Anta brasileira é fundamental para salvar as florestas do País

Foto: Joao Marcos Rosa



Projeto de conservação da espécie, que completa 25 anos, alerta que a anta é crucial para a sobrevivência dos mais ameaçados biomas brasileiros, mas que se encontra
em constante perigo de extinção

Uma floresta sem antas é uma floresta que corre grande perigo de extinção. Isso não é nenhum exagero. De acordo com a Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB) que completa 25 anos agora em 2021, um ambiente de onde as antas tenham desaparecido encontra-se muito vulnerável e empobrecido em termos de biodiversidade. A maior razão disso é o fato de que a anta brasileira (Tapirus terrestris) é uma verdadeira jardineira das florestas. Percorre grandes extensões de habitat em suas áreas de uso e, por se alimentar de diversas espécies de frutos, acaba “plantando” e renovando a floresta por meio das sementes que passam por seu trato digestivo e são depositadas por suas fezes.

Foto: Joao Marcos Rosa

A INCAB é uma iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). As pesquisas sobre a anta começaram em 1996, no Parque Estadual Morro do Diabo, no Pontal do Paranapanema, São Paulo. Ali, foram estruturadas as bases de pesquisa sobre a anta na Mata Atlântica, onde a principal ameaça para a espécie é a perda e fragmentação de habitat. Em 2008, a INCAB expandiu suas ações para o Pantanal da Nhecolândia, no Mato Grosso do Sul, um local com menos ameaças atuantes e onde as antas encontram-se em um estado de conservação menos ameaçado. No Pantanal, a INCAB vem coletando desde então informações extremamente relevantes sobre a espécie, envolvendo ecologia, saúde e genética. Entretanto, em outra localidade do Mato Grosso do Sul, na região do bioma Cerrado, a situação é totalmente oposta e as antas lidam com muitas rodovias e colisões constantes, caça ilegal e um risco muito elevado de contaminação por agrotóxicos em função da expansão da agropecuária em larga escala. Assim, em 2015, a INCAB também ampliou seus esforços de pesquisa para essa porção do bioma.

“A anta é a jardineira das nossas florestas e exerce um papel crítico para a conservação das mesmas. Adicionalmente, é uma verdadeira heroína, lutando para sobreviver em áreas extremamente degradadas. A espécie ainda persiste nessas paisagens antropizadas, mas seu papel na renovação florestal e manutenção da biodiversidade vem sendo bastante comprometido”, explica Patrícia Medici, coordenadora da INCAB-IPÊ.

Os programas de pesquisa nos diferentes biomas são o instrumento inicial e de base para que a INCAB-IPÊ busque a efetiva conservação desta verdadeira heroína das florestas. Com dados e resultados bastante substanciais (e, muitas vezes, alarmantes), a Iniciativa busca influenciar o processo de tomada de decisões junto ao poder público para combater as ameaças atuantes e, claro, evitar a extinção da anta e de seus habitats remanescentes.

Um exemplo foi a abertura de inquéritos civis e ações civis públicas junto aos Ministérios Públicos Estadual e Federal solicitando a urgente tomada de medidas para o enfrentamento dos atropelamentos e mortes de antas (e seres humanos) nas estradas do Mato Grosso do Sul. Em março de 2020, a INCAB concluiu seis anos de monitoramento de atropelamentos de antas nas rodovias do estado. Desde 2013, 34 rodovias federais e as estaduais foram meticulosamente monitoradas, com o registro de mais de 600 carcaças de anta. No mesmo período, 77 pessoas ficaram feridas e 34 vieram a óbito por causa de colisões veiculares com antas nas rodovias estaduais e federais no MS.

Recentemente, a INCAB-IPÊ lançou um relatório bastante preocupante sobre os efeitos dos agrotóxicos utilizados na agropecuária no Cerrado na saúde das antas. Até mesmo anomalias físicas foram encontradas nos animais capturados e amostrados. Efeitos negativos dos agrotóxicos nos animais alertam também para a saúde humana.  O estudo foi também publicado em uma revista científica internacional.

“Nossa missão é garantir a sobrevivência da anta no Brasil sendo esta uma das formas mais efetivas de conservar os nossos biomas e as funções ecológicas das florestas, áreas úmidas, savanas e muitos outros ecossistemas utilizados por este animal. Conservando a anta, vamos também contribuir para a manutenção do clima, suprimentos para serviços ecossistêmicos, e o bem-estar humano. A vida da anta significa também a vida de uma série de outras espécies animais e vegetais que com ela compartilham o habitat”, coloca Patrícia.

Em 2021, a INCAB-IPÊ avançou também para o monitoramento das antas em ambiente urbano. Através do projeto Antas Urbanas, os pesquisadores vêm coletando informações sobre a ocorrência de antas nas áreas urbanas e periurbanas de Campo Grande, cidade circundada pelo bioma Cerrado. Em breve, antas serão capturadas e equipadas com colares de monitoramento por satélite para entender como funciona a ecologia da movimentação desses animais neste tipo de ambiente. Os animais capturados serão também amostrados para exames de saúde e genética.

Também em 2021, a INCAB-IPÊ chegou à Amazônia para estudar as antas ao longo do arco sul do desmatamento, em áreas com grande interferência humana. O trabalho foi estabelecido em diversas áreas nos estados de Mato Grosso e Pará. Os dados compilados por estes estudos na Amazônia vão adicionar ainda mais ao conhecimento sobre a espécie no Brasil.

Foto: Paul Raad


Longo prazo é essencial para a conservação

O maior banco de dados sobre a anta no mundo só pode existir dentro de um programa de longo prazo como a INCAB-IPÊ. É no longo prazo que as perguntas são respondidas com substância e robustez e as estratégias de conservação podem então ser desenvolvidas de forma sólida, realista e inclusiva. A Iniciativa vem operando nos últimos 25 anos graças a uma coalizão de parceiros institucionais e financeiros provenientes de diversas partes do mundo, em grande parte internacionais. O impacto da pesquisa aplicada de longo-prazo é tamanho que reflete na conquista de nove prêmios internacionais recebidos ao longo dos anos, incluindo o mais recente deles, o Whitley Gold Award (2020), considerado o Oscar Verde da Conservação.

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