A AMAZÔNIA NÃO É SÓ DO E PARA O BRASIL

Floresta Amazônica - Foto: Wigold Schäffer - MMA




Samyra Crespo
 || Ambientalista, coordenou a série de pesquisas nacionais intitulada “O que o Brasileiro pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável” (1992-2012). Foi uma das coordenadoras do Documento Temático Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira, 2002. Pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins/RJ. Ex-Gestora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Em 05 de setembro celebra-se o “Dia da Amazônia “

Há uma fala atribuída à Chico Mendes, mártir ambientalista, em que ele diz que, primeiro achava que sua luta era pela preservação dos seringais e das comunidades que viviam na dura labuta da extração da borracha na Amazônia profunda. Era aquela uma batalha pela “sobrevivência”;depois, quando sua luta foi acolhida por outras lideranças, fora da Amazônia, notadamente nos anos 80′, no Rio de Janeiro com Alfredo Sirkis e Carlos Minc (Movimento Salve a Amazônia, com a adesão de artistas e celebridades), ele percebeu que a causa era mais ampla: a Amazônia era uma preocupação do Brasil.

Com a repercussão dessa luta fora do País – lembro que nos anos 90, todos os anos, se promovia a “Semana da Amazônia” em NYC e em outras cidades do mundo – a opinião pública mundial foi se consolidando: a Amazônia era importante globalmente. Sua função para o regime climático mundial se impôs e permanece.

Foi desta maneira que Chico Mendes, brutalmente assassinado por fazendeiros descontentes com sua atuação política, adquiriu a consciência clara de que além de ser um patrimônio do Brasil, a Amazônia era e é, um bem ambiental de toda a Humanidade.

Este líder seringueiro adquiu na luta – que custou a sua vida – a consciência mais completa que um cidadão pode desejar: cuidar de quem está perto, pois a fome tem pressa (já dizia outro líder, o nosso Betinho); se dar conta de que ao mesmo tempo sua coragem e disposição para lidar com a injustiça é da alçada de todos dos brasileiros; e por fim perceber que estamos numa comunidade de nações – num ambiente chamado Terra, onde estamos ligados a um destino comum.

Agir localmente, pensar globalmente é uma máxima do ambientalismo mundial que foi levada com radicalidade por esse jovem (sim, morreu jovem) que se converteu num ícone do ativismo em prol da conservação da natureza.

Assim como temos no Brasil diversos logradouros (ruas, praças, avenidas, parques) com o nome de Mandela ou Gandhi, em várias partes do mundo você encontra espaços verdes, bosques e praças com o nome de Chico Mendes.

Marina Silva, quando ministra do meio ambiente (no período do Governo Lula) o homenageou criando o Instituto Chico Mendes, que tem como missão cuidar das áreas protegidas no Brasil.Há poucos dias foi aniversário de criação do Instituto.

Passou desapercebido diante de furacões, Afeganistão e palpitações políticas de Brasília vomitados na TV e redes sociais, à exaustão.

Às vezes é preciso ter bússolas mentais para não nos perdermos num mar de demandas emocionais.

O instituto, atualmente sucateado, continua seriamente ameaçado. É projeto deste Governo fundi-lo com o Ibama ou decretar sua extinção.

Parte dessa motivação é ideológica. Querem banir o nome do Chico Mendes da história ambiental brasileira. É o mesmo movimento que se observa de enxovalhar a memória de Paulo Freire e negá-lo como patrono da educação do País.

Estas motivações torpes de destruir e denegrir é parte da estratégia de nos deixar sem heróis e sem indivíduos com vida e lutas edificantes.

Em terra arrasada e desencantada é mais fácil plantar mentiras e fazer florescer o conformismo doentio de um povo que não tem a quem admirar.

A Amazônia é sim, em primeiro lugar dos amazônidas, incluindo-se aí por irrevogável direito os índios – povos originários da região, ribeirinhos, assentados e donos legais de terras ali situadas.

Ela não é só floresta e habitat de bichos, mas reduto de grandes cidades como Belém, Manaus, Santarém.

Ela não é só do Brasil, é sul-americana também.Uma potência hídrica e biológica. A responsabilidade por sua manutenção é e deve ser compartilhada.Por ser um dos últimos remanescentes de floresta tropical do mundo, ela tem uma função ecológica importante para o Planeta.

Chico compreendeu todas estas implicações.

Fazer com que cada cidadão brasileiro também o compreenda – é nossa árdua e urgente tarefa.

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