarro no mundo.

Em São Paulo, se por um lado a Lei Antifumo, de 2009, diminuiu o número de fumantes por todo o Estado, por outro, ela agravou ainda mais esse problema, já que não é permitido fumar em ambientes fechados – e muitos estabelecimentos não disponibilizam cinzeiros ou lixeiras apropriadas para a coleta das bitucas. No Paraná, entretanto, já foram criadas leis para multar quem for pego jogando bitucas no chão e para instalar coletores de bitucas em pontos estratégicos.

A ideia de se livrar da parte inútil deste produto está finalmente ganhando força no mundo, seria importante que o chamado ganhasse, além do apelo popular, a atenção governamental e institucional. Até lá, os fumantes terão que aprender a se desfazer dos filtros para o bem do Planeta e para sua própria saúde. Se a natureza consegue se adaptar às coisas que estamos fazendo em nosso Planeta, certamente os homens também podem.

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