ANTAS CONTAMINADAS: Pesquisa conclusiva comprova que animais estão sendo impactados por agrotóxicos no Cerrado de MS




Cientistas da INCAB-IPÊ, que estudam a anta brasileira, alertam que há alta quantidade de pesticidas presentes nesses animais que correm risco de extinção. Pesquisadores pedem investigações mais aprofundadas sobre o tema

A cada ano, o Brasil bate o seu próprio recorde na liberação e no uso de agrotóxicos em suas produções agrícolas, inclusive de alguns que já foram banidos em países da União Europeia, por exemplo, por causarem danos a vidas humanas. Os prejuízos do uso indiscriminado e sem fiscalização adequada de pesticidas também chegam à vida selvagem. Uma pesquisa conclusiva feita pela INCAB – Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira, do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, aponta que as antas do Cerrado do Mato Grosso do Sul estão sendo contaminadas por pesticidas diversos e perigosos. O Artigo Científico foi publicado na Revista Wildlife Research. https://www.publish.csiro.au/wr/WR19183

O estudo traz um relatório detalhado da detecção de pesticidas e metais pesados nas antas. Uma das principais conclusões foi a detecção da alta prevalência de aldicarbe (popularmente conhecido como ‘chumbinho’) no conteúdo estomacal dos animais analisados. Devido ao seu alto potencial toxicológico, o aldicarbe foi banido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para qualquer finalidade no Brasil desde novembro de 2012. Este composto tem sido citado como causa de envenenamento de animais silvestres em todo o mundo, mas continua sendo usado no País, já que a pesquisa foi realizada entre 2015 e 2017. De todas as antas avaliadas, 41% delas testaram positivo para este ou mais produtos químicos.

Algumas das concentrações de pesticidas relatadas excedem os limites de segurança ambiental, segundo o artigo. A coordenadora da INCAB e uma das autoras do artigo, Patrícia Medici, alerta para os riscos que isso significa. “Esse é um estudo de longo prazo e conseguimos apontar agora com ampla certeza quais os agrotóxicos que estão afetando a saúde das antas. Embora pouco se saiba sobre o impacto da exposição crônica a estas substâncias ao longo de meses ou anos, já sabemos que o índice de pesticidas encontrado nos tecidos, outros órgãos e sangue dos animais é muito superior ao limite permitido de ingestão.  Isso pode desencadear processos fisiológicos com implicações importantes para a saúde dos animais afetados, particularmente nas respostas endócrinas, neurológicas e reprodutivas”, afirma.

Solo, água e plantas contaminados

A detecção de agentes tóxicos em amostras confirma que as antas estão expostas a essas substâncias no ambiente que habitam, por contato direto com as plantas, solo e água contaminados. A análise estomacal demonstra exposição pela ingestão de plantas nativas contaminadas e de itens das culturas agrícolas eventualmente utilizados como recurso alimentar. A fonte do aldicarbe é desconhecida, mas a ausência de evidência visual de ingestão de aldicarbe sugere que a exposição não está ocorrendo por meio de iscas envenenadas (muitas vezes utilizadas), mas possivelmente após aplicação deste veneno em campos agrícolas por pulverização, a forma de aplicação de agrotóxicos mais utilizada no estado.

“Isso é assustador e prejudicial e não sabemos ainda os efeitos colaterais para esses bichos. É como se as antas se alimentassem de veneno um pouco a cada dia, alimentando uma bomba-relógio em seu próprio corpo. Essa falta de conhecimento sobre a saúde da anta é um grande obstáculo para um planejamento adequado ações de conservação”, alerta Patrícia.

Estudos da Universidade de São Paulo (USP) demonstraram que a cultura que mais utiliza a pulverização aérea como forma de aplicação de agrotóxicos é a de cana-de-açúcar. Na região avaliada pela INCAB, os plantios de cana-de-açúcar se espalham por um recorte de paisagem de aproximadamente 2.200 Km² nos municípios de Nova Alvorada do Sul e Nova Andradina. Da mesma forma, as substâncias mais aplicadas por meio da pulverização aérea são os inseticidas.

Além do aldicarbe, organofosforados – diazinon, malathion e mevinphos também foram encontrados nas patas dos animais. As substâncias podem tornar as antas mais vulneráveis a infecções e doenças, afetando adversamente sua saúde e sobrevivência.

O estudo enfatiza a preocupação dos cientistas com relação à sobrevivência da anta no bioma, em um médio prazo. Além de terem que enfrentar duras ameaças como perda de hábitat e atropelamentos nas rodovias que cortam as áreas florestais, em uma área extremamente impactada pela ação humana e pela agricultura, agora são os agrotóxicos os grandes inimigos da espécie.

“Já está claro que a agricultura em grande escala no Cerrado brasileiro está resultando em pesticidas e exposição a metais em concentrações que excedem a segurança ambiental e pode causar efeitos adversos à saúde das antas e, talvez, de outros animais. Precisamos olhar com mais seriedade para essa questão que afeta os animais silvestres e as vidas humanas. É inadmissível a utilização de agrotóxicos sem critérios e sem fiscalização”, conclui Patrícia.

SOBRE A INCAB

A anta (Tapirus terrestris) é o maior mamífero terrestre da América do Sul e sua presença é essencial para a formação e manutenção da biodiversidade dos habitats em que ela ocorre. Herbívoras, as antas se alimentam de grandes quantidades de frutos de diversas espécies vegetais e são excelentes dispersoras de sementes. A anta é conhecida como a Jardineira da Floresta. Infelizmente, esses animais enfrentam inúmeras ameaças, como perda e fragmentação de habitat, fogo, atropelamentos em rodovias, caça ilegal, contaminação por pesticidas e assim correm sério risco de extinção. Na luta para reverter essa situação, desde 1996, a equipe da INCAB – projeto do IPÊ, liderado pela conservacionista Patrícia Medici, tem atuado em diversas frentes de trabalho, como: pesquisa, educação ambiental, divulgação, capacitação de profissionais e o desenvolvimento e implantação de planos de conservação para a anta e seus habitats. A INCAB tem expandido cada vez mais suas ações de forma a atuar nos quatro biomas brasileiros onde a anta ainda ocorre: Mata Atlântica, Pantanal, Cerrado e, mais recentemente, na Amazônia.

O estudo da saúde da anta tem sido um componente de longo prazo da INCAB – Iniciativa de Conservação da Anta Brasileira. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO) forneceu as licenças anuais necessárias para coleta de amostras biológicas (SISBIO # 52324269). Todos os nossos protocolos de manipulação e amostragem de antas foram revisados e aprovado pelos Conselheiros Veterinários da Associação de Zoológicos e Aquários (AZA) Tapir Taxon Advisory Group (TAG) e Veterinary Comitê do IUCN SSC Tapir Specialist Group (TSG). A INCAB tem o apoio institucional do Grupo IUCN SSC Tapir Specialist, Associação de Zoos e Aquários Tapir Taxon Advisory Group, e Associação Europeia de Zoológicos e Aquários Tapir Taxon Advisory Group.

Ao longo dos anos, a INCAB foi financiada por várias agências nacionais e internacionais, incluindo mais de 50 instituições zoológicas, 20 ONGs e fundações, 11 empresas e também particulares. Os principais apoiadores do Programa no Cerrado são a Fondation Segre´, o Houston Zoo e Whitley Fund for Nature. Os estudos de saúde da anta no Cerrado foram principalmente financiados pela Chicago Zoological Society, Cleveland Zoo, Conservation, Food and Health Foundation, Idea Wild e Roger Williams Park Zoo. As análises toxicológicas são do Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX), Instituto de Biociências, Campus da Universidade Estadual Paulista (UNESP) Botucatu, São Paulo.

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