A Boiada e o Dia Mundial do Meio Ambiente

Revista ECO21 - Edição 281 - Capa: Exemplar de um Pau-Brasil do Horto Florestal do Jardim Botânico do Rio de Janeiro - Foto: Lucas Moraes

Lúcia Chayb e René Capriles || Revista ECO21

Há 48 anos, a Assembleia Geral das Nações Unidas mediante a resolução (XXVII) de 15 de Dezembro de 1972 criava o Dia Mundial do Meio Ambiente com a qual foi aberta a Conferência de Estocolmo, cujo tema central foi o “Ambiente Humano”. Desde então, o 5 de Junho se converteu numa plataforma global de alcance público que reúne governos, empresas e cidadãos em torno a um tema ambiental de caráter urgente. Este ano o país escolhido para centralizar as ações mundiais foi a Colômbia. A Colômbia é um país megadiverso, alberga 10% da diversidade biológica do Planeta. Segundo o Instituto Humbold, especializado em ecologia colombiana, por conta das atividades humanas como a ampliação da fronteira agrícola, mudanças de usos da terra e a mudança climática, dos 81 ecossistemas no país, quase  metade se encontra em alto risco, alguns em estado crítico. Para 2050, as regiões com maior perda ou degradação dos ecossistemas são os Andes, o Norte da Amazônia e o Sul da região do Orinoco. No Brasil, as celebrações do Dia Mundial do Meio Ambiente – ignorado pelo Ministério do Meio Ambiente – ficaram centralizadas em ONGs como a Fundação Mata Atlântica, a Coalizão Florestas, o Imaflora, o WWF-Brasil, o Greenpeace, o Observatório do Clima, entre outras. Todas elas fizeram encontros virtuais pela Internet aproveitando o isolamento social imposto pelas autoridades em razão da pandemia do Novo Coronavírus, a COVID-19. Mas, foi a Carta Aberta das Mídias Ambientais que sintetizou o que o Brasil sente em termos de destruição da biodiversidade dando, também, uma resposta ao apelo do Ministro Salles de “passar a boiada” por cima das Terras Indígenas e das Unidades de Conservação. Um parágrafo da Carta é bastante esclarecedor: “Depois de dois anos no poder está claro que não podendo extinguir o Ministério do Meio Ambiente, o Governo Bolsonaro quer destruir os organismos ambientais por dentro, com ataques deliberados aos técnicos e pesquisadores que são a base do conhecimento e da estrutura de comando e controle que conseguiu colocar o Brasil em uma posição de respeito”. Em seguida, finaliza com estas palavras: “O que podemos dizer, senhor Ministro, é que não há apagão no jornalismo ambiental brasileiro. Mídias e jornalistas que cobrem meio ambiente estão atentos para cobrir cada passo seu, cada papel assinado, cada ato espúrio que parte de seu gabinete, para informar a sociedade sobre o estelionato ambiental engendrado em seu gabinete para arrancar da sociedade, dos povos indígenas, das florestas, a vida em alguns dos mais ricos ecossistemas do Planeta Terra. Neste Dia Mundial do Meio Ambiente podemos afirmar que as Mídias Ambientais brasileiras não deixarão passar nenhum ato criminoso contra a terra, a gente e a biodiversidade de nosso país com nome de árvore, Brasil”. É por essas palavras finais que escolhemos um pau-brasil do Horto Florestal do Rio de Janeiro para ornar a capa desta edição. Para corroborar a assertiva das mídias reproduzimos os dados do MapBiomas: “99% de todo o desmatamento do Brasil em 2019 têm fortes indícios de ilegalidade, ou seja, em áreas protegidas com restrição à supressão da vegetação ou sem autorização. As taxas recentes indicam que o desmatamento baterá novo recorde da década em 2020”; são dados confirmados pelo sistema DETER do INPE. Triste Dia do Meio Ambiente no Brasil. E a Coalizão Brasil informa ainda: “A imagem do país e sua posição comercial nunca estiveram tão comprometidas. O trabalho coletivo que levou décadas para construir uma boa reputação tem sido desfeito de forma rápida. Este cenário vai além de uma urgência ambiental. O PIB e o crescimento futuro do Brasil estão intrinsecamente ligados à proteção da Amazônia”. Por isso as palavras de Aílton Krenak se revelam tão oportunas: “Esse modelo de sociedade se mostra insustentável e se quisermos adiar o fim necessitamos iluminar o início! Pra ir adiante é preciso retomar a memória da estrada. Sentir o nosso povo, nossa tradição, nossa identidade. Dar voz à nossa memória, reencontrar com o Ser que habita o nosso imaginário coletivo tão ofuscado pelos tempos de modernidade individualista, neoliberal, principalmente em um momento de avanço do obscurantismo e da negação dos saberes ancestrais e científicos. É preciso retornar para dentro de nós, cruzar o deserto de vazios, ampliar os horizontes da existência. Essa é a caminhada deve ser ultrapassada coletivamente”. Essa é a rota que devemos tomar para celebrar mais um Dia Mundial do Meio Ambiente. Nenhuma boiada abalará a nossa democracia que é forte como o pau-brasil.

GAIA VIVERÁ!

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