A ONU lança a Década da Restauração para salvar o planeta

ECO21 - Edição 279 - Capa: Cróton ou Folha Imperial decorando o caminho do Morro do Leme, Rio de Janeiro Foto: Lúcia Chayb


Lúcia Chayb e René Capriles || ECO21

O relatório da Organização Meteorológica Mundial sobre as consequências das mudanças climáticas a ser lançado no mês próximo (Março) pelo Chefe da OMM, Petteri Taalas, revela como aumento da temperatura global, a subida do nível dos oceanos e o derretimento do gelo dos polos, terá graves efeitos no desenvolvimento socioeconômico, na saúde humana, na migração, na segurança alimentar e nos ecossistemas terrestres e marinhos. Este documento é complementar à resolução da Assembleia Geral da ONU de Março de 2019 quando foi declarada a Década de Restauração de Ecossistemas 2021–2030. Segundo a ONU, a Década está prevista para ser um apelo global à ação, reunindo apoio político, pesquisa científica e força financeira para ampliar massivamente a restauração de ecossistemas degradados. A estratégia geral para a Década, que é uma ação liderada pela FAO e pelo PNUMA, inclui visão, objetivos, papéis e responsabilidades das organizações envolvidas, monitoramento dos ambientes restaurados e meios de financiamento de ações em larga escala. Foi desenvolvida com o auxílio de várias partes interessadas entre Março de 2019 e Janeiro de 2020. Em contraponto, Tim Radford, editor do Climate News Network, informa que pesquisadores da Universidade do Arizona confirmaram a conexão climática usando outra abordagem: decidiram olhar diretamente para os números. Eles informam no Proceedings da Academia Nacional de Ciências dos EUA, que selecionaram dados de 538 espécies e 581 lugares ao redor do mundo: os cientistas escolheram esses números e locais porque tinham certeza de que espécies específicas de animais e plantas foram pesquisadas repetidamente em intervalos de menos de uma década. Eles também levaram em consideração as mudanças nas condições climáticas locais e isolaram 19 variáveis diferentes na análise climática para descobrir como o aquecimento global representaria diretamente a ameaça mais significativa. Eles também consideraram as opções disponíveis para as espécies escolhidas: poderiam, por exemplo, migrar facilmente ou tolerar períodos mais longos de calor extremo? Radford ratifica que os cálculos são claros: descobriram que 50% das espécies escolhidas foram extintas localmente com o aumento da temperatura. Todos os participantes que lançaram a Década concordaram que a iniciativa pode ser uma oportunidade única para restaurar e conservar os ecossistemas, contribuindo significativamente para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: acabar com a pobreza, conservar a biodiversidade, combater as mudanças climáticas e melhorar os meios de subsistência para as pessoas, independente de onde moram. O PNUMA afirma que houve consenso sobre a necessidade de mudança na mentalidade da sociedade para mobilizar recursos e restaurar os milhões de hectares de ecossistemas terrestres e marinhos degradados. Tais mudanças envolvem a adoção de um novo imperativo ético para restaurar e conservar ecossistemas saudáveis, bem como os inúmeros benefícios que derivam deles, para as gerações futuras. Se esse imperativo se tornasse uma regra social global, as pessoas responsáveis pelas tomadas de decisão nos governos e no setor privado não teriam escolha a não ser investir substancialmente na preservação dos ecossistemas. A perspectiva para a Década, informa o PNUMA, é um mundo onde – a saúde e o bem-estar de toda a vida na Terra, agora e no futuro – a relação entre seres humanos e natureza é restaurada, a área de ecossistemas saudáveis é aumentada e sua perda e degradação são interrompidas. Por trás dessa visão há dois objetivos: reforçar compromissos globais, regionais, nacionais e locais e ações para prevenir, interromper e reverter degradação dos ecossistemas, aprimorar e aplicar nosso entendimento sobre restauração ecossistêmica bem-sucedida nos sistemas educacionais e em todos os processos de tomadas de decisão dos setores público e privada. Por sua vez a especialista em biodiversidade, Nurit Bensusan, disse: “A COP 15 da Convenção sobre Biodiversidade discutirá na China, as metas para os próximos 10 anos, num cenário de crise do multilateralismo, seus instrumentos de acelerada perda de biodiversidade e de agravamento da crise climática. Ou seja, estamos imersos em contagens regressivas. A COP 15 é a esperança de que medidas mais efetivas sejam tomadas para deter a destruição da biodiversidade. Contamos perdas cotidianas: menos espécies, menos populações de animais, menos comunidades vegetais, menos ecossistemas e, mais do que tudo, cada vez menos possibilidades de futuro”. Por sua vez, John Wiens, um dos autores da pesquisa da Universidade do Arizona, que prevê extinções em massa até 2070, acha que há algo pode ser feito. Em 2015, em Paris, mais de 190 nações prometeram agir para conter o aquecimento global bem abaixo de 2°C. “Se aplicamos o Acordo de Paris, perderemos menos de 2 em cada 10 espécies de plantas e animais da Terra até 2070. Mas, se os humanos causarem maior aumento da temperatura a perda será  mais de um terço ou até metade de todas as espécies animais e vegetais, com base em nossos resultados”. Face a essas informações, não temos tempo a perder.

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