13 milhões de árvores derrubadas ilegalmente no Xingu

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Uma fiscalização de combate à exploração ilegal de madeira está sendo executada pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), em conjunto com o Ideflor-Bio, nos municípios de Tucuruí, Baião e Portel, no sudeste do Pará, onde foram apreendidos cerca de 3 mil m³ de madeira em tora de várias espécies. FOTO: ASCOM SEMAS DATA: 29.11.2018


Isabel Harari | Jornalista do ISA 4 de Junho de 2019

Quem analisa imagens de satélite do Mato Grosso enxerga grandes manchas geométricas de cor marrom que se multiplicam mês a mês. Apenas entre Março e Abril 13.865 hectares de novas manchas, que correspondem ao desmatamento, surgiram na área da Bacia do Xingu que incide sobre o Estado. O que não se pode ver via satélite é que 78% desse total, quase 11 mil hectares, foram florestas derrubadas ilegalmente.

O equivalente a 13 milhões de árvores foram desmatadas sem autorização na porção mato-grossense da bacia, segundo monitoramento feito pela Rede Xingu+, o SIRAD X.

“O alto percentual de desmatamento ilícito expressa a ineficácia dos instrumentos existentes de combate ao crime ambiental. Esse quadro pode piorar com a chegada da estação da seca, quando os números de desmatamento tendem a crescer”, alerta Ricardo Abad, especialista em sensoriamento remoto do Instituto Socioambiental (ISA).

Em alguns municípios do Mato Grosso, como Canarana, Cláudia, Gaúcha do Norte, Peixoto de Azevedo e Querência, a taxa de desmatamento ilegal atingiu 100% no período analisado. Feliz Natal, ao Leste da Bacia, atingiu a marca de 68% de ilegalidade, mas foi o que mais desmatou em área: 1.572 hectares.

“A percepção do risco que é muito baixa”, explica Ana Valdiones, analista do Instituto Centro de Vida (ICV), quando questionada sobre as razões do desmatamento ilegal. De acordo com a organização, em 2018,  85% do desmatamento na parte amazônica do estado ocorreu sem autorização. A morosidade no processo de regularização ambiental e a falta de políticas públicas estaduais, segundo Valdiones, também explicam as altas taxas. “No geral a ilegalidade continua presente. Sempre foi e continua presente”, afirmou.

A Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso (SEMA-MT) disponibiliza dados ainda mais assustadores. Entre 2015 e 2016, 98% das áreas desmatadas no Estado não tinham autorização, já entre 2016 e 2017 a taxa atingiu 94%. A assessoria da SEMA-MT não respondeu aos pedidos de entrevista até o fechamento desta reportagem.

Mais transparência e fiscalização

O IBAMA, responsável pelas ações de combate ao desmatamento, reduziu o número de autuações em 35% se comparado com o período de Janeiro a Maio do ano passado. Em Março houve uma expansão de 461% no desmatamento detectado em Unidades de Conservação na Bacia do Xingu em relação ao mês anterior. Só na Floresta Nacional (FLONA) de Altamira, de jurisdição federal, houve um aumento de 550% em Abril, com 242 hectares desmatados associados a garimpo ilegal. “É preocupante que, em um momento em que o desmatamento ilegal avança, a atuação do instituto fiscalizador seja reduzida. A fiscalização e responsabilização são etapas essenciais no combate às atividades ilegais”, comenta Abad.

Para Valdiones, a fiscalização deve ser associada a mais transparência nos dados sobre desmatamento ilegal e iniciativas de adequação ambiental no Mato Grosso, região de atuação do ICV. “A transparência, aliada ao uso e produção de informações a partir desses dados públicos, deixa claro quem é quem. Fica claro quem tem passivo ambiental”, aponta.

Áreas protegidas em risco

Nos meses de Março e Abril houve um aumento nas taxas de desmatamento detectado na Bacia do Xingu em relação aos dois primeiros meses do ano. Foram registrados 21.495 hectares desmatados, o que representa um aumento de 156% em relação ao período anterior. Desse total, 19% foi desmatado no interior de Áreas Protegidas: Terras Indígenas e Unidades de Conservação. A Bacia do Xingu é uma área de 51 milhões de hectares que inclui 31 Terras Indígenas e 21 Unidades de Conservação abrangendo mais de 60 municípios no Pará e Mato Grosso. A região comporta uma sociobiodiversidade única, que corre sério risco com o avanço do desmatamento, grilagem, garimpo, roubo de madeira e a contaminação da paisagem por agrotóxicos.

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